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segunda-feira, 24 de março de 2025

O Culto Luterano: Parte III - O Céu na Terra: a presença de Cristo no Culto Divino

A Palavra do Senhor é viva, eficaz e permanece para sempre (Hebreus 4.12; 1Pedro 1.23-25). Ela é uma Palavra que traz vida e age em nós, cumprindo sempre o que promete: perdoar nossos pecados e nos dar vida e salvação. Essa Palavra realiza tudo isso porque é o próprio Cristo, e ele é a única fonte de graça abundante (João 1.14).

Ele age em nós quando somos unidos a ele no Batismo, ouvimos sua Palavra pregada no púlpito e recebemos sua própria vida ao participarmos do seu Corpo e Sangue na Santa Ceia (Romanos 6; Romanos 10.17; 1Coríntios 10.16). Se temos este Jesus real, presente e visível, então também temos o céu, a comunhão dos santos e o acesso ao Pai, todas as vezes que nos reunimos no Dia do Senhor.

Como isso pode acontecer? Porque Cristo traz o Reino de Deus até nós. A Igreja Triunfante está onde ele está, pois somos o Seu corpo, e ninguém pode chegar ao Pai sem passar por ele (Mateus 3.2; 4.17; João 14.6; Romanos 12.5; 1Coríntios 12.12,27; Efésios 5.29; Colossenses 1.24). Isso significa que, no culto, o céu e a terra se unem, pois Cristo está presente, entregando-nos sua Palavra e seu Sacramento.

Altar da Congregação São Paulo (IELB) de Novo Hamurgo - RS
Por isso, algumas igrejas têm sobre o altar uma imagem do Cristo ressuscitado, para lembrar que ele está realmente presente conosco (Mateus 28.20). É também por isso que os pastores e auxiliares usam vestes brancas, simbolizando nossa união com a multidão daqueles que já partiram desta terra e estão desfrutando da glória nos céus (santos), vestidos com as vestes do Batismo (Apocalipse 7.9).

No culto, participamos do louvor celestial, cantando as mesmas palavras dos anjos e daqueles que já partiram desta terra e estão desfrutando da glória nos céus (santos), que já estão diante de Deus (Lucas 2.14; Apocalipse 5.12-13; 19.5-9; Isaías 6.3). Tudo o que fazemos no culto proclama, de maneira forte e clara, que Cristo está presente entre nós, entregando-nos Seus dons na Palavra e no Sacramento.

Nosso Senhor, junto com o próprio céu, se ocupa em perdoar pecadores e torná-los verdadeiramente santos — pessoas com valor, dignidade e uma nova identidade em Cristo. Pela sua graça, a Palavra viva e eficaz nos concede nova vida: uma vida plena, que começa já agora e se estende por toda a eternidade.

Assim, a cada semana, ao sairmos do Culto Divino, levamos conosco a paz que o mundo não pode oferecer — uma paz que foi colocada em nossas mãos pelo próprio Senhor Jesus Cristo, a Palavra viva e eterna, presente entre nós. Graças a Deus por tamanha dádiva!

terça-feira, 25 de fevereiro de 2025

O Culto Luterano - Parte I

Culto e rededicação na Igreja Luterana Redentor, Balboa, Cidade do Panamá, Panamá.

Todos nós temos motivos para participar do culto. Pode ser para agradecer a Deus pelo que ele fez em nossas vidas, para ter comunhão com outros irmãos na fé ou simplesmente porque sabemos que é o certo a fazer. Mas, acima de tudo, o culto é o momento em que a Igreja do Senhor se reúne para receber seus dons por meio da Palavra e do Sacramento. O ensino luterano, baseado na Bíblia, diz que a Igreja é “a congregação dos santos, na qual o evangelho é ensinado corretamente, e os sacramentos são administrados corretamente” (Confissão de Augsburgo VII).

A natureza de Deus é de entregar, e ele nos visita no culto para nos entregar o maior de todos os seus presentes: seu Filho, Jesus Cristo, que morreu e ressuscitou por nós. O perdão, a vida e a salvação que Jesus conquistou para nós na cruz são entregues por meio da Palavra, ou seja, na absolvição, na pregação e na Santa Ceia. Nós recebemos esses dons maravilhosos de Deus porque eles nos mantêm seguros em seu cuidado e nos fortalecem para continuar nossa vida aqui na terra.

Deus nos dá um tempo de descanso do nosso trabalho diário para que possamos receber gratuitamente esses presentes. Jesus é o nosso verdadeiro descanso, como ele mesmo diz: “Venham a mim todos vocês que estão cansados e sobrecarregados, e eu os aliviarei.” (Mateus 11.28)

No culto, Deus nos dá esse descanso, pois não precisamos fazer nada para merecer o que ele nos oferece. Ele nos dá de graça aquilo que Jesus conquistou com seu próprio descanso no túmulo no sétimo dia. Esse descanso nos é entregue no altar, no púlpito e na pia batismal.

Seja qual for seu motivo pessoal para vir ao culto, o culto sempre será sobre Deus servindo você. Por isso chamamos de Culto (Serviço) Divino: Deus, com sua graça, nos dá uma nova vida nEle, renovando-nos vez após vez. Ele nos enche com sua bondade, que transborda para os outros e nos fortalece para mais uma semana no mundo.

+ Rev. Filipe Schuambach Lopes.

terça-feira, 21 de janeiro de 2025

Reflexão sobre o uso do termo "missa" no contexto luterano


Há um grupo de jovens na internet que, movido pelas melhores intenções, mas de forma equivocada e potencialmente perigosa, utiliza o termo "missa" para designar o momento em que os luteranos se reúnem para o culto. Por isso, quero propor, por meio deste texto, uma reflexão sobre a adequação do termo "missa" à luz das confissões luteranas e do contexto brasileiro da Igreja. Para isso, utilizo um texto do Rev. Dr. John R. Stephenson, em The Lord’s Supper,[1] como base para esclarecer essa questão.

O termo “missa”
Ao examinar as confissões luteranas, em especial a Confissão de Augsburgo e sua Apologia, notamos que os reformadores preservaram o termo “missa”. Isso fica evidente no artigo XXIV da Confissão de Augsburgo (Da missa) e no artigo XXIV da Apologia (Sobre a Missa).

No entanto, os Artigos de Esmalcalde não compreendem mais essa expressão como representativa da liturgia do culto purificada pela Reforma Luterana.[2] Após a ruptura de Lutero com Roma, seu uso do termo "missa" foi inconsistente. Na década de 1530, Lutero desenvolveu uma aversão clara ao termo, que passou a ser associado ao conceito de extra Romanisticum — a ideia de que o celebrante (com ou sem a congregação) oferece o corpo e sangue de Cristo como um sacrifício propiciatório ao Pai.

Diante disso, os luteranos devem seguir o conselho de Daniel Preus e evitar seu uso para se referir à Santa Ceia.[3] Essa precaução protege a clara distinção luterana de que o Sacramento do Altar não é uma obra humana oferecida a Deus, mas um presente divino dado para a nossa salvação.

O termo “Culto” ou “Serviço Divino” (Hauptgottesdienst)
Em contraste, o uso dos termos “Culto” ou "Serviço divino” reflete melhor a teologia luterana de adoração. Alguns pensam que Friedrich Lochner, em seu estudo Der Hauptgottesdienst der evangelisch-lutherischen Kirche (O Culto Principal da Igreja Evangélica-Luterana) de 1895, introduziu o uso do termo "Hauptgottesdienst" como sinônimo para o momento em que o povo de Deus se reúne para receber os dons de Cristo na Santa Ceia. Contudo, essa compreensão já estava presente na Agende de 1844, elaborada por seu mentor, Löhe, e foi reforçada por autores como Paul Graff em sua obra Geschichte der Auflösung der alten gottesdienstlichen Formen in der evangelischen Kirche Deutschlands (História da dissolução das antigas formas litúrgicas na Igreja Evangélica da Alemanha).

O termo “Hauptgottesdienst” (Culto Principal) é adequado porque reflete a definição de Gottesdienst (culto divino) apresentada na Apologia da Confissão de Augsburgo, artigo IV. O texto latino da Apologia (IV.49) define fé como λατρεία (latreia), ou seja, a adoração que recebe os dons de Deus. Justus Jonas, na tradução alemã, descreve fé como "o tipo de Gottesdienst onde eu me deixo ser servido". A narrativa de Lucas 7.36–50 ilustra esse conceito, ao apresentar a mulher penitente que recebe o perdão de Cristo, exercendo a maneira mais elevada de adorar a Cristo: “este é o culto máximo de Cristo”. (Apologia IV.154).

Nesse sentido, o “Culto” ou “Serviço Divino" é compreendido como um ato de monergismo divino, em que Deus serve ao seu povo com seus dons. Ao mesmo tempo, a resposta apropriada da igreja a esses dons inclui louvor, amor e gratidão, como demonstra a consideração de Melanchthon sobre a história da mulher penitente (Ap IV).

O “culto principal” e a Santa Ceia
Falar do "Culto Principal” (Hauptgottesdienst) ressalta que a Santa Ceia é o único Culto regular explicitamente instituído pelo próprio Senhor. Durante o culto, Deus nos serve através do rito que ele mesmo instituiu na véspera de sua paixão. Nesse momento, participamos de uma Santa Ceia e de uma Santa Comunhão em seu Corpo e Sangue sacrificados, recebendo esses dons como uma manifestação plena de sua graça e amor.

Ao mesmo tempo, somos chamados a servir a Deus em resposta, por meio do agradecimento, do louvor e de uma vida dedicada à Sua glória. Esse aspecto responde à linguagem da “Eucaristia”, que significa “ação de graças”.

Conclusão
Portanto, à luz das confissões luteranas e da teologia confesional luterana, o termo “missa” carrega implicações teológicas que podem distorcer a compreensão correta da adoração luterana. Em vez disso, “Culto” ou “Serviço Divino” são termos mais apropriados, pois refletem fielmente a ênfase luterana na ação de Deus em favor do seu povo, enquanto este responde em louvor e gratidão.

Além disso, podemos perceber, conforme os Artigos de Esmalcalde que o termo "missa" não reflete mais com fidelidade a teologia luterana de culto. Deve-se considerar também que estamos em um país onde o catolicismo romano ainda exerce grande influência, inclusive no vocabulário. Assim, no Brasil, quando usamos o termo “missa” é comum que ele seja imediatamente associado à Igreja Católica Apostólica Romana, e não à Igreja Luterana. Por isso, devemos respeitar as consciências dos nossos irmãos e irmãs. Como vimos, o melhor termo para se usar é "Culto" ou "Serviço Divino", pois eles refletem de maneira clara toda a beleza da prática e da teologia do Culto Luterano.

Desejo que esta reflexão ajude na compreensão dos termos e no cuidado que devemos ter ao usá-los, para que possamos sempre expressar de forma fiel a riqueza e a profundidade da teologia e prática luteranas.

Rev. Filipe Schuambach Lopes

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[1] STEPHENSON, John R. The Lord’s Supper. Confessional Lutheran Dogmatics, Vol. 12. Northville, SD: The Luther Academy, 2003.
[2] Lutero, sobre a missa, afrma: “Que a missa deve ser considerada a maior e mais hedionda abominação no papado, pois se opõe direta e violentamente a esse artigo principal. No entanto, ela foi, acima e antes de todas as outras idolatrias papais, a mais elevada e bela. Pois afirma-se que esse sacrifício ou obra da missa (ainda que oferecido por um indivíduo mau) liberta os seres humanos de seus pecados, tanto aqui, em vida, como além, no purgatório. Mas isso, conforme dito acima, apenas o Cordeiro de Deus deve e tem de fazer” (Artigos de Esmalcalde, Parte Dois, Segundo Artigo).
[3] Para mais, leia Daniel Preus,“Luther and the Mass: Justification and the Joint Declaration,” LOGIA: A Journal of Lutheran Theology X/4 (Reformation 2001): 16.

quarta-feira, 8 de janeiro de 2025

Culto e Missão

Rev. Tyler McMiller, missionário da LCMS, ora durante o culto divino de abertura
da Igreja Luterana Christus Victor no sábado, 27 de janeiro de 2024, em Roma.

No dia 02 de janeiro, a Igreja lembrou Wilhelm Löhe, um dos grandes nomes do movimento missionário e litúrgico luterano. Em um artigo publicado em 2008, John T. Pless afirmou o seguinte:

“Löhe teria dificuldade em entender aqueles em nossos dias que colocariam ‘missão’ contra ‘liturgia’. Para ele, a igreja missional era uma igreja litúrgica. Uma de suas declarações frequentemente citadas é: ‘missão nada mais é do que a única igreja de Deus em movimento’. Este movimento não é um ativismo frenético, mas o movimento de Cristo para Seu povo na Palavra e Sacramento e o movimento daqueles que recebem os dons de Cristo para o mundo com a mensagem de salvação. O comprometimento de Löhe com a missão não pode ser entendido sem referência à liturgia. [...] Para ele, a indiferença doutrinária significava a morte do cristianismo. Por mais tentador que fosse minimizar as distinções doutrinárias no campo missionário, Löhe sabia que tal abordagem era um beco sem saída. Isso só poderia levar à destruição da igreja, pois roubaria dos cristãos a certeza da salvação que Cristo nos dá na pregação pura de sua Palavra. Privaria os cristãos do conforto de saber que Jesus lhes dá Seu corpo e sangue no Sacramento do Altar. A desunião doutrinária destrói a base para a missão genuína. Doutrina pura e missão energética andam de mãos dadas para Löhe.” [1]

Essas palavras nos trazem algumas reflexões, especialmente em nossos dias, quando há uma tentativa recorrente de separar a missão ou o evangelismo da liturgia. Ideias como "mais louvor; menos liturgia" ou "mais palavra (pregação); menos liturgia" ecoam em muitos lugares. Essa busca por moldar o culto segundo as preferências ou opiniões humanas acabam por desviar o foco de Cristo e de seus dons, negligenciando o papel essencial da liturgia na vida da Igreja.

Mesmo que essa verdade seja dura de aceitar, a liturgia é sim um dos pilares que mantém a Igreja de pé, pois a liturgia, de forma especial, a liturgia luterana nada mais é do que a própria Palavra de Deus sendo proclamada. Cada parte da liturgia está enraizada nas Escrituras. Basta abrir seu hinário luterano ou agenda litúrgica para perceber as referências bíblicas que fundamentam cada elemento litúrgico. Dizer que a liturgia não tem essa função é, na prática, duvidar da própria Palavra de Deus.

A liturgia, tal como possuímos em nossas agendas litúrgicas, não é fruto de um capricho momentâneo ou de uma inovação superficial. Ela foi cuidadosamente trabalhada por séculos, refinada por grandes teólogos que compreenderam sua profundidade e significado. É a essência da Igreja e, de muitas maneiras, define se uma igreja é verdadeiramente confessional ou não. Lutero, em sua reforma litúrgica, não aboliu a liturgia, mas a purificou de abusos e superstições, mantendo aquilo que melhor proclamava o Evangelho e os dons de Deus ao povo.

John T. Pless destaca que “a liturgia é o trabalho de Deus, não o nosso, e consiste em Deus descendo para nos dar dons que não podemos obter por nós mesmos”[2]. No culto, Deus vem até nós em sua Palavra e Sacramento, alimentando-nos com o perdão, a vida e a salvação. Não há missão genuína sem essa base.

A missão não é algo separado ou independente da liturgia; ela é um fruto direto dela. Quando nos reunimos para o culto, somos servidos por Deus com seus dons. No altar, recebemos o Corpo e o Sangue de Cristo, que nos fortalecem para a vida no mundo. É a partir desse fortalecimento que somos enviados para anunciar a mensagem da salvação, como muito bem afirma a liturgia de ação de graças:
“Suplicamos-te que concedas por tua graça que o mesmo nos fortaleça a fé em ti e nos dê ardente caridade para com o nosso próximo”. 
Esta oração é um momento que simboliza essa transição da liturgia para a missão, um lembrete de que a missão não é opcional, mas uma extensão do que significa viver como cristãos.

Como afirmou Pless, 
“a liturgia provê a congregação com uma forma ordenada de ouvir Deus falar, de receber o corpo e sangue de Cristo e de responder a Ele em oração, louvor e ação de graças”.[3] 
Esse movimento do altar para o mundo é o que Löhe chamava de “a única igreja de Deus em movimento”. Em outras palavras, a missão é a manifestação concreta do amor recebido de Deus na liturgia.

Portanto, a missão da Igreja não é algo que os cristãos iniciam por conta própria, mas um reflexo direto do que Deus já realizou por meio da liturgia. Ao participarmos da liturgia, somos enviados como instrumentos de Deus, chamados a proclamar o Evangelho e a demonstrar o amor de Cristo no mundo. Essa "liturgia após a liturgia" é a verdadeira essência da missão cristã: viver a fé recebida e compartilhá-la por meio do serviço ao próximo.

A tentativa de separar missão e liturgia frequentemente é acompanhada por um enfraquecimento da doutrina. Para Wilhelm Löhe, isso era inconcebível. Ele sabia que minimizar as distinções doutrinárias no campo missionário era um beco sem saída, pois isso roubaria dos cristãos a certeza da salvação. Conforme Löhe, “Doutrina pura e missão energética andam de mãos dadas”.

A missão não pode ser apenas um ativismo vazio. Ela deve estar firmemente enraizada na pregação pura do Evangelho e no uso correto dos sacramentos. Separar essas coisas é desviar-se do fundamento da fé cristã e comprometer a eficácia da missão. Não podemos desconectar a correta pregação da Palavra e a administração dos sacramentos da liturgia, pois é por meio da liturgia — e não de qualquer liturgia, mas de uma liturgia fiel à confessionalidade luterana — que isso acontece.

A liturgia é a estrutura pela qual a Palavra é pregada corretamente e os sacramentos são administrados de acordo com a ordenança de Cristo. É nela que Deus serve o seu povo, oferecendo perdão, vida e salvação. Quando a liturgia é negligenciada ou alterada para agradar às preferências humanas, corremos o risco de comprometer a pregação do Evangelho e o uso dos sacramentos, que são o cerne da missão da Igreja.

Portanto, missão e liturgia não são polos opostos, mas duas faces da mesma moeda. A liturgia não é um detalhe secundário, mas o alicerce pelo qual Deus comunica os seus dons e conduz a sua Igreja em missão. Sem ela, a missão perde sua base, e o Evangelho, sua centralidade. A liturgia nos prepara para a missão, e a missão nos leva de volta à liturgia, criando um ciclo em que Cristo é sempre o centro. A liturgia luterana, enraizada na Palavra de Deus e no Evangelho, é o canal pelo qual recebemos a graça e somos enviados ao mundo para proclamar essa mesma graça.

Que possamos aprender a valorizar a unidade entre doutrina, liturgia e missão, confiando que é o próprio Deus quem nos serve para que possamos servir ao próximo com fé e amor. Que a Igreja permaneça firme em sua confessionalidade, proclamando o Evangelho em sua plenitude, para a glória de Deus e a edificação de seu povo!


[1] PLESS, John T. The Missionary Who Never Left Home. Witness. Disponível em: https://witness.lcms.org/2008/the-missionary-who-never-left-home-2-2008/. Acesso em: 3 jan. 2025.

[2] PLESS, John T. Vocation: Fruit of the Liturgy. Logia: A Journal of Lutheran Theology, v. 11, n. 3, p. 3-8, 2002, p. 3.

[3] PLESS, John T. Vocation: Fruit of the Liturgy. Logia: A Journal of Lutheran Theology, v. 11, n. 3, p. 3-8, 2002, p. 49-50

quarta-feira, 2 de outubro de 2024

O Culto Luterano: o processional

   
Processional em Culto no Seminário Concórdia

    Todo culto ou evento precisa de um início. A maneira como algo começa define o clima e o tema do que está por vir. Um exemplo famoso é a abertura dos filmes de Guerra nas Estrelas, que sempre começa com a frase: “Há muito tempo, em uma galáxia muito, muito distante”, seguida do logotipo de Guerra nas Estrelas e uma introdução que contextualiza a história daquele filme específico. Essa abertura prepara o clima e as expectativas para o filme que está por vir. Da mesma forma, todo culto tem um rito de entrada. Ele é essencial para definir o clima e o tom para o restante do culto.
    Em algumas igrejas, o culto começa com o pastor dando as boas-vindas e com uma banda de louvor tocando. Embora esses elementos não sejam vistos formalmente como um “rito de entrada”, eles indicam o início do culto. A maneira como o culto começa influencia a expectativa e a direção para o restante da celebração. Em um culto litúrgico, o rito de entrada inclui três elementos principais: o hino de abertura, a procissão e a invocação.

O Hino Processional
    Em muitas igrejas modernas, as músicas são frequentemente agrupadas em um bloco de “louvor e adoração” no início do culto. No entanto, nas igrejas litúrgicas, os hinos são distribuídos ao longo da liturgia. O primeiro deles, chamado de “hino processional”, marca o início do culto. Outros hinos são entoados antes do sermão, após a bênção e, em alguns casos, durante a distribuição da Santa Ceia. A seleção desses hinos segue o calendário litúrgico, sempre refletindo o tema das leituras e do sermão. O hino processional representa o momento em que a congregação deixa para trás as preocupações da vida cotidiana e adentra a presença de Deus, onde o céu e a terra se encontram. Durante este hino, é costume que a congregação permaneça de pé, em sinal de reverência a Deus e reconhecimento da santidade do momento.
    Ao entrarmos na igreja, é como se estivéssemos em um mundo à parte. Pelo Santo Batismo, somos filhos de Deus e herdeiros dos céus. Assim, ao adentrar a igreja, entramos em um lugar onde nós, como filhos batizados que já possuímos a vida eterna por meio de Cristo, viveremos junto com “anjos e arcanjos, e com toda a companhia celeste” (Hebreus 12.22-24). Estaremos diante de Cristo, seja nos céus quando partirmos deste mundo, seja na Nova Jerusalém, quando testemunharmos a tão esperada volta de Cristo a este mundo (Apocalipse 21.1-4).
    Esse pensamento é consolador, pois já aqui, neste mundo, temos a oportunidade de experimentar aquilo que faremos após a morte: adorar o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo, rendendo louvores ao seu santo nome. Como é reconfortante saber que, a cada semana, podemos ter um vislumbre do que é o céu! Como é maravilhoso poder nos desligar deste mundo imperfeito e repleto de pecado e, ao entrar na igreja (um pedaço do céu), entregar a Jesus todas as nossas dificuldades e angústias – sabendo que no céu não haverá mais sofrimento, e sair de sua casa com os ombros mais leves. Pois, onde está Jesus, ali também está o céu.
    Afinal, quer saber o que você fará quando deixar este mundo ou quando Jesus voltar em glória? Vá ao culto. Se você deseja passar a eternidade com Cristo, certamente não se recusará a dedicar 1 ou 2 horas por semana para já começar a viver essa realidade maravilhosa.

O Processional
    Durante o hino processional, o pastor e seus auxiliares processam (caminham) até o altar. Essa procissão geralmente inclui um acólito (quem acende e apaga as velas), leitores e outros oficiantes ou auxiliares. Às vezes, o coral da igreja também participa. A procissão simboliza o povo de Deus se reunindo e caminhando em direção ao altar, que é o ponto central do culto. Ao caminhar, a atenção da congregação se volta para o altar, onde Deus encontra seu povo.
Processional na Paróquia Castelo Forte
de Itueta - MG, em 27/06/2021
    As procissões recordam como as multidões seguiram ou receberam Jesus em suas jornadas, especialmente no Domingo de Ramos. Além disso, elas simbolizam a entrada de Cristo para realizar seu
serviço ao povo (Lucas 22.27), por meio do Santo Ministério. Se uma procissão for utilizada, é importante escolher um hino de entrada com um ritmo claro para que os participantes possam caminhar em um ritmo confortável. Ao planejar uma procissão, a ordem dos participantes comunica a importância do evento. A procissão começa com a cruz processional, que simboliza que a Igreja Cristã segue o Senhor. O cruciferário, que é quem carrega a cruz, caminha deliberadamente, nem muito devagar, nem muito rápido. A cruz deve ser carregada em posição vertical, preferencialmente com uma mão segurando o bastão da cruz ou tocha ao nível do rosto e a outra mão segurando o bastão ao nível da cintura. Tanto a cruz quanto as tochas devem ser elevadas acima do nível dos olhos da congregação que está em pé.
    Não existe uma regra fixa sobre a ordem de entrada. Normalmente, a sequência costuma ser a seguinte: cruciferário, leitores, acólitos, oficiantes auxiliares (se houver) e o pastor celebrante principal, que é aquele que irá celebrar a Liturgia da Santa Ceia. É muito comum também que, em cultos festivos, onde há a presença de muitos pastores, eles entrem em dupla. Isso não está errado, mas é importante que aquele que irá liderar a liturgia, ao chegar no altar, fique no meio, para garantir uma boa dinâmica e evitar movimentações desnecessárias durante a celebração litúrgica.
    Ao longo dos séculos, a tradição de ter uma cruz processional e uma cruz fixa no altar se consolidou, destacando a importância da morte expiatória de Cristo no culto cristão. Muitas igrejas também possuem uma cruz ou crucifixo na parede atrás do altar. Ao final da procissão, o pastor e todos que participaram do processional fazem uma reverência diante do altar, em sinal de respeito a Cristo. Para alguns, isso pode parecer uma adoração ao altar, mas, na verdade, é um gesto de reverência a Deus, que está presente no altar. Este é o local onde Cristo se faz presente com Seu verdadeiro Corpo e Sangue, unidos ao pão e ao vinho. Ao entrar no culto, os fiéis na terra se curvam assim como os seres celestiais se curvam diante do trono do Cordeiro (Apocalipse 5.8-14).

+ Rev. Filipe Schuambach Lopes