quinta-feira, 30 de outubro de 2025

Sobre a Reforma e o Dia de Todos os Santos


Quando entramos no mês de novembro, pode ser um pouco difícil entender exatamente em que momento estamos dentro do Ano da Igreja. Para nós, luteranos, o mês começa logo depois da celebração da Reforma, em 31 de outubro, e nas primeiras semanas também lembramos o aniversário do doutor Martinho Lutero, em 10 de novembro. Por isso, é natural que pensemos nesse período como um "tempo de Reforma". Além disso, como hoje em dia não é mais comum que a sociedade lembre ou celebre a Reforma, é importante que nós, cristãos, mantenhamos viva essa parte da história da Igreja.

Mas existe um motivo muito significativo para a Reforma ter começado justamente na véspera do Dia de Todos os Santos. Lutero fixou suas 95 teses na porta da Igreja de Todos os Santos porque sabia que os cristãos viriam para a missa na manhã seguinte. E o objetivo dele não era substituir ou apagar a Festa de Todos os Santos por algo chamado Reforma. O que ele queria era provocar uma reflexão sobre certas práticas que estavam confundindo ou obscurecendo a clareza do Evangelho de Cristo, o Evangelho que anuncia a graça e o perdão gratuitos. Como doutor das Escrituras e mestre da Igreja, Lutero queria chamar o povo de Deus de volta às suas raízes, à fé verdadeira que foi entregue aos santos uma vez por todas.

As pessoas que criticam a celebração da Reforma têm um ponto válido se essa celebração for feita como um momento de orgulho e comparação. Isso acontece quando usamos uma mão para nos elogiar e a outra para atacar os outros. Infelizmente, em alguns lugares o Dia da Reforma se tornou um momento para criticar a Igreja de Roma por seus erros e exaltar a nós mesmos por não sermos tão católicos. Quando isso acontece, perdemos completamente o sentido verdadeiro da Reforma. É claro que Lutero fez uma crítica profunda e necessária aos erros da doutrina e da prática da Igreja Romana, que estavam afastando o povo do Evangelho. Mas ele também se posicionou contra os erros que surgiram entre outros grupos protestantes, especialmente sobre os Sacramentos. No entanto, o foco principal da Reforma não foi destruir, mas confessar e ensinar a pura verdade das Escrituras, chamando toda a Igreja a se voltar novamente para Cristo e para a sua Palavra.

É importante lembrar que Lutero e a confissão que leva o seu nome, mesmo contra a sua vontade, não apareceram do nada. Lutero era cristão porque foi batizado e criado dentro da Igreja Católica Romana, apesar dos seus erros. Foi dentro dela que ele conheceu as Escrituras, estudando como monge, acadêmico e professor. E foi através de seu confessor, o padre João Staupitz, que ele ouviu e aprendeu a amar o Evangelho do perdão.

Lutero nunca desprezou seus pais na fé nem os inúmeros santos que vieram antes dele, todos batizados e formados na mesma Igreja. O único desejo dele, movido por amor a Cristo e à Igreja, era ver uma verdadeira reforma, baseada na fé e na confissão originais da Igreja. Pela graça e providência de Deus, tudo o que a Igreja precisava ainda estava lá: as Escrituras Sagradas, os Credos Ecumênicos, o Santo Batismo, o Ministério da Palavra e, mesmo com abusos e confusões, a Confissão e Absolvição, a Santa Ceia e a Liturgia ainda permaneciam. A Igreja só precisava redescobrir e valorizar novamente esses dons preciosos do Senhor.

A Igreja cristã de hoje continua precisando desse mesmo redescobrimento, e nós também. O pecado que habita em nós nos faz correr o mesmo risco da Igreja da Idade Média, pensando que Cristo, o Evangelho e os Sacramentos não são suficientes e que precisamos acrescentar algo nosso. Pode ser obras, programas, emoções, estratégias, dinheiro ou qualquer outra coisa. O pior de tudo é quando se desprezam os Meios da Graça e o Ministério da Palavra por acharem que são coisas "muito católicas", trocando-os por métodos de marketing e ideias mundanas.

Para nos proteger dessas tentações, é bom lembrar que não precisamos escolher entre a Reforma e o Dia de Todos os Santos, como se fossem opostos. Devemos celebrar ambos, pois um pertence ao outro.

Celebrar a Reforma de forma correta é entender que o trabalho de Lutero e os acontecimentos do século XVI fazem parte da história da Igreja de Cristo. O doutor Lutero foi pastor e professor dessa Igreja, e foi justamente como tal que ele pregou o Evangelho para a Igreja e em favor dela. Da mesma forma, a Confissão de Augsburgo e todo o Livro de Concórdia reafirmam nossa comunhão com a Igreja cristã de todos os tempos e lugares, conforme confessamos nos Credos. O Dia de Todos os Santos também faz parte dessa mesma comunhão.

Quando lembramos dos santos que vieram antes de nós, confessamos nossa união com todos os que vivem pela fé em Cristo, tanto os que estão conosco agora como os que já estão na eternidade. Não é cristão, mas pagão, pensar que os que morreram desapareceram e não existem mais. Nosso Senhor ensina o contrário, e nós sabemos disso. Quando lembramos os patriarcas e profetas do Antigo Testamento, os apóstolos e evangelistas do Novo, os bispos, pastores, mártires e santos da antiga Igreja, fazemos isso porque estamos unidos a todos eles no Corpo de Cristo.

Do mesmo modo, quando lembramos Lutero e os Reformadores, não é por nostalgia de um passado distante, mas porque nos alegramos pela comunhão que temos com todos os que vivem para sempre na Comunhão dos Santos. Eles estão com o Senhor, e o Senhor está conosco. Assim, somos todos um só Corpo em Cristo, e especialmente diante do altar do Senhor estamos mais próximos dos fiéis que já partiram do que daqueles que vivem ao nosso lado sem fé em Jesus.

+ Texto escrito pelo Rev. Dr.  Rick Stuckwisch: pastor luterano (The Lutheran Church—Missouri Synod) e conselheiro do Distrito de Indiana da LCMS. Ele possui Ph.D. em Estudos Litúrgicos pela University of Notre Dame (2003) e mestrado em Teologia pelo Concordia Theological Seminary, Fort Wayne (STM).

terça-feira, 21 de outubro de 2025

Reflexão Pastoral: "Por trás do púlpito, há um coração que também sangra!"

Recentemente, vi uma imagem que me tocou profundamente, daquelas que falam mais do que mil palavras. Nela, há uma pessoa deitada em seu leito de morte. Ao redor, sua família, rostos aflitos, mãos entrelaçadas, olhares marejados. Diante da cama, está o pastor, com a expressão serena, segurando a mão do enfermo. Mas à frente do pastor, há algo ainda mais comovente: a figura de Jesus, com os braços abertos, acolhendo aquela alma cansada em seus últimos momentos. O olhar do Salvador repousa sobre o moribundo com ternura como quem diz por meio do pastor: “Você não está sozinho. Eu estou aqui. É por meio dele que eu te toco.” Essa imagem, mais do que uma arte bonita, é uma confissão viva da fé cristã. Ela retrata, de forma simples e poderosa, o que muitas vezes esquecemos: o ministério pastoral é o modo pelo qual Cristo continua presente e atuante na vida do seu povo.

O ministério pastoral é a presença visível do Cristo invisível. Ele acompanha o cristão em todas as estações da vida, do primeiro suspiro de fé no Batismo ao último suspiro da existência terrena. O pastor está lá no início, quando a água do Batismo toca a cabeça de uma criança e o Espírito Santo a faz renascer para a vida eterna. Está lá no tempo do aprendizado catequético, ensinando a Palavra, preparando jovens e adultos para a Confirmação, guiando corações a compreenderem o Evangelho. Está lá no altar, conduzindo o povo no culto, servindo com a Palavra e os Sacramentos, partilhando o pão da vida e o cálice da salvação. Está lá nas alegrias, quando abençoa um casamento, quando ergue as mãos sobre uma família que começa. Está lá nas dores, quando visita o enfermo, quando consola o enlutado, quando segura a mão de quem parte. O pastor está presente não porque ele é o centro, mas porque Cristo está presente através dele. O ministério pastoral é o toque de Cristo através de mãos humanas, é a voz do Pastor eterno ecoando por meio da voz de um servo.

Quando olhei aquela imagem, uma verdade me atravessou a alma: não é o pastor quem salva, é Cristo quem salva. Mas Cristo quis salvar por meio de meios. Ele quis se fazer próximo. Ele quis que o consolo da Palavra fosse pronunciado por lábios humanos, que o perdão fosse entregue por mãos humanas, que o cuidado fosse transmitido por uma presença humana. E isso é o ministério pastoral. É um ofício santo, nascido do coração de Deus. Não é invenção humana, não é uma função burocrática. É o modo pelo qual o Senhor continua servindo o seu povo, pregando, perdoando, batizando, alimentando, abençoando, confortando.

E, no entanto, é doloroso perceber como esse ministério tem sido, em nossos dias, tão pouco valorizado. Muitos veem o pastor apenas como um funcionário da igreja, um organizador de cultos, um palestrante de fim de semana, alguém que “trabalha com religião”. Mas o ministério pastoral não é um emprego. É uma vocação. É um chamado de Cristo para ser despenseiro dos mistérios de Deus, como diz o apóstolo Paulo em 1Coríntios 4.1. É o cuidado de almas. É o consolo aos aflitos. É o ensino da verdade. É o amor que corrige, exorta, consola e guia. É a presença fiel de Deus em meio à fragilidade humana. O pastor é aquele que entra em lugares onde poucos têm coragem de entrar, hospitais, presídios, cemitérios, lares despedaçados. Ele se assenta ao lado do doente, escuta o silêncio do enlutado, segura a mão do pecador arrependido e diz, em nome de Cristo: “Teus pecados estão perdoados.”

Mas, infelizmente, muitos têm negligenciado esse cuidado. Ignoram a presença do pastor até que a dor os alcance. Esquecem-se de que aquele homem que está ali no altar, no púlpito, no hospital, no velório, ele deixou tudo para trás, família, segurança, planos pessoais, para viver o chamado de servir em nome de Cristo. É uma vocação que exige o coração inteiro. E, muitas vezes, é uma vocação solitária. O pastor carrega o peso de muitas histórias, muitas dores, muitas lágrimas, e, ainda assim, precisa continuar firme, pregando a esperança, mesmo quando ele mesmo sente o peso da cruz. Ele também é pecador, também se cansa, também chora. A vida pastoral é, muitas vezes, uma estrada de renúncia silenciosa, sustentada pela graça de Deus.

Lembrei-me, então, das palavras de Paulo na Epístola lida no último sábado, dia 18 de outubro, quando celebramos São Lucas, o evangelista e médico amado. Em 2Timóteo 4, o apóstolo escreve de sua prisão, próximo da morte, e diz: “Todos me abandonaram... mas somente Lucas está comigo.” Que frase carregada de humanidade e fidelidade! Paulo, cansado e sozinho, encontra consolo em um irmão fiel que não o deixou. Lucas permaneceu. Ele ficou. Ele foi presença. Essa breve menção nos ensina algo precioso: o ministério é marcado, muitas vezes, por abandono, mas também por fidelidade silenciosa. E todo pastor precisa de “Lucas” na sua vida, pessoas que permaneçam, que orem, que estejam por perto, que sejam suporte, que o lembrem de que ele não está só.

E é preciso dizer: os pastores contam muito com as suas esposas. Elas são companheiras de jornada, sustentáculos silenciosos, presentes nos bastidores de cada culto, de cada visita, de cada madrugada em oração. Elas sentem junto as alegrias e as dores do ministério, partilham os fardos invisíveis e celebram as pequenas vitórias diárias que só quem vive o chamado pastoral conhece. Eu, graças a Deus, tenho a minha esposa, Aline, enviada por Deus, que está sempre comigo, do meu lado, nos momentos de alegria ou de tristeza, no riso ou no choro. O apoio dela é um reflexo do próprio cuidado de Cristo, que fortalece e consola através do amor humano.

O pastor não é um herói. Ele não é infalível. Ele é, antes de tudo, um pecador perdoado, chamado para ser instrumento do perdão. E o ministério que ele exerce não é dele, mas de Cristo. A Igreja o chama, o envia e o sustenta. E, por isso, o cuidado pastoral é tarefa de todos. É missão compartilhada. A Igreja não é Igreja sem o pastor; e o pastor não pode ser pastor sem a Igreja. Um corpo só vive quando cada membro cuida do outro. E assim deve ser também na comunidade da fé.

Por isso, valorize o seu pastor. Ore por ele. Caminhe junto. Esteja perto. Ouça-o. Cuide dele como ele cuida de você. Quando ele errar, seja paciente. Quando ele estiver cansado, seja apoio. Quando ele se calar, perceba que às vezes o silêncio também é uma oração. Não seja o primeiro a criticar, seja o primeiro a estender a mão. Lembre-se: o pastor é o canal, mas é Cristo quem flui. Ele é o mensageiro, mas a mensagem é divina. Ele é humano, mas o que ele carrega é eterno.

O pastor precisa de você. E a Igreja também. Porque, no fundo, não há ministério pastoral sem comunidade, nem comunidade viva sem ministério pastoral. O rebanho precisa do pastor, e o pastor precisa do rebanho. Juntos, permanecem sob os braços abertos de Cristo, o verdadeiro Pastor, que não abandona suas ovelhas nem mesmo na hora da morte, mas as conduz para a vida eterna.

E é isso que aquela imagem me fez ver com lágrimas nos olhos: no fim de tudo, quando as forças se esgotam e o corpo já não responde, lá está Cristo. À frente do pastor, à frente da família, à frente de tudo, com os braços abertos, dizendo: “Venham, benditos de meu Pai! Venham herdar o Reino que está preparado para vocês desde a fundação do mundo. ” (Mt 25.34). É para esse momento que o pastor vive, prega, consola e serve. É para esse abraço que todos nós caminhamos. E enquanto essa jornada não termina, o ministério pastoral continua sendo o modo visível de Cristo cuidar do seu povo invisivelmente, até o dia em que veremos o próprio Pastor face a face.

Rev. Filipe Schuambach Lopes
21/10/2025

terça-feira, 7 de outubro de 2025

A rubrica esquecida: a reverência na recitação do Credo


A reverência na confissão de fé
Existe uma antiga rubrica litúrgica, isto é, uma orientação de culto que indica o modo como a congregação e o ministro participam das partes sagradas da liturgia, que ao longo das décadas foi sendo esquecida em muitas comunidades: a reverência durante a confissão de fé.

O culto cristão é repleto de rubricas que educam a nossa piedade e ordenam a participação de todos. Levantar-se para a leitura do Santo Evangelho é uma rubrica que expressa honra à voz de Cristo que fala nas Escrituras. O gesto do pastor voltar-se ao altar para exercer o seu ofício sacerdotal, em oração e intercessão, e voltar-se à congregação para exercer o seu ofício profético, proclamando e ensinando, também é uma rubrica. Fazer o sinal da cruz em lembrança do santo batismo nas declarações trinitárias, ao invocarmos o nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo, é outra rubrica que confessa com o corpo aquilo que cremos com o coração.

Essa prática se refere ao momento em que recitamos as palavras do Credo, seja o Credo Apostólico, seja o Credo Niceno, ambos usados regularmente em nossos cultos. Achei importante trazer esse tema porque, para nós, cristãos luteranos, confessar a fé é algo tão comum e tão presente no culto e na vida diária que corremos o risco de simplesmente repetir as palavras sem perceber o que estamos dizendo.

A confissão de fé não é uma mera recitação mecânica, mas um ato de adoração. Cada frase do Credo é uma declaração viva de fé no Deus que se revelou em Cristo. E foi justamente refletindo sobre isso que encontrei essa antiga rubrica, que nos convida a uma atitude de corpo e coração, um gesto de reverência, quando pronunciamos um ponto muito especial da nossa confissão: o mistério da encarnação.

Durante séculos, a Igreja ensinou os fiéis a fazer uma pequena inclinação ao dizer, no Credo Niceno: “o qual por nós, homens, e pela nossa salvação, desceu do céu e se encarnou pelo Espírito Santo na virgem Maria e foi feito homem”; e, no Credo Apostólico: “o qual foi concebido pelo Espírito Santo, nasceu da virgem Maria”.

Esse gesto não é mero formalismo, mas um ato de fé corporal, um sinal visível de respeito e adoração diante do insondável amor de Deus, que se fez homem por nós.

A própria Bíblia nos ensina essa postura de reverência. No Salmo 95.6 está escrito: 
“Venham, adoremos e prostremo-nos; ajoelhemos diante do Senhor que nos criou.”
Aqui vemos claramente que o ajoelhar-se e o prostrar-se são expressões externas de uma fé interna. São gestos que nascem do reconhecimento da grandeza de Deus e da gratidão pela sua presença entre nós.

Quando a Igreja se ajoelha ao confessar que o Filho de Deus se encarnou, ela está fazendo o que o salmista convida: adorar, prostrar-se e reconhecer que o próprio Criador veio habitar entre suas criaturas. É um gesto simples, mas profundamente teológico, porque expressa com o corpo aquilo que cremos com o coração: o Verbo se fez carne e habitou entre nós (João 1.14).

A prática
As fontes históricas não são unânimes quanto à forma exata da reverência que deve ser feita durante a confissão de fé. No rito romano, a rubrica tradicional descreve uma genuflexão lenta, na qual o joelho direito toca o chão nas palavras homo factus est (“e foi feito homem”), retornando à posição ereta de maneira igualmente lenta (Fortescue, The Ceremonies of the Roman Rite, p. 49). Essa prática se baseia em uma rubrica latina da Idade Média, oficialmente reconhecida em 1502. Ainda que não se saiba há quanto tempo era usada antes disso, o fato de ter sido aceita de modo orgânico, segundo o Cânon de Vicente de Lérins — “o que foi crido em todos os lugares, sempre e por todos” — indica que esse gesto de reverência já era amplamente difundido muito antes dessa data (Reid, The Organic Development of the Liturgy).

Entre os anglicanos, a tradição estabeleceu uma inclinação profunda do corpo em todos os dias, exceto na Missa do Dia de Natal, quando se faz uma genuflexão completa em substituição à inclinação (Lamburn, Ritual Notes, p. 51–83).

Os luteranos, por sua vez, conservaram uma forma equilibrada entre essas tradições, enfatizando sobretudo o gesto de reverência. O próprio Martinho Lutero faz referência a essa prática em um de seus sermões de Vésperas de sábado sobre o Evangelho de João, pregado em 1537: “E quando a congregação chegava às palavras ‘nascido da virgem Maria e feito homem’, todos faziam uma reverência e retiravam o chapéu.” (Luther’s Works, vol. 22, p. 102)

O historiador Ernst Zeeden registra um episódio semelhante: 
“Pode-se mencionar, neste contexto, que quatro meninos faziam uma reverência diante do altar na igreja do castelo de Mansfeld durante as palavras ‘e foi feito homem’ (homo factus est), a fim de defender a fé contra o erro flaciano.” (Faith and Act, p. 21)
Zeeden observa ainda que essa prática também aparece na ordem eclesiástica de Hoya de 1572, embora sem menção explícita quanto à postura do celebrante, diácono, subdiácono ou povo.

Já a ordem eclesiástica de Braunschweig-Wolfenbüttel, preparada por Martim Chemnitz e Jacob Andreae, não traz instruções além de indicar que o Credo deve ser recitado ou cantado, podendo ser substituído pelo hino de Lutero Wir glauben all an einen Gott (“Cremos todos em um só Deus”). Da mesma forma, a agenda litúrgica de Löhe não apresenta rubricas adicionais, apenas orientando que o Credo seja dito ou cantado.

No contexto da Igreja Luterana Ocidental, três manuais rubricais de grande relevância mencionam explicitamente essa prática. Paul H. D. Lang escreve que o celebrante e seus assistentes
 “devem inclinar-se ou ajoelhar-se quando são ditas as palavras do Credo Niceno: ‘E se encarnou pelo Espírito Santo... e foi feito homem’, expressando reverente admiração pela graça de Deus em tornar-se homem para redimir-nos.” (Ceremony and Celebration, p. 62)
Lang também descreve o gesto dos fiéis durante a confissão de fé: 
“Ao recitar o Credo Niceno, o fiel pode inclinar a cabeça nas palavras ‘Deus’, ‘Jesus Cristo’ e ‘adorado e glorificado’. Mas, nas palavras ‘e foi feito homem’, pode fazer uma inclinação mais profunda, como sinal de respeito e adoração.” (Ceremony and Celebration, p. 111)
De modo semelhante, Arthur Carl Piepkorn, em Conduct of the Service, orienta:
“O celebrante pode inclinar-se a partir da cintura nas palavras ‘e se encarnou’ e permanecer inclinado até as palavras ‘foi crucificado também por nós’; volta à posição ereta antes das palavras ‘sob Pôncio Pilatos’. Em algumas partes da Igreja da Confissão de Augsburgo, o celebrante apoiava as pontas dos dedos sobre o corporal e fazia uma leve reverência desde as palavras ‘e se encarnou’ até ‘e foi feito homem’.” (Conduct of the Service, p. 19)
Charles McClean, em Conduct of the Services, ecoa Piepkorn: 
“O celebrante pode inclinar-se a partir da cintura nas palavras ‘e se encarnou’ e permanecer inclinado até as palavras ‘foi crucificado também por nós’; volta a ficar ereto antes das palavras ‘sob Pôncio Pilatos’.” (Conduct of the Services, p. 41)
Embora as fontes variem quanto às instruções específicas, todas convergem em um ponto essencial: manifestar reverência diante do mistério da encarnação é melhor do que permanecer imóvel e indiferente. Seja uma leve inclinação da cabeça, uma inclinação mais profunda do corpo ou, em algumas tradições, uma genuflexão, todos esses gestos expressam respeito, adoração e humildade diante do mistério do Deus que se fez homem.

O próprio Lutero reforça esse espírito em uma história ilustrativa narrada na mesma série de sermões sobre o Evangelho de João:
“Conta-se a história de um homem rude e grosseiro que, ao ouvir as palavras ‘e foi feito homem’ sendo cantadas na igreja, permaneceu em pé, sem fazer qualquer gesto de reverência nem retirar o chapéu. Não demonstrou respeito algum, ficando imóvel como uma pedra. Enquanto todos os demais se inclinavam devotamente ao confessar o Credo Niceno, o diabo aproximou-se dele e lhe deu um golpe tão forte que sua cabeça girou. E o amaldiçoou terrivelmente, dizendo: ‘Que o inferno te consuma, seu bruto! Se Deus tivesse se tornado um anjo como eu, e a congregação cantasse “Deus foi feito anjo”, eu me curvaria com todo o meu corpo até o chão! Sim, eu rastejaria dez côvados terra adentro! E tu, criatura miserável, ficas aí de pé como um pedaço de madeira! Ouves que Deus não se fez anjo, mas homem como tu, e permaneces imóvel!’ Seja essa história verdadeira ou não, ela está em plena harmonia com a fé (Romanos 12.6). Os santos padres queriam, com essa ilustração, ensinar os jovens a venerar o indescritível milagre da encarnação, a abrir bem os olhos e ponderar com atenção essas palavras.” (Luther’s Works, vol. 22, p. 105)
Essa narrativa, ainda que popular, expressa com força o sentido do gesto litúrgico. Inclinar-se em reverência diante das palavras do Credo é uma forma concreta de confessar a fé, um testemunho silencioso de gratidão e admiração diante do amor divino revelado na encarnação de Cristo.

O momento e o significado da reverência
As fontes litúrgicas variam quanto ao momento exato em que a reverência deve ser feita durante o Credo. À primeira vista, parece haver divergências, mas na verdade todas apontam para o mesmo propósito. As descrições diferem apenas na forma de explicar o gesto, mas o objetivo é o mesmo: o ponto mais profundo da inclinação deve ocorrer nas palavras “e foi feito homem”.

As diferentes instruções servem apenas para orientar o modo como o gesto se inicia e termina. Elas ajudam o celebrante e a congregação a chegar a esse ponto central em que o coração da confissão cristã se concentra. Assim, o importante é que o momento mais profundo da reverência aconteça justamente quando confessamos que “Deus se fez homem”. Para quem preside, a forma prática é simples: inicie a inclinação em “e se encarnou” e atinja o ponto mais baixo em “e foi feito homem”, retornando de modo calmo e consciente após essa cláusula.

Fortescue descreve essa ação com grande clareza:
“Quando o celebrante pronuncia as palavras Et incarnatus est, ele apoia as mãos sobre o altar, fora do corporal, e se ajoelha sobre um dos joelhos. Ele não se levanta até terminar de dizer Et homo factus est. É melhor realizar a genuflexão de maneira lenta e completa do que apenas apoiar um joelho no chão.” (The Ceremonies of the Roman Rite, p. 49)
Embora o autor descreva o gesto de ajoelhar-se, o princípio permanece o mesmo para a reverência corporal: não é um movimento apressado, mas um ato intencional, calmo e consciente. A inclinação do corpo é uma confissão feita com o corpo, um testemunho visível de fé e adoração diante do mistério da encarnação do Filho de Deus.

O motivo: a cerimônia como confissão encarnada
Assim como o momento do gesto, o motivo também é descrito de várias maneiras, mas todas convergem para o mesmo sentido. A reverência é uma confissão de adoração e reconhecimento diante do mistério da encarnação e da humilhação do Senhor.

Martinho Lutero comenta:
“Seria ainda apropriado ajoelhar-se nas palavras ‘e foi feito homem’, cantá-las com notas longas como se fazia antigamente, ouvir com o coração alegre a mensagem de que a majestade divina se rebaixou e tornou-se semelhante a nós, pobres sacos de vermes, e agradecer a Deus pela inefável misericórdia e compaixão refletidas na encarnação da divindade.” (Luther’s Works, vol. 22, p. 102)
O que Lutero expressa aqui é mais do que um simples costume. Ele fala de uma atitude espiritual de humildade e reverência que se manifesta também no corpo. A inclinação do corpo, ou o ajoelhar-se em algumas tradições, é uma maneira de confessar com o corpo o que o coração crê com fé: que o Deus eterno abaixou-se até nós.

Arthur Carl Piepkorn e Charles McClean explicam que esse gesto recorda o momento em que os soldados romanos se ajoelharam diante de Cristo, em zombaria, durante sua paixão, e que a Igreja, em contraste, o faz agora em verdadeira adoração (Piepkorn, Conduct of the Service, p. 19; McClean, Conduct of the Services, p. 41).

Paul H. D. Lang acrescenta: 
“Ajoelhar-se é também expressão de adoração, por exemplo, nas palavras ‘e foi feito homem’ do Credo Niceno.” (Ceremony and Celebration, p. 61)

O escritor Martin Mosebach, em The Heresy of Formlessness, amplia o significado espiritual do gesto de inclinar-se na liturgia cristã. Ele observa que esse gesto tem suas raízes no próprio Novo Testamento, onde repetidas vezes encontramos pessoas que, ao reconhecerem a divindade de Jesus, se prostram em reverência diante dele. Ele escreve:
“E prostrou-se e o adorou.” Essa expressão não está limitada ao relato de São João sobre a cura do cego, mas aparece sempre que alguém percebe a divindade de Jesus. Essa reverência do Novo Testamento não é cerimonial: é uma reação espontânea, a resposta a uma epifania da graça. É como se a pessoa fosse lançada ao chão por um relâmpago de revelação. E nesse momento, inclinada diante de Cristo, ela vê mais do que todos os que estão em pé, e não encontra outra palavra melhor para responder ao que viu senão a palavra Creio.” (The Heresy of Formlessness, p. 90)
Essa atitude não se limita ao Novo Testamento. Toda a Escritura mostra que curvar-se diante de Deus é sinal de fé, humildade e adoração. Daniel orava prostrado três vezes ao dia (Daniel 6.10). Salomão inclinou-se diante de todo o povo na dedicação do templo (1 Reis 8.54). Esdras orou em reverência diante do Senhor (1 Esdras 9.5). Os magos inclinaram-se diante do Menino Jesus (Mateus 2.11). Um leproso se prostrou diante do Senhor (Marcos 1.40). Estêvão curvou-se em oração ao morrer (Atos 7.59). Pedro e Paulo oraram em reverência (Atos 9.40; 20.36). O apóstolo Paulo fala em dobrar os joelhos diante do Pai (Efésios 3.14) e afirma que todo joelho se dobrará diante de Jesus (Filipenses 2.10). E o próprio Cristo, em Getsêmani, curvou-se para orar (Lucas 22.41).

Os antigos pais da Igreja também compreenderam essa postura de reverência como parte da adoração cristã. No Catálogo de Testemunhos, incluído em várias edições do Livro de Concórdia, encontramos declarações que reforçam esse entendimento:

Atanásio: “A santa Igreja católica condena quem disser que a carne humana de nosso Senhor não deve ser adorada como carne do Senhor e de Deus.”

Ambrósio: “Os anjos não adoram somente a divindade de Cristo, mas também o seu escabelo. O profeta diz que a terra que o Senhor assumiu ao encarnar-se deve ser adorada. Assim entendemos ‘escabelo’ como a terra, isto é, a carne de Cristo, que hoje também adoramos nos sacramentos e que os apóstolos adoraram no Senhor Jesus.”

Agostinho: “Ele nos deu essa própria carne para comermos para a salvação. Ninguém come essa carne sem antes adorá-la. Não apenas não pecamos ao adorá-la, mas pecamos se não a adorarmos.”

Diante disso, fica evidente que a reverência é o gesto natural da fé diante da manifestação de Deus. Inclinar-se é o modo com que o corpo confessa a fé no Deus que se fez visível. A inclinação e, em algumas tradições, a genuflexão, acompanham os momentos de epifania divina dentro da liturgia. O cristão curva o corpo ao entrar na casa de Deus, como Moisés diante da sarça ardente, reconhecendo que pisa em solo sagrado.

Inclinamo-nos durante o Credo, recordando a encarnação em que Deus se tornou visível. Inclinamo-nos também na consagração, quando o corpo e o sangue do Senhor estão realmente presentes sobre o altar. E inclinamo-nos ao receber a bênção final, reconhecendo que é uma bênção que vem do alto.

O momento em que dizemos “e foi feito homem” é justamente um desses momentos de epifania dentro do culto. É a confissão de que o Verbo eterno de Deus, a segunda pessoa da Santíssima Trindade, tornou-se homem, carne da nossa carne e osso dos nossos ossos, um de nós e por nós.

Como poderíamos ouvir tais palavras e permanecer imóveis? Diante desse mistério, a Igreja inclina-se em profunda reverência e confessa com todo o ser: o Deus invisível se fez visível, o Criador entrou na criação, o eterno assumiu o tempo, e o Senhor da glória fez-se servo para a nossa salvação.

Redescobrindo a reverência
Recuperar o gesto de reverência durante a confissão de fé não é apenas resgatar um costume antigo, mas retornar a uma postura profundamente bíblica e cristã. Inclinar-se, curvar a cabeça, demonstrar respeito com o corpo diante do mistério de Deus são gestos que sempre acompanharam o povo de Deus em momentos de adoração. Eles expressam o que as palavras sozinhas não conseguem: o reconhecimento da majestade divina e a humildade do coração que crê.

Quando a Igreja se inclina ao confessar que o Filho eterno de Deus se fez homem, ela está dizendo, com o corpo, aquilo que a alma proclama com fé. O gesto torna-se uma oração silenciosa, uma confissão sem palavras, uma catequese viva. Ele recorda a todos, inclusive às crianças e aos que ainda estão aprendendo a fé, que o que é dito ali não é apenas uma doutrina, mas um milagre: Deus veio até nós.

Ao inclinar o corpo ou abaixar levemente a cabeça no momento em que dizemos “e foi feito homem”, colocamo-nos diante do maior mistério da história: o momento em que o Criador entrou na criação, o infinito se fez pequeno e o santo assumiu a nossa carne. Esse é o centro da nossa fé, o coração do Evangelho, a boa-nova que dá sentido a todo o culto cristão.

Essa reverência não é obrigatória, mas é profundamente formativa. Ela educa a alma e o corpo na piedade, ensina que o culto não é apenas algo que assistimos, mas algo que vivemos com o coração e com o corpo, em comunhão com toda a Igreja de todos os tempos. O gesto da inclinação também nos recorda que o louvor cristão envolve o corpo inteiro, pois Deus nos criou por inteiro e nos redimiu por inteiro.

Por isso, redescobrir essa antiga rubrica é redescobrir também o encantamento do mistério. É reaprender a maravilhar-se com a encarnação, a reconhecer que cada palavra do Credo carrega o peso da eternidade, e que curvar-se diante do Deus que se fez homem é o gesto mais natural e verdadeiro que a fé pode produzir.

E assim, quando o povo de Deus confessa unido: “...o qual por nós, homens, e pela nossa salvação, desceu do céu e se encarnou pelo Espírito Santo na virgem Maria e foi feito homem...”

Que cada coração se incline, que cada corpo se curve, e que toda a Igreja confesse com alegria, reverência e fé: “O Verbo se fez carne e habitou entre nós.”