quinta-feira, 30 de outubro de 2025

Sobre a Reforma e o Dia de Todos os Santos


Quando entramos no mês de novembro, pode ser um pouco difícil entender exatamente em que momento estamos dentro do Ano da Igreja. Para nós, luteranos, o mês começa logo depois da celebração da Reforma, em 31 de outubro, e nas primeiras semanas também lembramos o aniversário do doutor Martinho Lutero, em 10 de novembro. Por isso, é natural que pensemos nesse período como um "tempo de Reforma". Além disso, como hoje em dia não é mais comum que a sociedade lembre ou celebre a Reforma, é importante que nós, cristãos, mantenhamos viva essa parte da história da Igreja.

Mas existe um motivo muito significativo para a Reforma ter começado justamente na véspera do Dia de Todos os Santos. Lutero fixou suas 95 teses na porta da Igreja de Todos os Santos porque sabia que os cristãos viriam para a missa na manhã seguinte. E o objetivo dele não era substituir ou apagar a Festa de Todos os Santos por algo chamado Reforma. O que ele queria era provocar uma reflexão sobre certas práticas que estavam confundindo ou obscurecendo a clareza do Evangelho de Cristo, o Evangelho que anuncia a graça e o perdão gratuitos. Como doutor das Escrituras e mestre da Igreja, Lutero queria chamar o povo de Deus de volta às suas raízes, à fé verdadeira que foi entregue aos santos uma vez por todas.

As pessoas que criticam a celebração da Reforma têm um ponto válido se essa celebração for feita como um momento de orgulho e comparação. Isso acontece quando usamos uma mão para nos elogiar e a outra para atacar os outros. Infelizmente, em alguns lugares o Dia da Reforma se tornou um momento para criticar a Igreja de Roma por seus erros e exaltar a nós mesmos por não sermos tão católicos. Quando isso acontece, perdemos completamente o sentido verdadeiro da Reforma. É claro que Lutero fez uma crítica profunda e necessária aos erros da doutrina e da prática da Igreja Romana, que estavam afastando o povo do Evangelho. Mas ele também se posicionou contra os erros que surgiram entre outros grupos protestantes, especialmente sobre os Sacramentos. No entanto, o foco principal da Reforma não foi destruir, mas confessar e ensinar a pura verdade das Escrituras, chamando toda a Igreja a se voltar novamente para Cristo e para a sua Palavra.

É importante lembrar que Lutero e a confissão que leva o seu nome, mesmo contra a sua vontade, não apareceram do nada. Lutero era cristão porque foi batizado e criado dentro da Igreja Católica Romana, apesar dos seus erros. Foi dentro dela que ele conheceu as Escrituras, estudando como monge, acadêmico e professor. E foi através de seu confessor, o padre João Staupitz, que ele ouviu e aprendeu a amar o Evangelho do perdão.

Lutero nunca desprezou seus pais na fé nem os inúmeros santos que vieram antes dele, todos batizados e formados na mesma Igreja. O único desejo dele, movido por amor a Cristo e à Igreja, era ver uma verdadeira reforma, baseada na fé e na confissão originais da Igreja. Pela graça e providência de Deus, tudo o que a Igreja precisava ainda estava lá: as Escrituras Sagradas, os Credos Ecumênicos, o Santo Batismo, o Ministério da Palavra e, mesmo com abusos e confusões, a Confissão e Absolvição, a Santa Ceia e a Liturgia ainda permaneciam. A Igreja só precisava redescobrir e valorizar novamente esses dons preciosos do Senhor.

A Igreja cristã de hoje continua precisando desse mesmo redescobrimento, e nós também. O pecado que habita em nós nos faz correr o mesmo risco da Igreja da Idade Média, pensando que Cristo, o Evangelho e os Sacramentos não são suficientes e que precisamos acrescentar algo nosso. Pode ser obras, programas, emoções, estratégias, dinheiro ou qualquer outra coisa. O pior de tudo é quando se desprezam os Meios da Graça e o Ministério da Palavra por acharem que são coisas "muito católicas", trocando-os por métodos de marketing e ideias mundanas.

Para nos proteger dessas tentações, é bom lembrar que não precisamos escolher entre a Reforma e o Dia de Todos os Santos, como se fossem opostos. Devemos celebrar ambos, pois um pertence ao outro.

Celebrar a Reforma de forma correta é entender que o trabalho de Lutero e os acontecimentos do século XVI fazem parte da história da Igreja de Cristo. O doutor Lutero foi pastor e professor dessa Igreja, e foi justamente como tal que ele pregou o Evangelho para a Igreja e em favor dela. Da mesma forma, a Confissão de Augsburgo e todo o Livro de Concórdia reafirmam nossa comunhão com a Igreja cristã de todos os tempos e lugares, conforme confessamos nos Credos. O Dia de Todos os Santos também faz parte dessa mesma comunhão.

Quando lembramos dos santos que vieram antes de nós, confessamos nossa união com todos os que vivem pela fé em Cristo, tanto os que estão conosco agora como os que já estão na eternidade. Não é cristão, mas pagão, pensar que os que morreram desapareceram e não existem mais. Nosso Senhor ensina o contrário, e nós sabemos disso. Quando lembramos os patriarcas e profetas do Antigo Testamento, os apóstolos e evangelistas do Novo, os bispos, pastores, mártires e santos da antiga Igreja, fazemos isso porque estamos unidos a todos eles no Corpo de Cristo.

Do mesmo modo, quando lembramos Lutero e os Reformadores, não é por nostalgia de um passado distante, mas porque nos alegramos pela comunhão que temos com todos os que vivem para sempre na Comunhão dos Santos. Eles estão com o Senhor, e o Senhor está conosco. Assim, somos todos um só Corpo em Cristo, e especialmente diante do altar do Senhor estamos mais próximos dos fiéis que já partiram do que daqueles que vivem ao nosso lado sem fé em Jesus.

+ Texto escrito pelo Rev. Dr.  Rick Stuckwisch: pastor luterano (The Lutheran Church—Missouri Synod) e conselheiro do Distrito de Indiana da LCMS. Ele possui Ph.D. em Estudos Litúrgicos pela University of Notre Dame (2003) e mestrado em Teologia pelo Concordia Theological Seminary, Fort Wayne (STM).

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