segunda-feira, 23 de junho de 2025

A fundação da Igreja Evangélica Luterana do Brasil (IELB) - O Pano de Fundo


Em alusão ao aniversário de 121 anos da IELB, celebrado neste dia 24 de junho
, queremos compartilhar com vocês um trecho especial do livro "Um grão de mostarda: a história da Igreja Evangélica Luterana do Brasil", Volume 1, escrito por Mário L. Rehfeldt.

Neste primeiro post, nosso objetivo é apresentar o pano de fundo histórico e religioso que preparou o caminho para o surgimento da IELB. Ao compreendermos o contexto em que nossos antepassados viviam e os desafios enfrentados, conseguimos valorizar ainda mais a graça de Deus que sustentou essa semente de fé que cresceu e floresceu até os nossos dias

sexta-feira, 13 de junho de 2025

O Reformador e a Freira: 500 anos de uma união histórica

Há exatos 500 anos, em 13 de junho de 1525, Martinho Lutero, então com 42 anos, casou-se com Katharina von Bora, uma ex-freira de 26 anos (1499–1552). Na época, esse ato era considerado um “crime” segundo o direito canônico vigente, passível até de pena de morte, e foi visto por muitos como um escândalo. O casamento dos dois durou vinte e um anos e foi abençoado com seis filhos. Após a morte de Lutero, Katharina ainda viveria por mais seis anos.

A decisão de Lutero de se casar com Katharina teve mais motivações teológicas do que românticas. Ele disse ter feito isso para “agradar seu pai, provocar o papa, fazer os anjos rirem e os demônios chorarem.” Katharina foi a única das ex-freiras do convento de Nimbschen que, após fugirem para Wittenberg em abril de 1523, ainda não havia se casado nem encontrado emprego estável. As demais já haviam se estabelecido. Os motivos que levaram Katharina a aceitar o casamento com Lutero intrigam os historiadores até hoje. Ela recusou diversas propostas de casamento, mas confidenciou ao amigo de Lutero, Nicolaus von Amsdorf, que aceitaria se fosse dele — ou de Lutero! No fim, foi Lutero quem a conquistou, apesar das reservas de amigos como Philipp Melanchthon, que tinham dúvidas tanto sobre o casamento em si quanto sobre Katharina.

Naquele 13 de junho, a cerimônia foi simples e privada, com testemunhas como Justus Jonas, JohannesBugenhagen e o casal Lucas e Barbara Cranach. Mais tarde, em 27 de junho, houve uma recepção pública e festiva. O casal passou a viver no antigo mosteiro agostiniano de Wittenberg — conhecido como “Claustro Negro” — que se tornou não apenas o lar da família, mas também hospedaria, hospital e até cervejaria doméstica, tudo organizado com competência por Katharina, mulher de notável talento e energia.

Mas como seria a vida matrimonial dos Lutero? O contexto em que se casaram era bem distinto daquele dos casamentos dos dias de hoje. A vida familiar certamente foi desafiadora: um teólogo ativo e excomungado, considerado criminoso pelo império, casado com uma mulher que vivera a maior parte da vida enclausurada e que agora era lançada aos olhos do mundo.

O que podemos aprender com o casamento de Lutero e Katharina?
Em uma época como a nossa, onde tantos casamentos são desfeitos com facilidade, muitas vezes por razões superficiais ou pela simples busca de conforto individual, o casamento de Lutero e Katharina nos oferece uma lição valiosa.

Eles não entraram no matrimônio buscando perfeição ou facilidades. Enfrentaram pressões externas, limitações internas, dificuldades financeiras e pessoais. Ainda assim, permaneceram firmes, construindo uma vida juntos baseada em compromisso, respeito mútuo e responsabilidade diante de Deus.

Seu exemplo nos lembra que o casamento cristão não é sustentado por emoções passageiras, mas por uma aliança diante de Deus, em que ambos servem um ao outro em amor e paciência. É uma escola onde se aprende diariamente a perdoar, a recomeçar e a confiar que Deus atua até mesmo nas pequenas tarefas do cotidiano.

O lar de Lutero e Katharina não era um palco de perfeição, mas um local onde o evangelho era vivido de forma concreta: no cuidado com os filhos, na administração dos recursos, no acolhimento aos necessitados, e no encorajamento mútuo nas horas de aflição. Ali, fé e vida andavam de mãos dadas.

Nos tempos atuais, precisamos redescobrir a beleza do casamento como vocação. Em vez de vê-lo como uma prisão ou um contrato frágil, somos chamados a enxergá-lo como um presente de Deus, no qual crescemos, amadurecemos e testemunhamos Cristo em nosso viver diário.

Que o exemplo de Lutero e Katharina nos inspire a valorizar nossos lares e a viver nossos casamentos com coragem, fidelidade e esperança. Que sejamos, como eles, testemunhas do amor de Deus também dentro de casa.

quarta-feira, 23 de abril de 2025

Quarta-feira de Páscoa (23 de abril de 2025)

Celebração da Santa Ceia na Igreja Luterana Bom Pastor em Palmar Arriba, República Dominicana - 20/04/2025

Ainda estamos celebrando a Páscoa do Senhor: este tempo de alegria e vitória, no qual a Igreja proclama: Cristo ressuscitou! Aleluia! Dentro dessa grande celebração, hoje comemoramos a Quarta-feira de Páscoa, e a liturgia da Palavra nos conduz a reconhecer a presença viva do Senhor Jesus, que continua alimentando seus discípulos e lhes concedendo vida com Deus.

No Evangelho segundo São João, vemos Jesus aparecendo aos discípulos pela terceira vez depois da ressurreição (João 21.1,14). Ele se manifesta na margem do mar de Tiberíades, onde os discípulos haviam voltado a pescar. Após uma noite inteira sem sucesso (João 21.3), uma simples ordem de Jesus muda tudo: “Lancem a rede do lado direito do barco” (João 21.6). Eles obedecem e a rede se enche de peixes. Diante disso, o discípulo amado diz com convicção: “É o Senhor!” (João 21.7).

Esse reconhecimento não acontece apenas com os olhos, mas com o coração cheio de fé. O mesmo Jesus que havia alimentado multidões no passado (cf. João 6.1-13), agora prepara pão e peixe sobre brasas (João 21.9), e convida: “Venham comer” (João 21.12). É um gesto cheio de amor, cuidado e comunhão. O Ressuscitado se faz presente e serve aos seus, restaurando a confiança e o vínculo com Ele.

Mas essa comunhão com Cristo está sempre unida ao chamado ao arrependimento. Em Atos dos Apóstolos, ouvimos Pedro pregando com clareza e coragem: “Vocês negaram o Santo e o Justo e pediram que fosse solto um assassino. Vocês mataram o Autor da vida, a quem Deus ressuscitou dentre os mortos” (Atos 3.14–15). Mas ele também anuncia com firmeza: “Deus, assim, cumpriu o que tinha anunciado anteriormente pela boca de todos os profetas: que o seu Cristo havia de padecer” (Atos 3.18). E diante dessa graça, ele convida: “Arrependam-se e se convertam, para que sejam cancelados os seus pecados” (Atos 3.19).

A nova vida que recebemos na Páscoa tem um centro: Jesus Cristo. Ele não apenas apareceu no passado, mas continua se manifestando no presente, por meio da sua Palavra e dos seus Sacramentos. Como diz São Paulo aos Colossenses: “Portanto, se vocês foram ressuscitados juntamente com Cristo, busquem as coisas lá do alto, onde Cristo vive, assentado à direita de Deus” (Colossenses 3.1). E ele continua: “Porque vocês morreram, e a vida de vocês está oculta juntamente com Cristo, em Deus” (Colossenses 3.3).

Essa verdade se reflete também na liturgia da Santa Ceia, quando o pastor convida: “Levantai os vossos corações!” e a assembleia responde: “Levantemo-los ao Senhor!” Essa não é apenas uma expressão simbólica, mas uma realidade espiritual: pela fé, somos elevados à presença de Cristo, onde ele mesmo nos alimenta com seu verdadeiro corpo e sangue. Ele continua se doando a nós — assim como naquela manhã à beira do mar.

Como o apóstolo Paulo escreveu: “Isto é o meu corpo, que é dado por vocês; façam isto em memória de mim. [...] Este cálice é a nova aliança no meu sangue; façam isto, todas as vezes que o beberem, em memória de mim” (1Coríntios 11.24–25). A Ceia do Senhor é comunhão real com o Cristo ressuscitado, que nos perdoa, nos fortalece e nos dá a vida eterna.

O Senhor ressuscitado está presente hoje na sua Igreja. Ele continua chamando ao arrependimento, oferecendo perdão, servindo com sua graça, e fortalecendo com sua vida. Por isso, com fé, colocamos nosso coração em Cristo e buscamos as coisas do alto, onde Ele vive e reina para sempre (Colossenses 3.1–4).

Como afirma o salmo deste dia: “Não morrerei; pelo contrário, viverei e contarei as obras do Senhor” (Salmo 118.17). Cristo vive! E porque Ele vive, também nós vivemos. Aleluia!

ORAÇÃO DO DIA
Todo-poderoso Deus, que pela gloriosa ressurreição de teu Filho Jesus Cristo destruíste a morte e trouxeste à luz a vida e a imortalidade, concede que nós, que ressuscitamos com ele, possamos habitar em sua presença e exultar na esperança da glória eterna; através do mesmo Jesus Cristo, nosso Senhor, que vive e reina contigo e o Espírito Santo, um só Deus, agora e sempre. Amém.

- Clique aqui para acessar os textos do lecionário correspondentes a este dia.

terça-feira, 22 de abril de 2025

O Círio Pascal: a luz do Cristo ressuscitado na Liturgia Luterana

Um dos símbolos mais expressivos da liturgia pascal cristã é o Círio Pascal, a grande vela que representa Cristo, a luz do mundo (Jo 8.12). Ele aparece com destaque na noite da Vigília Pascal, a mais importante celebração do ano cristão, marcando a transição das trevas da morte para a luz da ressurreição. Como a Igreja Evangélica Luterana do Brasil (IELB) não possui uma liturgia própria oficial para a Vigília Pascal — tradição que historicamente não tem sido amplamente observada entre nós —, utilizo aqui como referência a forma litúrgica empregada por nossa igreja-irmã, a Lutheran Church—Missouri Synod (LCMS).

A Vigília Pascal se inicia fora da igreja, após o pôr do sol do Sábado Santo. A congregação se reúne em um ambiente escurecido, e uma chama é preparada previamente. Ao contrário de outras tradições litúrgicas, não se realiza bênção do fogo na liturgia luterana, mas a vela pascal é acesa a partir de uma chama nova, sinal de renovação e vida.

Antes de acender a vela, o pastor grava sobre ela uma cruz e diz: “Cristo Jesus, o mesmo ontem, hoje e eternamente, o princípio e o fim” (cf. Hb 13.8). Em seguida, traça as letras gregas Alfa e Ômega, proferindo: “O Alfa e o Ômega”, e inscreve o ano atual entre os braços da cruz: “Dele são o tempo e a eternidade; dele é a glória e o domínio, agora e para sempre.” Então, insere-se na vela cinco cravos de cera, que podem conter grãos de incenso, simbolizando as cinco chagas de Cristo crucificado. Como resume Lang: “No centro e em cada extremidade da cruz afixam-se cravos de cera para simbolizar as cinco feridas de Cristo” (Lang, Manual da Comissão de Altar, p. 28).

O Círio é então aceso e conduzido em procissão solene para dentro da igreja escurecida. Durante a procissão, o portador proclama por três vezes: “A luz de Cristo!”, e a assembleia responde com fé: “Demos graças a Deus!”. Essas proclamações marcam a entrada progressiva da luz de Cristo ressuscitado na escuridão do mundo. Conforme a tradição, elas ocorrem na entrada, no meio do templo e junto ao altar. Nesse momento, os fiéis acendem suas velas a partir do Círio, formando uma cadeia de luz que simboliza a propagação da fé e da vida em Cristo.

Uma vez colocado em seu suporte diante do altar, canta-se o Precônio Pascal (Exsultet), hino antigo que exalta a vitória de Cristo sobre as trevas. Timothy Maschke descreve o Círio como “uma coluna luminosa que conduz o povo de Deus para o céu”, fazendo eco à coluna de fogo que guiava Israel no deserto (Maschke, Gathered Guests, p. 223). O canto proclama que “a antiga escuridão foi banida para sempre” e pede que “Cristo, a verdadeira luz e estrela da manhã, brilhe em nossos corações”.

É recomendado que o Círio Pascal seja novo a cada ano, como sinal da nova criação que se inicia com a ressurreição de Cristo (LSB Altar Book, p. 529), mas nada impede que se reutilize o Círio Pascal do ano anterior. Nele devem estar presentes os elementos essenciais: a cruz, o ano corrente, as letras Alfa e Ômega e os cinco cravos. Elementos adicionais podem ser usados com moderação, como pequenas decorações litúrgicas, inscrições bíblicas ou ornamentação simbólica, como por exemplo, imagens do cordeiro pascal, videira ou trigo, contanto que não obscureçam a centralidade do símbolo. Contudo, como bem destaca Lang: “Esse símbolo pascal deve expressar sua mensagem por si mesmo” (Lang, op. cit., p. 28). Sua simplicidade e sobriedade comunicam de modo mais direto a verdade da fé: Cristo ressuscitou!

É importante enfatizar que o uso do Círio Pascal não é obrigatório na tradição luterana, mas é uma grande oportunidade catequética e litúrgica para enriquecer a celebração da Páscoa e aprofundar a compreensão da fé cristã por meio de sinais visíveis que proclamam o Evangelho. O Círio Pascal remonta aos primeiros séculos do cristianismo ocidental, como símbolo da luz de Cristo ressuscitado. Segundo Frank Senn, sua prática se desenvolveu principalmente nas igrejas latinas e gálicas, sendo incorporada às celebrações da Páscoa por meio da liturgia da luz, o antigo lucernarium das Vésperas (Senn, Christian Liturgy: Catholic and Evangelical, p. 214).

Durante o Tempo Pascal, que se estende até a festa da Ascensão, o Círio permanece aceso em todas as celebrações. No culto da Ascensão, ao ser lido Marcos 16.19 (“foi recebido no céu e sentou-se à direita de Deus”), o Círio é apagado, marcando a ascensão visível do Senhor, embora sua luz permaneça espiritualmente presente entre os fiéis, por meio da Palavra e dos Sacramentos.

Após esse período, o Círio passa a ocupar lugar junto à pia batismal, sendo usado nas celebrações de Batismo, Confirmação e nos ritos fúnebres (quando realizados no templo). Quando um cristão é batizado, acende-se uma vela a partir do Círio e entrega-se ao batizando com as palavras: “Receba esta luz ardente, sinal de que você recebeu Cristo, luz do mundo. Viva sempre na luz de Cristo.” Esse gesto remonta à tradição da Igreja antiga, como aponta Senn: “O Círio Pascal era já abençoado nas igrejas da África, Espanha, Gália e Itália nos séculos IV e V”, sendo usado nos ritos de iniciação cristã (Senn, op. cit., p. 214).

Nos funerais cristãos, o Círio aceso simboliza que o batizado permanece na luz de Cristo mesmo na morte. O Círio está presente no começo da vida cristã e também no fim, como sinal da promessa cumprida: “Quem crê em mim, ainda que morra, viverá.” (Jo 11.25).

O simbolismo do Círio é amplamente escatológico. Ele aponta para a luz eterna da nova criação, já presente em Cristo ressuscitado, mas ainda aguardando sua plena manifestação na glória futura. Como ensina São Paulo: “Desperta, tu que dormes, e levanta-te dentre os mortos, e Cristo te iluminará.” (Ef 5.14). Toda vez que acendemos uma vela a partir do Círio, somos lembrados de que fomos feitos filhos da luz, chamados a refletir essa luz no mundo, vivendo com sobriedade, fidelidade e esperança.

O Círio Pascal não é apenas uma vela litúrgica; ele é uma pregação visível do Evangelho. Sua luz que brilha na escuridão testemunha a realidade da ressurreição. Ele representa Cristo vivo entre nós, conduzindo seu povo, iluminando o caminho, chamando-nos à fé e à vigilância. A cada ano, ao vê-lo aceso, somos convidados a renovar nossa confiança em Cristo, a fonte da verdadeira luz, e a confessar com a Igreja de todos os tempos: Cristo ressuscitou! Ele realmente ressuscitou! Aleluia!

+ Rev. Filipe Schuambach Lopes

BIBLIOGRAFIA:
LANG, P. H. D. Manual da Comissão de Altar. IELB: Porto Alegre, 1987.
LCMS – Lutheran Church—Missouri Synod. Lutheran Service Book: Altar Book. Saint Louis: Concordia Publishing House, 2006.MASCHKE, Timothy H. Gathered Guests: A Guide to Worship in the Lutheran Church. Saint Louis: Concordia Publishing House, 2003.
SENN, Frank C. Christian Liturgy: Catholic and Evangelical. Minneapolis: Fortress Press, 1997.

O TEMPO DE PÁSCOA: O Período Pascal


O período Pascal inicia com a oração da noite no Sábado de Aleluia e encerra com a oração do meio-dia no Pentecostes. A celebração da Páscoa corresponde à nova vida celebrada na ressurreição de Cristo dos mortos e à nossa ressurreição nele no Batismo. É a festa mais rica do Ano Eclesiástico. As congregações têm a opção de realizar um Culto ao amanhecer, relembrando a surpresa das mulheres ao visitarem o túmulo vazio de Cristo, assim como Cultos que celebram a ressurreição de Jesus Cristo. A alegria da ressurreição continua durante a oitava da Páscoa, quando a alegria da ressurreição de Cristo ecoa por oito dias. Durante esse período de oito dias, os catecúmenos na igreja antiga recebiam a catequese sobre os mistérios do Batismo e da Santa Ceia. Assim como Epifania continua o clímax do Natal, o período da Páscoa mantém viva a celebração pascal, e durante os “grandes cinquenta dias” da Páscoa até Pentecostes - 7x7 = 49 +1 = 50 – onde a igreja vive em seu destino escatológico ao celebrar a ressurreição de Jesus. Sete vezes sete é o número da perfeição, e um dia adicional é a indicação da eternidade. (JUST, 2008, p.217).

A Páscoa é uma celebração de vitória, um momento para todos os cristãos proclamarem corajosamente sua fé no Salvador ressuscitado e vitorioso. Para os primeiros cristãos, a Páscoa não era apenas um dia, era (e é) período que também inclui a celebração da ascensão de Jesus. A celebração da ascensão de Jesus ao céu interrompe esta festa pascal de cinquenta dias, mas isso apenas realça o significado da ressurreição de Cristo. Sua ascensão é o passo final em seu ascenso desde a tumba até o céu, onde eleva nossa natureza humana à sua direita, e nossa humanidade ocupa o trono com ele no céu. A festa da Ascensão era observada pelo menos desde o quarto século, sempre no espírito de alegria, como uma comemoração da conclusão da obra redentora de Cristo. A Igreja Romana utiliza uma cerimônia simbólica: após a leitura do Evangelho, o círio pascal, cuja luz durante os quarenta dias representou a presença do nosso Senhor no meio de seus discípulos, é apagada (REED, 1947, p.514)

A cor para a Páscoa é branca, simbolizando perfeição, celebração e alegria. A cor alternativa para a Páscoa é o dourado, a cor da riqueza e da glória. Se houver paramentos dourados disponíveis, eles devem ser usados apenas no Domingo de Páscoa. A cor branca continua ao longo do período pascal, incluindo a Festa da Ascensão, até a Véspera de Pentecostes, quando os paramentos são trocados para vermelho.

Terça-feira de Páscoa (22 de abril de 2025)


Hoje celebramos a terça-feira da Páscoa e nos alegramos porque o Cristo ressuscitado vive e reina, e sua vitória nos alcança aqui e agora.

O Salmo 118, que serve como intróito para este dia, nos dá o tom: “Não morrerei; pelo contrário, viverei e contarei as obras do Senhor.” (Sl 118.17). A fé do salmista é a mesma fé dos três jovens da Babilônia, Sadraque, Mesaque e Abede-Nego. Diante da fornalha ardente e da ameaça de morte, preferiram entregar seus corpos à morte do que trair ao Deus vivo (Dn 3.28). E o Senhor, em sua fidelidade, não os abandonou: “Estou vendo quatro homens soltos, andando no meio do fogo! Não sofreram nenhum dano! E o aspecto do quarto é semelhante a um filho dos deuses” (Dn 3.25). Uma bela figura do Senhor Jesus, que caminha com os seus até mesmo nas fornalhas da aflição.

Esses jovens são exemplos de fé firme diante da perseguição e da idolatria, e apontam para aquele que também confiou plenamente no Pai, entregou seu corpo à morte e foi ressuscitado gloriosamente ao terceiro dia. Como ensina o apóstolo Pedro, tudo isso aconteceu para que em seu nome se pregasse o arrependimento para remissão de pecados (Lc 24.47).

A mensagem pascal de hoje continua ecoando: “Deus o ressuscitou dentre os mortos” (At 13.30) e, por isso, “nós anunciamos a vocês o evangelho da promessa feita aos nossos pais” (At 13.32). Essa promessa foi cumprida plenamente em Jesus. Ele é o Filho gerado pelo Pai (Sl 2.7), coroado de glória e honra (Sl 8.6), e nos dá refúgio seguro na sua vitória.

O Evangelho segundo Lucas relata que, após a ressurreição, Jesus apareceu no meio dos discípulos e declarou: “Que a paz esteja com vocês!” (Lc 24.36). Mesmo assustados, cheios de dúvida, os discípulos recebem de Jesus o testemunho vivo da vitória sobre a morte. Ele mostra suas mãos e seus pés, come diante deles e os instrui nas Escrituras, dizendo: “Era necessário que se cumprisse tudo o que está escrito a respeito de mim” (Lc 24.44).

Hoje, esse mesmo Senhor continua a aparecer no meio de sua Igreja. Ele continua enviando seus ministros, como os apóstolos, com “a palavra desta salvação” (At 13.26). Eles são “as mãos e os pés” de Cristo no mundo, portadores do Evangelho, revestidos com o Espírito da promessa, proclamando a remissão dos pecados e concedendo a paz do Senhor, pela Palavra e pelos Santos Sacramentos.

Portanto, continuemos celebrando com fé e alegria este tempo pascal. O Cristo ressuscitado está conosco. Ele nos livra das fornalhas e nos dá vida, e vida eterna. Não morremos, mas vivemos, e por isso contaremos as obras do Senhor!

segunda-feira, 21 de abril de 2025

A Oitava da Páscoa – Oito dias de alegria na Ressurreição


Você sabia que a festa da Páscoa não se limita apenas ao Domingo da Ressurreição? Pois é! Ela continua durante toda esta semana, enquanto celebramos a Oitava da Páscoa, oito dias vividos como um único e grande Domingo, em honra à vitória do nosso Senhor sobre o pecado, a morte e o inferno. Cada dia da Oitava é celebrado com a mesma alegria e reverência do Domingo de Páscoa, pois a ressurreição de Jesus é o evento extraordinário que transformou a história humana para sempre.

A Igreja antiga compreendia isso tão profundamente que os recém-batizados, os neófitos, vestiam-se de branco durante toda a Oitava, participando das celebrações diárias e ouvindo as chamadas homilias mistagógicas, sermões especiais em que os bispos explicavam os significados espirituais e sacramentais do Batismo, da Eucaristia e da nova vida em Cristo. “Durante a Octava da Páscoa, os recém-batizados iam à igreja todos os dias, vestindo suas novas vestes brancas e ficando juntos num lugar especial” (Frank C. Senn, Christian Liturgy). Era um tempo de profunda instrução e comunhão, e até mesmo perguntas podiam ser feitas aos bispos durante as homilias, algo raro e precioso no contexto litúrgico da época.

O Segundo Domingo de Páscoa, também chamado de Domingo in Albis, marca o encerramento solene da Oitava. Era neste dia que os neófitos retiravam suas vestes brancas e se misturavam à comunidade dos fiéis. Santo Agostinho, numa de suas homilias, advertia-os com seriedade: agora que entraram na Igreja visível, é preciso escolher entre “estar entre as ovelhas ou entre os bodes”, pois no rebanho visível há de tudo: “ovelhas, bodes e lobos”. Este dia também é conhecido por alguns como Pascoela, isto é, pequena Páscoa, para enfatizar que toda a Oitava continua sendo um eco glorioso do Domingo da Ressurreição.

Infelizmente, o mundo já esqueceu a sua “páscoa”. O mercado, e todos os que o idolatram, já trocaram os ovos e coelhos por liquidações e novas campanhas de consumo. Mas a Páscoa de Jesus continua viva na cristandade! A Igreja permanece firme na celebração do Cristo ressuscitado, pois sabe que a ressurreição não é uma data no calendário, mas uma nova realidade inaugurada pelo próprio Filho de Deus. “Cristo ressuscitou dentre os mortos, sendo ele as primícias dos que dormem” (1Co 15.20).

Nos países outrora majoritariamente luteranos, como a Alemanha e os países nórdicos, segunda e terça-feira de Páscoa eram feriados, permitindo que o povo vivesse a Oitava com a devida dignidade, sem pressa e com profundo senso de santidade.

A celebração pascal, no entanto, não se limita à Oitava. Temos ainda cinquenta dias no calendário da Igreja que conduzem até o Pentecostes, todos marcados pela alegria pascal. Nesse tempo, os paramentos brancos permanecem nos altares, o Aleluia é entoado com entusiasmo, e a proclamação do Evangelho ressoa com força e esperança. Toda a liturgia grita: Cristo ressuscitou! Aleluia!

Essa prática encontra raízes antigas. Antes mesmo de a Páscoa ser celebrada anualmente, como foi regulamentado no Concílio de Niceia, em 325, ao definir que a Páscoa deveria ser no primeiro domingo após a primeira lua cheia da primavera, os cristãos já celebravam a ressurreição de Cristo todos os domingos. O domingo cristão nasceu da vitória de Cristo sobre a morte. Cada celebração dominical é uma pequena Páscoa.

Mas a mensagem vai além da liturgia. A Páscoa se estende para o nosso cotidiano. A ressurreição de Jesus é um evento contínuo em nossa vida de fé. Como diz o evangelista João: “Estes foram escritos para que vocês creiam que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e para que, crendo, tenham vida em seu nome” (Jo 20.31). Ou seja, a vitória de Cristo sobre a morte é também a nossa vitória, e não apenas um fato do passado, é nossa herança viva e presente.

Leituras para a Segunda-feira de Páscoa (Conforme Lecionário da IELB)
INTRÓITO: Salmo 78.13-15,24-25; antífona Salmo 78.4
PRIMEIRA LEITURA: Êxodo 15.1-18 ou Daniel 12.1c-3
SALMODIA: Salmo 100 (antífona vers. 5)
GRADUAL: Adapt. de Mateus 28.7; Hebreus 2.7; Salmo 8.6
SEGUNDA LEITURA: Atos 10.34-43 ou 1Coríntios 5.6b-8
VERSO: 2Timóteo 1.10b
SANTO EVANGELHO: Lucas 24.13-35 (36-49)
ORAÇÃO DO DIA: Ó Deus, que na festa da Páscoa restauraste toda a criação, continua a enviar teus dons celestiais sobre o teu povo para que possamos caminhar em perfeita liberdade e receber vida eterna; através de Jesus Cristo, teu Filho, nosso Senhor, que vive e reina contigo e o Espírito Santo, um só Deus, agora e sempre. Amém.

domingo, 20 de abril de 2025

Devoção para o Domingo da Ressurreição - 20/04/2025


DOMINGO DE PÁSCOA
“Ele não está aqui — a vitória é sua!”

“Por que vocês estão procurando entre os mortos aquele que vive? 
Ele não está aqui, mas ressuscitou.” (Lucas 24.5-6)

Cristo ressuscitou!
Ele realmente ressuscitou! Aleluia!

Hoje é o dia mais alegre da fé cristã. O túmulo está vazio. A pedra foi removida. Cristo vive. E, com ele, também a nossa esperança. O anúncio dos anjos às mulheres naquela manhã ainda ecoa em nossos ouvidos: “Ele não está aqui. Ressuscitou!”

A Páscoa não é apenas a lembrança de um milagre passado — é o anúncio presente de uma nova realidade. A ressurreição de Jesus mudou tudo. Ela não apenas deu fim ao sábado de silêncio, mas inaugurou o primeiro dia de um novo tempo. Um novo céu. Uma nova terra. Uma nova criação. A ressurreição de Jesus é o começo de tudo o que é verdadeiramente novo (Isaías 65.17).

As mulheres foram ao túmulo com tristeza, embora já soubessem o que Jesus havia dito. Ele falou abertamente sobre sua morte e sua ressurreição. Mas ainda assim, elas carregaram perfumes. Esperavam um corpo. Não creram na promessa. E ali, no jardim do túmulo, ouviram dos anjos uma pergunta que ecoa até hoje: “Por que vocês procuram entre os mortos aquele que vive?”

Essa pergunta também é para mim. E para você. Por que tantas vezes vivemos como se Jesus ainda estivesse no túmulo? Por que tememos como se a morte ainda tivesse a última palavra? Por que nos entristecemos como se o pecado ainda nos condenasse?

A verdade é essa: Ele vive. Ele está conosco. Ele reina. O túmulo está vazio, e nós estamos cheios de vida, cheios de esperança. Porque a ressurreição de Jesus é nossa ressurreição. Como São Paulo escreveu: “Se Cristo não ressuscitou, é vã a nossa fé.” (1Co 15.17). Mas ele ressuscitou! E por isso nossa fé é viva.

E por isso também nos reunimos hoje à sua mesa. A Ceia do Senhor, que foi instituída na noite da traição, agora é celebrada com a alegria da vitória. Hoje, o Cordeiro que foi morto se levanta para nos servir. O mesmo Corpo que foi cravado na cruz, agora nos é dado ressuscitado. O mesmo Sangue que foi derramado para nos perdoar, agora nos é oferecido como vinho de vida.

Na Ceia, Cristo nos toca com a sua ressurreição. Na Ceia, ele nos convida a viver da vitória. E é por isso que, mesmo vivendo em um mundo ainda marcado pela dor, nós celebramos. Porque a ressurreição já começou. A nova criação já chegou. E um dia, essa vitória será visível aos olhos de todos.

Hoje é Páscoa. O Cristo ressuscitou. Ele não está mais no túmulo. Ele está com você. Ele vai adiante de você. Ele te chama pelo nome. E te dá, hoje e sempre, o dom da vida eterna.

Oremos: Senhor Jesus, hoje é o dia da tua vitória. A pedra foi removida. A morte perdeu. O túmulo está vazio. Tu ressuscitaste — e por isso eu tenho vida. Louvado sejas por tua fidelidade, por tua promessa cumprida, por teu amor sem fim.
    Perdoa-me por tantas vezes viver como se tu ainda estivesses morto. Renova hoje em mim a fé na tua ressurreição. Abre os meus olhos para reconhecer que tu estás comigo — não só no céu, mas também na tua Palavra, no Batismo, e na Santa Ceia.
    Alimenta-me com tua presença viva. Enche-me da alegria pascal. Dá-me força para viver como alguém que já pertence à nova criação, e coragem para testemunhar que tu vives — e porque tu vives, eu também viverei. Amém.

Leituras designadas para a Festa da Ressurreição de Nosso Senhor:
📖Primeira Leitura: Isaías 65.17-25
🎶Salmodia: Salmo 16
📖Segunda Leitura: 1Coríntios 15.19-26
✝️ Santo Evngelho: São Lucas 24.1–12

sábado, 19 de abril de 2025

Devoção para o Sábado Santo - 19/04/2025


SÁBADO SANTO
“Quando Deus está em silêncio, ele ainda está agindo”

“E, no sábado, descansaram, segundo o mandamento.” (Lucas 23.56)

O Sábado Santo é, por excelência, o dia do silêncio. Jesus está morto. Seu corpo repousa no túmulo. As vozes que antes proclamavam Hosana agora se calaram. A terra, que tremeu na sexta-feira, parece agora quieta. Mas o que esse silêncio significa?

Muitos de nós temos dificuldades com os momentos silenciosos de Deus. Quando ele não responde como esperamos, quando as orações parecem não passar do teto, quando o mundo continua sofrendo... parece que ele está ausente. Mas o Sábado Santo nos ensina algo profundo: Deus pode estar em silêncio, mas nunca está inativo.

Na verdade, é justamente no silêncio do túmulo que a promessa da ressurreição se prepara. É na escuridão da terra que a semente morre para, no tempo certo, brotar em vida. Como Daniel na cova dos leões, Jesus também desce ao mais profundo — não como um condenado culpado, mas como o justo que entrega a vida e a tomará de volta.

Enquanto o corpo de Jesus repousa, o céu não está em pausa. A redenção está em andamento. Os inimigos tentam impedir a ressurreição com pedras, selos e soldados — mas nenhum esforço humano pode conter o plano divino. Jesus havia dito que voltaria, e voltará. Os discípulos, ainda sem entender, “no sábado, descansaram, segundo o mandamento.” (Lc 23.56). Descansaram, confiando na Palavra, mesmo sem ver.

Também nós, em nossos próprios “sábados santos”, somos chamados a confiar. Nos dias escuros, quando tudo parece perdido, quando Deus se cala — ali, mesmo ali, Ele está operando. O silêncio de Deus nunca é o fim. É apenas o intervalo antes da glória.

Oremos: Senhor, ensina-me a confiar em ti mesmo quando tudo parece quieto e parado. Ajuda-me a lembrar que teu silêncio não é abandono, mas preparação. Dá-me paz no tempo de espera e esperança na promessa da ressurreição. Em nome de Jesus. Amém.

+ Rev. Filipe Schuambach Lopes
Devoção elaborada para o Departamento de Comunicação da IELB,
com vistas à produção de cards para redes sociais (Instagram).

sexta-feira, 18 de abril de 2025

Devoção para a Sexta-feira Santa - 18/04/2025


SEXTA-FEIRA DA SEMANA SANTA
“Abandono!”

“Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?” (São Mateus 27.46)

Na Sexta-feira Santa, contemplamos o mais profundo abismo de dor e amor que a humanidade já conheceu. Jesus, o Filho eterno de Deus, está suspenso entre o céu e a terra. Aquele que é o Verbo da vida se cala diante de seus acusadores. Aquele que tem todo poder se entrega, voluntariamente, ao sofrimento. Aquele que é o Santo e Justo é contado entre os transgressores (Is 53.12).

Na cruz, o Filho clama: “Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?” (Sl 22.1). Não é apenas dor física. É o peso do pecado do mundo sobre seus ombros. É a separação, o juízo, a ira que nossos pecados mereciam. Ele bebeu o cálice da justiça divina até a última gota. E fez isso por mim e por você.

O profeta Isaías descreve esse Servo Sofredor com precisão comovente: “Ele foi traspassado por causa das nossas transgressões, e esmagado por causa das nossas iniquidades” (Is 53.5). Aquilo que nós nunca poderíamos pagar, ele pagou. Aquilo que nos traria condenação, Ele levou. E por suas pisaduras fomos sarados.

O sofrimento de Jesus não foi acidente da história, mas cumprimento do plano eterno de salvação. Ele foi obediente até a morte, e morte de cruz (Fp 2.8). No momento mais escuro, ele permaneceu fiel. Ele não desceu da cruz porque Seu amor por nós O manteve lá.

E então, com um último suspiro, ele declara: “Está consumado!” (Jo 19.30). Não há mais dívida. Não há mais separação. O véu do templo se rasgou. O acesso ao Pai está aberto. O abandono que ele sofreu nos garante que jamais seremos abandonados.

Na cruz, Jesus levou o nosso abandono para nos dar reconciliação. Ele sofreu para que fôssemos sarados. Ele morreu... para que vivêssemos.

Oremos: Senhor Jesus, Salvador amado, obrigado por não teres desistido, mesmo quando foste abandonado. Tu levaste nossas dores, carregaste nossas culpas e morreste em nosso lugar. Ensina-nos a viver com gratidão diante de tão grande amor. Que a tua cruz nos lembre sempre do teu perdão, e que tua ressurreição nos encha de esperança. Amém.

+ Rev. Filipe Schuambach Lopes
Devoção elaborada para o Departamento de Comunicação da IELB,
com vistas à produção de cards para redes sociais (Instagram).