terça-feira, 21 de outubro de 2025

Reflexão Pastoral: "Por trás do púlpito, há um coração que também sangra!"

Recentemente, vi uma imagem que me tocou profundamente, daquelas que falam mais do que mil palavras. Nela, há uma pessoa deitada em seu leito de morte. Ao redor, sua família, rostos aflitos, mãos entrelaçadas, olhares marejados. Diante da cama, está o pastor, com a expressão serena, segurando a mão do enfermo. Mas à frente do pastor, há algo ainda mais comovente: a figura de Jesus, com os braços abertos, acolhendo aquela alma cansada em seus últimos momentos. O olhar do Salvador repousa sobre o moribundo com ternura como quem diz por meio do pastor: “Você não está sozinho. Eu estou aqui. É por meio dele que eu te toco.” Essa imagem, mais do que uma arte bonita, é uma confissão viva da fé cristã. Ela retrata, de forma simples e poderosa, o que muitas vezes esquecemos: o ministério pastoral é o modo pelo qual Cristo continua presente e atuante na vida do seu povo.

O ministério pastoral é a presença visível do Cristo invisível. Ele acompanha o cristão em todas as estações da vida, do primeiro suspiro de fé no Batismo ao último suspiro da existência terrena. O pastor está lá no início, quando a água do Batismo toca a cabeça de uma criança e o Espírito Santo a faz renascer para a vida eterna. Está lá no tempo do aprendizado catequético, ensinando a Palavra, preparando jovens e adultos para a Confirmação, guiando corações a compreenderem o Evangelho. Está lá no altar, conduzindo o povo no culto, servindo com a Palavra e os Sacramentos, partilhando o pão da vida e o cálice da salvação. Está lá nas alegrias, quando abençoa um casamento, quando ergue as mãos sobre uma família que começa. Está lá nas dores, quando visita o enfermo, quando consola o enlutado, quando segura a mão de quem parte. O pastor está presente não porque ele é o centro, mas porque Cristo está presente através dele. O ministério pastoral é o toque de Cristo através de mãos humanas, é a voz do Pastor eterno ecoando por meio da voz de um servo.

Quando olhei aquela imagem, uma verdade me atravessou a alma: não é o pastor quem salva, é Cristo quem salva. Mas Cristo quis salvar por meio de meios. Ele quis se fazer próximo. Ele quis que o consolo da Palavra fosse pronunciado por lábios humanos, que o perdão fosse entregue por mãos humanas, que o cuidado fosse transmitido por uma presença humana. E isso é o ministério pastoral. É um ofício santo, nascido do coração de Deus. Não é invenção humana, não é uma função burocrática. É o modo pelo qual o Senhor continua servindo o seu povo, pregando, perdoando, batizando, alimentando, abençoando, confortando.

E, no entanto, é doloroso perceber como esse ministério tem sido, em nossos dias, tão pouco valorizado. Muitos veem o pastor apenas como um funcionário da igreja, um organizador de cultos, um palestrante de fim de semana, alguém que “trabalha com religião”. Mas o ministério pastoral não é um emprego. É uma vocação. É um chamado de Cristo para ser despenseiro dos mistérios de Deus, como diz o apóstolo Paulo em 1Coríntios 4.1. É o cuidado de almas. É o consolo aos aflitos. É o ensino da verdade. É o amor que corrige, exorta, consola e guia. É a presença fiel de Deus em meio à fragilidade humana. O pastor é aquele que entra em lugares onde poucos têm coragem de entrar, hospitais, presídios, cemitérios, lares despedaçados. Ele se assenta ao lado do doente, escuta o silêncio do enlutado, segura a mão do pecador arrependido e diz, em nome de Cristo: “Teus pecados estão perdoados.”

Mas, infelizmente, muitos têm negligenciado esse cuidado. Ignoram a presença do pastor até que a dor os alcance. Esquecem-se de que aquele homem que está ali no altar, no púlpito, no hospital, no velório, ele deixou tudo para trás, família, segurança, planos pessoais, para viver o chamado de servir em nome de Cristo. É uma vocação que exige o coração inteiro. E, muitas vezes, é uma vocação solitária. O pastor carrega o peso de muitas histórias, muitas dores, muitas lágrimas, e, ainda assim, precisa continuar firme, pregando a esperança, mesmo quando ele mesmo sente o peso da cruz. Ele também é pecador, também se cansa, também chora. A vida pastoral é, muitas vezes, uma estrada de renúncia silenciosa, sustentada pela graça de Deus.

Lembrei-me, então, das palavras de Paulo na Epístola lida no último sábado, dia 18 de outubro, quando celebramos São Lucas, o evangelista e médico amado. Em 2Timóteo 4, o apóstolo escreve de sua prisão, próximo da morte, e diz: “Todos me abandonaram... mas somente Lucas está comigo.” Que frase carregada de humanidade e fidelidade! Paulo, cansado e sozinho, encontra consolo em um irmão fiel que não o deixou. Lucas permaneceu. Ele ficou. Ele foi presença. Essa breve menção nos ensina algo precioso: o ministério é marcado, muitas vezes, por abandono, mas também por fidelidade silenciosa. E todo pastor precisa de “Lucas” na sua vida, pessoas que permaneçam, que orem, que estejam por perto, que sejam suporte, que o lembrem de que ele não está só.

E é preciso dizer: os pastores contam muito com as suas esposas. Elas são companheiras de jornada, sustentáculos silenciosos, presentes nos bastidores de cada culto, de cada visita, de cada madrugada em oração. Elas sentem junto as alegrias e as dores do ministério, partilham os fardos invisíveis e celebram as pequenas vitórias diárias que só quem vive o chamado pastoral conhece. Eu, graças a Deus, tenho a minha esposa, Aline, enviada por Deus, que está sempre comigo, do meu lado, nos momentos de alegria ou de tristeza, no riso ou no choro. O apoio dela é um reflexo do próprio cuidado de Cristo, que fortalece e consola através do amor humano.

O pastor não é um herói. Ele não é infalível. Ele é, antes de tudo, um pecador perdoado, chamado para ser instrumento do perdão. E o ministério que ele exerce não é dele, mas de Cristo. A Igreja o chama, o envia e o sustenta. E, por isso, o cuidado pastoral é tarefa de todos. É missão compartilhada. A Igreja não é Igreja sem o pastor; e o pastor não pode ser pastor sem a Igreja. Um corpo só vive quando cada membro cuida do outro. E assim deve ser também na comunidade da fé.

Por isso, valorize o seu pastor. Ore por ele. Caminhe junto. Esteja perto. Ouça-o. Cuide dele como ele cuida de você. Quando ele errar, seja paciente. Quando ele estiver cansado, seja apoio. Quando ele se calar, perceba que às vezes o silêncio também é uma oração. Não seja o primeiro a criticar, seja o primeiro a estender a mão. Lembre-se: o pastor é o canal, mas é Cristo quem flui. Ele é o mensageiro, mas a mensagem é divina. Ele é humano, mas o que ele carrega é eterno.

O pastor precisa de você. E a Igreja também. Porque, no fundo, não há ministério pastoral sem comunidade, nem comunidade viva sem ministério pastoral. O rebanho precisa do pastor, e o pastor precisa do rebanho. Juntos, permanecem sob os braços abertos de Cristo, o verdadeiro Pastor, que não abandona suas ovelhas nem mesmo na hora da morte, mas as conduz para a vida eterna.

E é isso que aquela imagem me fez ver com lágrimas nos olhos: no fim de tudo, quando as forças se esgotam e o corpo já não responde, lá está Cristo. À frente do pastor, à frente da família, à frente de tudo, com os braços abertos, dizendo: “Venham, benditos de meu Pai! Venham herdar o Reino que está preparado para vocês desde a fundação do mundo. ” (Mt 25.34). É para esse momento que o pastor vive, prega, consola e serve. É para esse abraço que todos nós caminhamos. E enquanto essa jornada não termina, o ministério pastoral continua sendo o modo visível de Cristo cuidar do seu povo invisivelmente, até o dia em que veremos o próprio Pastor face a face.

Rev. Filipe Schuambach Lopes
21/10/2025

Nenhum comentário:

Postar um comentário