A pergunta “o que é ser um luterano?” tornou-se especialmente urgente em nosso tempo. O nome luterano aparece hoje associado a realidades profundamente distintas entre si. Instituições que nasceram para servir cristãos luteranos abandonaram publicamente a fé cristã histórica. Congregações que carregam o nome “luterana” professam credos inventados, adaptados às pressões culturais do momento. A mídia, por desconhecimento teológico ou por conveniência narrativa, trata todos os luteranos como se fossem uma coisa só. Diante disso, muitos fiéis ficam confusos, escandalizados ou até envergonhados. Outros perguntam com razão se ainda faz sentido usar o nome “luterano”.
Para responder corretamente, é preciso ir às raízes. E essas raízes não começam com uma marca institucional, nem com uma ideologia, mas com a confissão da fé cristã.
Lutero e a Igreja que ele amava
Martinho Lutero jamais teve a intenção de fundar uma nova igreja. Isso precisa ser dito com toda clareza. Lutero amava profundamente a Igreja una, santa, católica e apostólica, confessada no Credo. Ele não se via como líder de um movimento separatista, mas como um teólogo e pastor chamado a servir essa Igreja, corrigindo abusos e erros que haviam se acumulado ao longo do tempo.
Em vários escritos, Lutero rejeita explicitamente a ideia de que os cristãos devam ser chamados por seu nome. Ele afirma que não foi crucificado por ninguém, nem derramou seu sangue pela salvação do mundo, e por isso não merece que a Igreja leve seu nome (Lutero, Contra os Profetas Celestiais, 1525). Para ele, o centro da Igreja sempre foi e sempre deveria ser Cristo.
O objetivo de Lutero nunca foi dividir a Igreja, mas reformá-la à luz da Palavra de Deus. Reforma, para Lutero, não significava inovação doutrinária, mas retorno. Retorno às Escrituras, retorno ao Evangelho puro, retorno à fé apostólica.
A necessidade histórica de um nome
Se Lutero não quis uma igreja com seu nome, por que então existe algo chamado Igreja Luterana?
A resposta não está em vaidade, mas em necessidade histórica. No século XVI, após o início da Reforma, surgiram muitos grupos diferentes, todos alegando fidelidade à Bíblia e ao Evangelho. Havia profundas divergências sobre quem Cristo é, o que é a salvação, como os sacramentos devem ser entendidos e qual é a autoridade da Escritura. Em meio a essa multiplicidade de vozes, tornou-se inevitável identificar, de forma clara, qual confissão ensinava o quê.
O termo “luterano” passou a ser usado inicialmente como rótulo externo, muitas vezes de forma pejorativa. Com o tempo, porém, ele foi assumido de modo confessional, não para glorificar Lutero, mas para indicar uma igreja que permanecia firme na doutrina que ele ensinava porque essa doutrina estava de acordo com as Escrituras. Assim, o nome “luterano” tornou-se uma forma prática de dizer: aqui está uma igreja que confessa o Evangelho tal como foi redescoberto na Reforma.
Ser luterano não é seguir um homem
Ser luterano não significa aceitar tudo o que Lutero disse ou escreveu como se fosse infalível. A Igreja Luterana nunca confessou Lutero como autoridade final. A autoridade final é a Palavra de Deus. Lutero é valorizado porque ensinou corretamente essa Palavra, não porque fosse a fonte dela.
Esse princípio está claramente afirmado no Livro de Concórdia, quando as Confissões Luteranas declaram que são aceitas porque concordam com as Sagradas Escrituras. Elas não estão acima da Bíblia, mas abaixo dela, como testemunho fiel de seu ensino (Livro de Concórdia, Prefácio).
Por isso, quando uma igreja abandona o ensino bíblico, mesmo mantendo o nome “luterana”, ela já não é luterana em sentido teológico. O nome, por si só, não garante fidelidade.
Luteranismo não é herança cultural
Outro equívoco comum é pensar que ser luterano é uma questão de cultura, etnia ou tradição familiar. Em muitos contextos, especialmente no Brasil e em outros países da América Latina, a Igreja Luterana é frequentemente identificada como “a igreja dos alemães”, como se o luteranismo fosse uma expressão religiosa ligada a um povo específico, a uma língua ou a costumes europeus. Essa associação histórica existe, mas ela não define o que é o luteranismo em sua essência.
De fato, o luteranismo marcou profundamente povos e nações, sobretudo em regiões de colonização germânica. No entanto, a fé luterana não se transmite geneticamente, nem por herança cultural. Ninguém é luterano por nascer em determinada família, falar determinada língua ou preservar determinados costumes. A fé luterana nasce exclusivamente da Palavra de Deus proclamada e dos sacramentos administrados conforme a instituição de Cristo, como ensina o apóstolo Paulo: “a fé vem pelo ouvir, e o ouvir, pela palavra de Cristo” (Rm 10.17).
Quando o luteranismo é reduzido a uma identidade étnica ou cultural, perde-se seu caráter verdadeiramente católico, isto é, universal. A Igreja confessada por Lutero nunca foi pensada como uma igreja nacional ou étnica, mas como parte da única Igreja de Cristo espalhada por todo o mundo, reunida em torno do Evangelho puro e da correta administração dos sacramentos.
Por isso, uma igreja pode ter raízes históricas profundas na Reforma e ainda assim afastar-se completamente da fé luterana. Quando a autoridade das Escrituras é relativizada, quando a Lei de Deus é silenciada para evitar escândalo, quando o pecado é redefinido conforme as modas culturais e não segundo a Palavra de Deus, o conteúdo da fé é perdido, ainda que o nome “luterano” permaneça. Nesse caso, resta apenas uma identidade cultural vazia, mas não a confissão viva da fé luterana.
O luteranismo não é patrimônio de um povo, mas confissão da verdade do Evangelho. Onde essa verdade é proclamada com fidelidade, ali há Igreja. Onde ela é abandonada, não há herança cultural capaz de substituí-la.
Escritura e Confissão caminham juntas
Ser luterano significa confessar a fé cristã conforme as Escrituras, tal como essa fé é exposta nas Confissões Luteranas. Essas confissões não são documentos arqueológicos, mas declarações vivas da fé da Igreja.
O coração dessa confissão encontra-se no Catecismo Menor de Lutero, que organiza a vida cristã em torno dos fundamentos da fé. Os Dez Mandamentos mostram a vontade de Deus e revelam o pecado. O Credo confessa quem Deus é e o que ele faz para a salvação. O Pai Nosso ensina a viver como filhos de Deus. O Batismo, a Confissão e a Santa Ceia mostram como Deus entrega concretamente o perdão dos pecados.
Nada disso é aleatório. Tudo aponta para um centro único.
A justificação como eixo de tudo
Esse centro é a doutrina da justificação. Ser luterano é confessar que o ser humano é justificado diante de Deus somente pela graça, somente por meio da fé, somente por causa de Cristo. Lutero chamou essa doutrina de o artigo pelo qual a igreja permanece ou cai, e essa afirmação foi incorporada às Confissões Luteranas (Artigos de Esmalcalde, Parte II, Art. I).
O Catecismo expressa essa verdade de forma pessoal e pastoral quando confessa que Cristo redimiu um pecador perdido e condenado, não com ouro ou prata, mas com seu santo e precioso sangue (Lutero, Catecismo Menor, 1529).
Aqui está o escândalo e o consolo do luteranismo. O ser humano não contribui para a sua salvação. Ele não coopera com a graça. Ele recebe. Tudo é obra de Deus.
Lei e Evangelho como chave hermenêutica
Por causa disso, o luteranismo insiste na correta distinção entre Lei e Evangelho. A Lei revela o pecado, acusa a consciência e mostra a justa ira de Deus contra o pecado. O Evangelho anuncia o perdão completo dos pecados por causa da obra perfeita de Cristo.
Quando a Lei é abandonada, o pecado deixa de ser levado a sério. Quando o Evangelho é distorcido, a graça deixa de ser graça. C. F. W. Walther afirma que não distinguir corretamente Lei e Evangelho é destruir o Evangelho, mesmo quando se usa linguagem cristã (Walther, Lei e Evangelho).
Uma igreja que rejeita a Lei para acomodar os desejos do tempo não perde apenas a moral, mas perde o próprio Evangelho, pois já não chama pecadores ao arrependimento.
Os meios da graça como fundamento do consolo
O luteranismo não fala apenas de uma salvação abstrata. Ele confessa que Deus entrega concretamente o perdão por meio de meios visíveis e audíveis. O Batismo não é símbolo vazio, mas o lavar regenerador. A absolvição não é opinião pastoral, mas a própria palavra de Cristo. A Santa Ceia não é encenação simbólica, mas verdadeira comunhão com o corpo e o sangue de Cristo para remissão dos pecados.
Esses meios da graça existem para dar certeza. Deus não quer que o cristão viva na dúvida. Ele quer que o cristão saiba que é perdoado.
Ser luterano é viver em consolo, não em orgulho
Por isso, o objetivo de ser luterano nunca foi criar uma elite confessional ou alimentar orgulho denominacional. O objetivo é consolar consciências aflitas. A teologia luterana existe para responder à pergunta angustiante do coração humano: como posso ter um Deus gracioso?
Quando a resposta é colocada fora de nós, em Cristo, então o cristão pode descansar. Ele pode olhar para o Batismo recebido, para a Palavra ouvida, para a absolvição pronunciada, para a Ceia recebida, e ter plena certeza de que pertence a Deus.
Conclusão
Ser luterano é confessar a fé da Igreja una, santa, católica e apostólica conforme as Escrituras. O nome “luterano” não existe para substituir o nome cristão, mas para identificar, em meio à confusão doutrinária, uma igreja que deseja permanecer fiel ao Evangelho puro de Cristo.
Lutero nunca quis uma igreja com seu nome. Mas, diante da multiplicação de erros e distorções, tornou-se necessário identificar uma confissão fiel. Ser luterano, portanto, não é exaltar um reformador, mas confessar Cristo com clareza, fidelidade e confiança. Essa é, em última análise, a razão de existir do luteranismo.
Rev. Filipe Schuambach Lopes
05/02/2025 A+D