| São Miguel vencendo Satanás. Rafael, 1518. Em exposição no Museu do Louvre. |
quarta-feira, 2 de outubro de 2024
Mensageiros enviados para servir aos filhos dos homens
O Culto Luterano: o processional
| Processional em Culto no Seminário Concórdia |
Todo culto ou evento precisa de um início. A maneira como algo começa define o clima e o tema do que está por vir. Um exemplo famoso é a abertura dos filmes de Guerra nas Estrelas, que sempre começa com a frase: “Há muito tempo, em uma galáxia muito, muito distante”, seguida do logotipo de Guerra nas Estrelas e uma introdução que contextualiza a história daquele filme específico. Essa abertura prepara o clima e as expectativas para o filme que está por vir. Da mesma forma, todo culto tem um rito de entrada. Ele é essencial para definir o clima e o tom para o restante do culto.
| Processional na Paróquia Castelo Forte de Itueta - MG, em 27/06/2021 |
serviço ao povo (Lucas 22.27), por meio do Santo Ministério. Se uma procissão for utilizada, é importante escolher um hino de entrada com um ritmo claro para que os participantes possam caminhar em um ritmo confortável. Ao planejar uma procissão, a ordem dos participantes comunica a importância do evento. A procissão começa com a cruz processional, que simboliza que a Igreja Cristã segue o Senhor. O cruciferário, que é quem carrega a cruz, caminha deliberadamente, nem muito devagar, nem muito rápido. A cruz deve ser carregada em posição vertical, preferencialmente com uma mão segurando o bastão da cruz ou tocha ao nível do rosto e a outra mão segurando o bastão ao nível da cintura. Tanto a cruz quanto as tochas devem ser elevadas acima do nível dos olhos da congregação que está em pé.
quinta-feira, 19 de setembro de 2024
Festa da Santa Cruz - 14/09/2024 A+D
Hoje, não temos diante de nós a cruz original. O que possuímos em nosso altar é uma representação dela. No entanto, mesmo sem a presença física da cruz original, os benefícios do sacrifício realizado nela continuam vivos e acessíveis a cada um de nós. Ainda hoje, recebemos os frutos desse sacrifício por meio dos meios da graça: a Palavra e os Santos Sacramentos.
quarta-feira, 18 de setembro de 2024
"Subiu ao céu e está sentado à direita de Deus Pai todo-poderoso.”
Assim afirma a Fórmula de
Concórdia, Declaração Sólida, Art. VII, da pessoa de Cristo:[1]
“[27] Agora, porém, uma vez que subiu ao céu não simplesmente como qualquer outro santo, mas, como o apóstolo testifica, subiu acima de todos os céus, também verdadeiramente preenche todas as coisas, e, presente em toda parte, governa de um mar ao outro e até os confins da terra, não só como Deus, mas também como homem, como os profetas predizem e os apóstolos testificam que, por toda parte, cooperou com eles e lhes confirmou a palavra por meio de sinais, que se seguiam. [28] Isso, porém, não se deu de maneira terrena, mas, como o Dr. Lutero explica, segundo o modo da mão direita de Deus. A mão direita de Deus não é lugar específico no céu, como alegam os sacramentários,[2] sem fundamento da Escritura Sagrada. Pelo contrário, não é nenhuma outra coisa senão o poder onipotente de Deus, que preenche o céu e a terra, no qual Cristo foi investido segundo a sua humanidade, realiter, isto é, de fato e de verdade, sine confusione et exaequatione naturarum, isto é, sem mistura e igualamento das duas naturezas na essência e propriedades essenciais delas. [29] Por causa desse poder transmitido, Cristo verdadeiramente pode estar e está presente na santa ceia, com seu corpo e sangue, conforme as palavras de seu testamento, para as quais ele nos apontou por meio de sua palavra. Isso não é possível a nenhum outro ser humano, porque nenhum outro ser humano está unido com a natureza divina nem foi investido de tal majestade divina, onipotente, e de tal poder, pela união pessoal e na união pessoal de ambas as naturezas em Cristo, como acontece com Jesus, o filho de Maria. [30] Nele, a natureza divina e a natureza humana estão pessoalmente unidas, de modo que em Cristo ‘habita corporalmente toda a plenitude da divindade’ (Cl 2[.9]). Nessa união pessoal, as duas naturezas têm comunhão tão excelsa, íntima e indescritível, que até os anjos ficam admirados e, conforme São Pedro testifica, se deliciam e se alegram em contemplar”.
Colocando isso em outras palavras, conforme explicado acima, a ascensão de Cristo ao céu, não foi como a de qualquer outro santo. Ao contrário, ele subiu acima de todos os céus e, como o apóstolo testifica, preenche todas as coisas (Ef 4.10). Essa ascensão significa que Cristo governa de modo onipresente, não apenas como Deus, mas também como homem. Esse governo é descrito de forma clara pelas Escrituras, com Cristo confirmando a palavra dos apóstolos por meio de sinais que se seguiram à sua ascensão (Mc 16.20).
Dizer que Cristo está à "direita de Deus" não é dizer que ele se localiza em um espaço físico no céu, como argumentam alguns, mas sim que ele está investido no poder onipotente de Deus, que preenche o céu e a terra (Hb 1.3). Lutero explica que a mão direita de Deus não é um lugar específico, mas o poder divino. Assim, Cristo, em sua humanidade, recebeu esse poder sem confusão ou mistura de suas duas naturezas, divina e humana (Cl 2.9).
Por causa desse poder divino, Cristo pode estar verdadeiramente presente na Santa Ceia com seu Corpo e Sangue, conforme ele mesmo prometeu em seu testamento (Mt 26.26-28). Essa presença real não é possível para nenhum outro ser humano, já que nenhum outro está unido à natureza divina da forma que Cristo está. Somente Jesus, o Filho de Maria, pela união pessoal de suas duas naturezas, pode estar presente de maneira tão excelsa, como atestado pelas Escrituras, que dizem que "nele habita corporalmente toda a plenitude da divindade" (Cl 2.9 - NAA).
Portanto, a ascensão de Cristo ao céu e sua presença na Ceia do Senhor são possíveis porque ele governa de modo divino, investido de poder, sem confusão de suas naturezas, e cumpre suas promessas de estar presente em todas as coisas, inclusive e de forma mais que especial, no Sacramento da Ceia (Mt 28.20).
[1] Livro de Concórdia, 2021, página 667
[2] Os sacramentários viam os elementos da Ceia como símbolos ou representações da presença espiritual de Cristo. Entre os mais proeminentes sacramentários estavam Ulrico Zuínglio e João Calvino, que promoviam a ideia de que o pão e o vinho eram símbolos que apontavam para Cristo, mas não continham a sua presença corporal.
Você sabia que o seu pastor realiza "milagres"?
quarta-feira, 28 de agosto de 2024
Comemoração de Agostinho de Hipona, Pastor e Teólogo - 28 de agosto
Agostinho, Bispo de Hipona, 430
Aurelius Augustinus, geralmente conhecido como Santo
Agostinho, nasceu na cidade de Tagaste, hoje conhecida como Souk Arrhas, na
Argélia, em 13 de novembro de 354. Sua mãe, Mônica, era cristã e tentou criá-lo
na fé cristã, mas sem sucesso. Ele frequentou a escola em Cartago, onde foi um
estudante sério, mas acabou se convertendo ao maniqueísmo, uma religião
dualista de origem persa que era popular na época. Ele teve um filho com uma
concubina, a quem deu o nome de Adeodato ("Presente de Deus").
Em algum momento depois de 383, Agostinho foi para Roma, onde
ensinou retórica e continuou seus estudos. Em 384, ele foi para Milão para
lecionar, e lá foi gradualmente atraído para a fé católica. Primeiro, ele
abandonou o maniqueísmo para estudar o neoplatonismo e, depois, caiu sob a
influência de Santo Ambrósio, o Bispo de Milão. Após uma grande luta interna,
suas dúvidas foram dissipadas, e Ambrósio o batizou na Vigília Pascal de 387.
Sua mãe faleceu enquanto os dois estavam a caminho de volta ao Norte da África.
Lá, Agostinho viveu uma espécie de vida monástica por vários anos com um grupo
de amigos. Em 391, durante uma visita à cidade de Hipona, foi escolhido contra
sua vontade pelos cristãos locais para ser seu pastor. A partir de então,
Hipona se tornou sua residência até sua morte. Ele foi ordenado sacerdote e,
quatro anos depois, consagrado bispo, tornando-se o Bispo de Hipona, a segunda
cidade mais importante da África em termos eclesiásticos, que hoje não existe
mais. Agostinho serviu como bispo por trinta e cinco anos. Mesmo com muitas
viagens e responsabilidades, ele produziu uma vasta quantidade de escritos.
Santo Agostinho foi um dos grandes mestres da Igreja, e
pensadores cristãos, tanto católicos quanto protestantes, reconhecem sua
importância como teólogo e defensor da fé cristã. Entre seus muitos escritos,
os mais famosos são as “Confissões” (c. 400) e “A Cidade de Deus” (após 412).
As “Confissões” narram sua vida e conversão; “A Cidade de Deus” contém suas
visões sociais e políticas, motivadas pelo colapso de Roma; uma defesa do
cristianismo; e uma visão da sociedade cristã ideal. Ele também escreveu várias
obras mais puramente teológicas, incluindo ataques ao maniqueísmo e polêmicas
contra heresias como o donatismo e o pelagianismo. Alguns de seus tratados
foram comentários sobre partes das Escrituras. Seus livros, sermões e cartas
foram publicados em muitas línguas e edições, e há uma vasta literatura sobre
ele. Ele estabeleceu a regra monástica de Santo Agostinho, e mais de um milênio
depois, Martinho Lutero se tornou um monge da Ordem Agostiniana.
Os últimos anos de Santo Agostinho foram marcados pelo caos
causado pela invasão das tribos vândalas no Norte da África. Cidade após cidade
foi destruída, igrejas foram queimadas e o clero foi disperso. Durante o cerco
dos vândalos a Hipona, em 430, Santo Agostinho foi acometido por uma febre e
faleceu em 28 de agosto de 430, data em que é atualmente comemorado. Seu corpo
foi posteriormente levado para a Sardenha e, no meio do século VIII, foi
transferido novamente para a capital da Lombardia, Pavia, onde agora repousa em
um esplêndido monumento de mármore na Igreja de São Pedro em Ciel d’Oro.
LEITURA
(De Confissões de Agostinho)
Quando essas severas reflexões me fizeram emergir do íntimo e
expuseram toda a minha miséria à contemplação do coração, desencadeou-se uma
grande tempestade portadora de copiosa torrente de lágrimas. Para dar-lhes
vazão com naturalidade, levantei-me e afastei-me de Alípio, o necessário para
que sua presença não me perturbasse, pois a solidão me parecia mais apropriada
ao pranto. Alípio percebeu o estado em que me encontrava: o tom da voz
embargada pelas lágrimas, ao dizer-lhe alguma coisa, havia-me traído. Levantei-me;
ele permaneceu atônito, onde estávamos sentados. Deixei-me, não sei como, cair
debaixo de uma figueira e dei livre curso às lágrimas, que jorravam de meus
olhos aos borbotões, como sacrifício agradável a ti. E muitas coisas eu te
disse, não exatamente nestes termos, mas com o seguinte sentido: “E tu, Senhor,
até quando? Até quando continuarás irritado? Não te lembres de nossas culpas
passadas”! Sentia-me ainda preso ao passado, e por isso gritava
desesperadamente: “Por quanto tempo, por quanto tempo direi ainda: amanhã,
amanhã? Por que não agora? Por que não pôr fim agora à minha indignidade?”
Assim falava e chorava, oprimido pela mais amarga dor do
coração. Eis que, de repente, ouço uma voz vinda da casa vizinha. Parecia de um
menino ou menina repetindo continuamente uma canção: “Toma e lê, toma e lê”.
Mudei de semblante e comecei com a máxima atenção a observar se se tratava de
alguma cantilena que as crianças gostam de repetir em seus jogos. Não me
lembrava, porém, de tê-la ouvido antes. Reprimi o pranto e levantei-me. A única
interpretação possível, para mim, era a de uma ordem divina para abrir o livro
e ler as primeiras palavras que encontrasse. Tinha ouvido que Antão, assistindo
por acaso a uma leitura evangélica, sentiu um chamado, como se a passagem lida
fosse pessoalmente dirigida a ele: “Vai, vende os teus bens e dá aos pobres, e
terás um tesouro nos céus. Depois, vem e segue-me”. E logo, através dessa
mensagem, converteu-se a ti. Apressado, voltei ao lugar onde Alípio ficara
sentado, pois, ao levantar-me, havia deixado aí o livro do Apóstolo. Peguei-o,
abri e li em silêncio o primeiro capítulo sobre o qual caiu o meu olhar: “Não
em orgias e bebedeiras, nem na devassidão e libertinagem, nem nas rixas e
ciúmes. Mas revesti-vos do Senhor Jesus Cristo e não procureis satisfazer os
desejos da carne”. Não quis ler mais, nem era necessário. Mal terminara a
leitura dessa frase, dissiparam-se em mim todas as trevas da dúvida, como se
penetrasse no meu coração uma luz de certeza.
- AGOSTINHO, Confissões.
A Conversão: Toma e lê! In Patrística: Santo Agostinho, Confissões.
Editora Paulus.
Cor Litúrgica: Branco
Prefácio Próprio: A Santíssima Trindade
Leituras Bíblicas:
+
Primeira Leitura: Provérbios 3.1-7
+
Salmodia: Salmo 119.89-104
+
Segunda Leitura: 1Coríntios 2.6-10; 13-16
+
Santo Evangelho: João 17.18-23
ORAÇÃO DO DIA
Ó Senhor Deus, luz das mentes que te
conhecem, vida das almas que te amam e força dos corações que te servem,
concede-nos força para seguir o exemplo de teu servo Agostinho de Hipona, de
modo que, conhecendo a ti, possamos te amar verdadeiramente, e amando a ti,
possamos te servir inteiramente – pois servir-te é a perfeita liberdade;
através de Jesus Cristo, nosso Senhor, que vive e reina contigo e o Espírito
Santo, um só Deus, agora e sempre. Amém.
— As informações sobre história, cor litúrgica, prefácio próprio e leituras bíblicas da comemoração foram retiradas do livro Festivals and Commemorations: handbook to the calendar in Lutheran Book of Worship de Philip H. Pfatteicher, publicado pela Augusburg Publishing House, 1980. A Oração do Dia é retirado de Treasury of Daily Prayer, publicado pela Concordia Publishing House, 2008.
segunda-feira, 26 de agosto de 2024
Os Meios da Graça
O
que é um meio de graça?
A
teologia luterana não aborda a questão dos sacramentos, ou meios da graça,
partindo de uma definição geral ou de um conceito universal. A essência dos
sacramentos não pode ser captada se forem vistos apenas como fenômenos
religiosos ou rituais que também aparecem em outras religiões. Embora outras
religiões possam ter práticas semelhantes ao batismo e à Ceia do Senhor, como o
uso da água e refeições cultuais, não existe uma ideia universal compartilhada
por trás dessas práticas. Os sacramentos cristãos são sui generis, sem
comparação possível, pois foram instituídos exclusivamente pelo Filho de Deus.
Ao
contrário da Igreja Católica Romana[2] e da tradição reformada,[3] a Igreja da Confissão de
Augsburgo não desenvolve sua doutrina sacramental a partir de uma definição
geral. A Confissão de Augsburgo aborda os sacramentos de maneira particular,
tratando cada um deles individualmente. A doutrina dos sacramentos, portanto,
não é deduzida de um conceito a priori, mas busca uma síntese através da
observação indutiva. Isso é mais evidente no fato de que os luteranos nunca
definiram com precisão o número de sacramentos. A Igreja de Roma ensina que há
exatamente sete sacramentos, enquanto Genebra reconhece apenas dois. No
luteranismo, o número de sacramentos pode variar (de 2 a 4), dependendo de como
definimos o que é um sacramento.[4] Isso se deve simplesmente
ao fato de que Cristo não instituiu um sacramento abstrato, mas instituiu a
Ceia do Senhor, o Batismo, a Confissão, e o Ofício Pastoral para ministrá-los e
proclamar o Evangelho. É importante lembrar que o termo “sacramento” não
aparece no Novo Testamento com seu significado teológico.[5] Por isso, a ordem dos
artigos na Confissão de Augsburgo revela a maneira correta do luteranismo
abordar essa questão: Artigo V: do ministério da pregação; Artigo IX: do
Batismo; Artigo X: da Ceia do Senhor; Artigo XI: da Confissão de Pecados; e Artigo XIII: do uso
dos Sacramentos. Só no Artigo XIII é que se diz algo geral e comum sobre todos
os sacramentos tratados anteriormente, mas mesmo assim não é dada uma definição
abrangente ou limitante. Esse ensino, de acordo com o princípio do sola
scriptura, impede que apliquemos categorias humanas aos sacramentos,
forçando-os a se encaixar em um “molde sacramental”. Isso não significa que não
sejam necessárias algumas definições delimitadoras e esclarecedoras. Lutero
cita uma frase do pai da Igreja, Agostinho, no Catecismo Maior, tanto no
contexto do Batismo quanto na Ceia do Senhor: “Accedat verbum ad elementum
et fit sacramentum: o que significa: ‘Quando a palavra se junta ao elemento
ou substância natural, faz-se o sacramento’”. [6] No entanto, nossos documentos
confessionais não excluem, com base nessa fórmula, a Confissão, mesmo que não
envolva um elemento físico, nem negam a natureza sacramental do Ofício
Pastoral. Na Apologia (art. XIII) lemos:
“Autenticamente
sacramentos são, portanto, o batismo, a ceia do Senhor e a absolvição, que é o
sacramento da penitência. Pois esses ritos têm o mandamento de Deus e a
promessa da graça, que é própria do Novo Testamento. [...] Os sacerdotes não
são chamados para realizar algum sacrifício pelo povo como era na lei, visando
merecer o perdão dos pecados para o povo por meio dele, mas são chamados para
ensinar o evangelho e administrar os sacramentos ao povo. [...] Se a ordem for
entendida como referente ao ministério da palavra, não relutaremos em chamar a
ordem de sacramento. Pois o ministério da Palavra tem mandamento divino e magníficas
promessas. [...] Se a ordem for entendida dessa maneira, não nos recusaremos a
chamar de sacramento nem a imposição de mãos. Pois a igreja tem o mandamento de
constituir ministros, pelo qual devemos ser profundamente gratos, porque sabemos
que Deus aprova esse ministério e nele está presente” (Ap, Art. XIII, p. 250-251).
Nós
encontramos na Bíblia a instituição de Cristo para cada sacramento.
“Portanto, vão e façam discípulos... batizando-os...
ensinando-os” (Mt 28.19-20). “Façam isto em memória
de mim” (Lc 22.19; 1Co 11.24). “Recebam o Espírito Santo. Se de alguns
vocês perdoarem os pecados, são-lhes perdoados; mas, se os retiverem, são
retidos” (Jo 20.22-23). É notável que essas passagens, que servem de base
doutrinária para os sacramentos, também fundamentam a ordenação ao ministério e
o envio (missio). Sacramentos e o ofício pastoral não podem e não devem
ser separados. Observamos também que, embora a Bíblia atribua várias promessas
ao casamento, à doação de esmolas e à oração, esses atos não cumprem os
requisitos para serem considerados sacramentos: “Sinais e testemunhos da
vontade de Deus para conosco, mediante os quais Deus leva os corações a crerem”
(Ap. Art. XIII, p.249). A oração é um
ato sacrificial, uma ação que parte do ser humano em direção a Deus, enquanto
os sacramentos, por outro lado, são ações graciosas e salvadoras de Deus para
conosco. Por isso, o convite luterano ao altar é sempre para a mesa da Ceia do
Senhor, onde recebemos objetivamente os dons da graça de Deus, contrastando com
a tradição evangélica, onde o chamado ao altar é uma resposta sinergística, uma
decisão pessoal ou uma oração oferecida a Deus. Também não devemos, de forma
alguma, confundir dons espirituais com meios de graça, pois Cristo não
instituiu os chamados dons espirituais para a Igreja em um sentido restrito,
nem vinculou a eles qualquer promessa de transmissão da graça. Há uma diferença
tão grande entre os meios de graça e os dons espirituais quanto entre o doador
do presente e os presentes.
Ao
compreendermos a singularidade de cada sacramento, iremos desfrutar
corretamente de todos os dons de Deus que Cristo concedeu à Igreja. Ele deu
muitos dons porque sabe que precisamos de cada um deles. Não podemos colocá-los
em oposição uns aos outros ou classificá-los por importância. Considero
problemático se cada sacramento for visto apenas como uma forma específica da
palavra (por exemplo, ao se falar da palavra como sacramento básico). Isso
corre o risco de nivelar e empobrecer os tesouros concedidos à Igreja.
Portanto, mesmo que falemos de termos como “sacramento audível” (sacramentum
audibile) e “palavra visível” (verbum visibile), eles não devem nos
enganar. É verdade que não há nada de especial nos elementos que são abençoados
em si mesmos. Por isso, é precisamente a palavra, quando unida à água, ao pão e
ao vinho, bem como às ondas sonoras, que os torna sacramentos e nos concede o
mesmo dom de perdão dos pecados, gerando e fortalecendo a fé. No entanto, não
devemos igualá-los completamente. O Batismo é o sacramento da porta, e não é
repetido, enquanto a Ceia do Senhor deve ser recebida semanalmente como
alimento para a vida e caminha do cristão na terra. A confissão concede o
perdão dos pecados, mas não o Corpo e o Sangue de Cristo. O que dizemos sobre o
Batismo, portanto, não se aplica necessariamente à Ceia do Senhor. Assim, por
exemplo, aceitamos o Batismo dos reformados como válido, mas não consideramos
sua Ceia do Senhor como válida. Da mesma forma, por exemplo, a absolvição pode
ser dada por um leigo, mas não reconhecemos o conceito de uma “Ceia do
Senhor de emergência”. Para nós, ouvir apenas a pregação não é suficiente;
também precisamos da Ceia do Senhor semanalmente. Portanto, o melhor é
desfrutar e admirar a particularidade de cada meio de graça e receber graça
sobre graça.
Cristologia
e Meios da Graça
Na
exposição da teologia luterana, a cristologia, a pessoa e a obra de Cristo
precedem a doutrina dos meios de graça. Isso não é apenas uma questão de método
expositivo, mas contém um profundo significado teológico. Os meios de graça
recebem seu significado do fato de que “o Verbo se fez carne” (Jo 1.14) A
segunda pessoa do Deus eterno, imutável e invisível assumiu a natureza humana
no ventre da Virgem Maria. O Espírito de Deus entra na matéria, o Criador no
criado, e o Invisível se torna visível. A maneira como Deus realiza a história
da salvação é sempre teologia da cruz, ou seja, o poder oculto na
fraqueza, a glória na insignificância, o Espírito na matéria, a fé em vez da
experiência, e a direção é sempre de cima para baixo. O princípio do
conhecimento de Deus no luteranismo é: Deus absconditus é Deus revelatus
somente e unicamente naquele que é Deus incarnatus. Portanto, não temos
nenhum conhecimento direto do Deus Triúno, nem acesso ao Deus oculto, exceto em
Cristo encarnado. Ao confessar isso, afirmamos que Deus não deseja se
relacionar com as pessoas de outra maneira que não seja por meio dos meios da
graça. A encarnação é um juízo contra todo misticismo que busca se aproximar do
Deus nu, sem intermediários. Esse modelo encarnacional continua também nos
meios de graça dentro da congregação.
A
vida de Cristo, seu sofrimento vicário e morte na cruz, bem como sua
ressurreição, foram, de fato, a absolvição de todo o mundo. Embora o pecado
ainda atue no mundo, o coração de Deus agora é gracioso. Essa disposição
graciosa de Deus significa justificação universal. A reconciliação foi
realizada por Deus de uma vez por todas, mas agora ele deseja compartilhar seus
frutos, para que ninguém fique sem eles. Por isso, ele instituiu os meios pelos
quais nos oferece e concede essa graça. Por isso, no luteranismo chamamos os
sacramentos de meios de graça, media salutis, porque eles nos transmitem
Cristo e seus dons. Os sacramentos não criam uma nova graça, mas nos distribuem
a graça já existente. Os sacramentos não são nossos sacrifícios ou promessas de
aliança a Deus. Eles não são uma extensão do Decálogo para nós. Não são lei,
mas evangelho. Embora o imperativo divino nos obrigue a seguir, por exemplo, o
mandamento do batismo e a ordem do Senhor, eles não são exigências da lei para
nós. Pois a obediência à lei é completamente diferente de seguir a ordenança
graciosa de Cristo, pela qual Ele prometeu nos dar seus dons. Pois, embora não
possamos cumprir a lei, temos o evangelho como segurança. Mas, se desprezamos o
evangelho e os meios pelos quais ele é trazido a nós, tal como Cristo mesmo os
instituiu, resta apenas a condenação. Lutero explica de maneira precisa a
relação entre a obra da cruz e a distribuição de seus frutos. Ele responde
onde, então, estamos verdadeiramente “aos pés da cruz”:
“Tratamos
do perdão dos pecados de duas maneiras. Primeiro, como ele é conquistado e
alcançado. Segundo, como é distribuído e dado a nós. Cristo o conquistou na
cruz, é verdade. Mas ele não o distribuiu ou deu na cruz. [...] Ele o
conquistou de uma vez por todas na cruz. Mas a distribuição ocorre
continuamente, antes e depois, do começo ao fim do mundo. [...] Se agora eu
procuro o perdão dos pecados, [...] o encontrarei no sacramento ou no
evangelho, a palavra que distribui, apresenta, oferece e me dá aquele perdão
que foi conquistado na cruz” (Contra os Profetas
Celestiais, LW, 40, 213.)
Cristo
instituiu os sacramentos para que, neles e por meio deles Cristo possa atuar
neste mundo. Sua promessa de estar conosco todos os dias até o fim do mundo (cf.
Mt 28.20) não é uma presença vaga, mas temos Cristo, que conhecemos, cheiramos,
provamos e cuja voz ouvimos. Quando falamos dos sacramentos, estamos sempre
falando de Cristo. Neles, Cristo está realmente presente. Por isso, o slogan
luterano é EST! Cristo está realmente presente nos meios de graça tanto
em sua natureza divina quanto humana. Os Santos Sacramentos são a ação
monergística de Deus por meio de seu ministro da Palavra. Cristo batiza, Cristo
distribui seu Corpo e Sangue, Cristo proclama o perdão dos pecados. Os
sacramentos são, portanto, a própria ação graciosa de Deus.
Os
sacramentos têm uma base objetiva, pois são a ação de Deus por meio de um
instrumento humano. Recebemos e possuímos pela fé o dom de Cristo e o perdão
dos pecados nos meios da graça. Fé e sacramentos andam unidos. Não de modo que
a origem e a manutenção da fé estejam separadas deles, mas sim que, por meio
dos sacramentos, a fé é gerada. Pois os meios da graça são sinais da graça de
Deus, que não apontam para algo fora de si mesmos, mas oferecem e concedem o
que prometem. Eles têm o poder de gerar fé, que por sua vez se apega a Cristo e
o possui nos sacramentos. Assim, a justificação pela fé está ligada à
justificação universal, embora entre elas deva ser mantida a distinção entre
causa e efeito. A graça, afinal, sempre precede a fé.
Pneumatologia
e Meios da Graça
Ao
longo da história da Igreja, um dos grandes problemas associados ao movimento
do “entusiasmo” ou “espiritualismo” tem sido a separação entre Cristo e o
Espírito Santo. É importante lembrar o axioma: ubi Spiritus Sanctus ibi
Christus, ubi Christus ibi Spiritus Sanctus (“onde está o Espírito Santo,
ali está Cristo; onde está Cristo, ali está o Espírito Santo”).[7] Devemos ter em mente que
aquele que foi concebido pelo Espírito Santo e sobre quem a pomba desceu,
também enviou o Espírito Santo à Igreja. Esses eventos que indicam o envio
temporal do Espírito refletem a eterna origem do Espírito a partir do Pai e do
Filho (filioque). O Espírito Santo é o Espírito de Cristo. Portanto, os
meios da graça são também instrumentos do Espírito Santo. O Espírito não vem
até nós como uma pomba ou como línguas de fogo, mas através dos meios que
Cristo estabeleceu.
Ainda
hoje, enfrentamos o legado do dualismo platônico de mil anos, que separa
espírito e matéria. É difícil para nós, de forma racional, entender como o
Espírito pode estar presente em substâncias físicas, como água ou pão e vinho.
Por isso, devemos constantemente revisar a “Theologia Crucis” (Teologia
da Cruz). Deus não vem até nós diretamente em sua majestade nua, mas se oculta
aos nossos olhos. O Batismo, a Ceia, a pregação do evangelho e a Confissão são
os meios através dos quais o evangelho é trazido de forma material para seres
materiais. Isso também tem uma profunda dimensão antropológica, pois não somos
apenas seres espirituais, mas temos corpo e alma. Portanto, Deus teve que se
tornar carne para que pudéssemos encontrá-lo. Da mesma forma, o Espírito Santo
opera através da matéria no meio de seres materiais.
A
tarefa do Espírito Santo é chamar e reunir a Igreja,[8] que é o povo de Deus, o
corpo de Cristo e o templo do Espírito Santo (cf. 1Co 6.19). É através dos
meios da graça que a Igreja é formada e preservada.[9] A Confissão de Augsburgo (art.
VII) afirma que a verdadeira Igreja, Una Sancta, está onde o evangelho é
pregado corretamente e os sacramentos são administrados corretamente. A
eclesiologia luterana é, portanto, encarnacional, ou seja, sacramental,
diferenciando-se do modelo católico externo e hierárquico e do modelo reformado
interno e espiritualista.
Escatologia
e Meios da Graça
Os
meios da graça sempre contêm um elemento escatológico. Eles não estão limitados
por restrições de tempo e lugar. Eles nos conectam tanto ao Calvário quanto ao
juízo final. Os sacramentos estão ligados à lembrança da história da salvação,
a anamnesis[10]
(por exemplo, a oração de batismo de Lutero menciona o dilúvio, a travessia do
Mar Vermelho, o batismo de Jesus no Jordão,[11] ou as palavras da
liturgia da ceia: “Na noite em que foi traído”). Os sacramentos apontam para o
passado, mas também olham para o futuro, para o juízo final e o banquete
nupcial do Cordeiro. No batismo, já ascendemos para uma nova vida; a absolvição
que recebemos é um prelúdio da declaração de liberdade no juízo final; e na
mesa da ceia, participamos agora da refeição messiânica. Assim, a teologia
sacramental mantém uma compreensão bíblica dos últimos tempos, evitando
especulações sobre arrebatamentos e reinos milenaristas. Também entendemos que
o anúncio de Jesus sobre a iminente chegada do reino de Deus não foi um
desastre, apesar de já ter passado dois mil anos. As orações “Maranatha”
na liturgia da Ceia[12] nos lembram que Cristo
veio e continua a vir para o meio de sua Igreja. Ele nunca nos abandonou!
Vivemos agora – não ainda a vida celestial – através dos Sacramentos. Ainda
pela fé, mas em breve também pela visão.
A teologia sacramental nunca deve se restringir às “salas de aula” ou se tornar uma “teologia acadêmica”. Os sacramentos não pertencem propriamente à academia, mas aos espaços sagrados da Igreja. Nunca entenderemos os sacramentos corretamente se não passarmos semanalmente pela porta da igreja, ao lado da pia batismal, ouvirmos a Palavra de Deus no púlpito e nos colocarmos ao redor do altar para receber o verdadeiro Corpo e Sangue de Cristo. Ali, o Cristo encarnado, com todos os anjos e arcanjo e a companha celestial, está presente conosco. Portanto, a correta teologia ortodoxa surge de um ensino correto, a orto didaskalia, à verdadeira adoração, orto doxía. À medida que começamos a entender que Cristo está realmente presente através dos sacramentos, descobrimos as riquezas da liturgia antiga, a verdadeira piedade, a alegria na e da adoração.
[2] Sobre a visão romana de “meios da graça”, Pieper afirma: “Roma faz-nos acreditar que a graça conquistada por Cristo leva Deus a infundir no homem uma quantidade suficiente de graça (gratia infusa), ou seja, santificação e boas obras - e isso, é importante notar, com a cooperação constante do homem (Concílio de Trento, Sessão VI, cânon 4) - de modo que ele é capacitado a realmente merecer (vere mereri, Concílio de Trento, Sessão VI, cânon 32) a justificação e a salvação, seja de forma congrua (de acordo com justiça ou liberalidade) ou de forma condigna (por mérito real). Segundo Roma, Cristo conquistou apenas a quantidade de graça necessária para que os homens possam conquistar a salvação por si mesmos. Portanto, os meios da graça no sentido papista não são meios pelos quais Deus oferece à fé o perdão completo dos pecados e a salvação conquistada por Cristo, e através dessa oferta também opera a fé no homem ou fortalece a fé já presente, mas são meios para incitar e ajudar o homem a tais esforços virtuosos, sob direção romana, que podem gradualmente e em medida constantemente crescente (Concílio de Trento, Sessão VI, cap. 16, cânon 32) conquistar a graça de Deus para ele. [...] Com tal ensino, os meios da graça são rebaixados a meios que mantêm o homem na incerteza sobre a posse do favor de Deus”.
[3] Já em relação à visão calvinista,
Pieper afirma: “Segundo o ensino dos calvinistas, como a graça salvadora é
particular, não existem meios de graça para aqueles a quem a graça de Deus e o
mérito de Cristo não se estendem. Pelo contrário, para essas pessoas, os meios
de graça são considerados meios de condenação. [...] Os calvinistas também não
têm meios de graça para os eleitos. Os crentes são expressamente orientados por
Calvin a não determinar sua predestinação a partir da Palavra externa, ou seja,
do chamado universal (vocatio universalis) que ocorre através da Palavra
exterior (per externum praedicationem), mas a partir do chamado especial
(vocatio specialis), que consiste em uma iluminação interior pelo
Espírito Santo. [..] essa ‘iluminação interior’ não é causada pelos meios de
graça; é realizada imediatamente pelo Espírito Santo”.
[4] “Discutir o número de sacramentos
é inútil até que se chegue a um acordo sobre a definição de um sacramento. A
ação do Concílio de Trento ao anatematizar todos que ensinam ‘mais ou menos do
que sete’ sacramentos é tanto ímpia quanto tola. O número de sacramentos que
enumeramos depende da definição adotada. Se definirmos um sacramento como um
ato ordenado por Deus ao qual Ele anexou a promessa do perdão dos pecados e
para o qual Ele prescreveu um elemento visível, então há apenas dois
sacramentos: o Batismo e a Ceia do Senhor. Omitindo o elemento visível em sua
definição, a Apologia conta também a absolvição como um sacramento”.
[5] A palavra “sacramento” vem da
tradução latina da Bíblia, onde a palavra grega “mistério” é traduzida como
“sacramento”
[6] Catecismo Maior, Quarta Parte: Do Batismo,
p. 494, [18]
[7] Santo
Ambrósio, De Spiritu Sancto, 3, VIII, 54. Disponível em http://monumenta.ch/latein/text.php?tabelle=Ambrosius&rumpfid=Ambrosius,%20De%20Spiritu%20Sancto,%203,%20%20%20%209&level=&domain=&lang=0&links=&inframe=1&hide_apparatus=1
[8] Lutero, no Catecismo Menor afirma
que o Espírito Santo “chama, congrega, ilumina e santifica toda a cristandade
na terra, e em Jesus Cristo a conserva na verdadeira e única fé” (cf. Catecismo
Menor, II – O Credo, terceiro artigo: da santificação in Livro de Concórdia,
2021, p. 390, [6].
[9] Masaki, sobre a igreja, faz a
seguinte afirmação: “no Novo Testamento, diz Lutero, o nome do Senhor habita em
Cristo. Onde está Cristo, aí está a igreja como um corpo unido com Cristo. Onde
a igreja está, ali estão a Palavra de Deus, a Ceia do Senhor e o Batismo. A
confissão de Lutero é consistente com a de Inácio de Antioquia: ‘Que seja
considerada uma verdadeira eucaristia aquela que é conduzida pelo bispo. Onde o
bispo aparece, ali deve estar a igreja, assim como onde está Jesus Cristo, ali
está a igreja católica.’ Para Lutero, a igreja é onde Cristo está e onde os
meios de graça são oferecidos. Para Inácio, a igreja é onde Cristo está e onde
o bispo administra a Ceia do Senhor. Em ambos os casos, a igreja é encontrada
onde Cristo entrega os meios de graça por meio do Ofício do Ministério Sagrado.
Em contraste com a definição da igreja a partir do homem, aqui a igreja é
confessada a partir de Cristo” (Masaki, Naomichi. The Church in
Luther’s Large Catechism with Annotations and Contemporany Application”.
[10] Uma liturgia eucarística
encontrada na Agenda Litúrgica da SELK (Herausgegeben von der Kirchenleitung
der Selbständigen Evangelisch-Lutherischen Kirche. Band 1), traz a seguinte
oração de Anamnesis: “Assim lembramos, Senhor, Pai Celeste, o sofrimento
e morte redentores, de teu Filho Jesus Cristo. Adoramos sua vitoriosa
ressurreição dentre os mortos, e nos consolamos com sua ascensão para tua
morada celeste, onde Ele é nosso Sumo Sacerdote, que sempre intercede por nós
diante de ti. E assim como pela comunhão do Corpo e Sangue de teu Filho somos
um só corpo em Cristo, reúne o teu povo desde os confins da Terra e permite
que, junto com todos os teus fiéis, festejemos as bodas do Cordeiro em seu
reino. Através dele e no Espírito Santo, seja a ti, Pai todo-poderoso, a
glória, o louvor e a adoração agora e sempre, de eternidade a eternidade. Amém”.
[11] “Onipotente eterno Deus, que de
acordo com teu reto juízo condenaste o mundo incrédulo pelo dilúvio e, por tua
grande misericórdia, conservaste o crente Noé e mais sete pessoas de sua família;
que afogaste o endurecido Faraó com todos os seus, no mar Vermelho; que
conduziste o teu povo Israel através do mesmo em terra seca, prefigurando, com
isso, este banho do teu santo Batismo; e que, pelo Batismo de teu querido
Filho, nosso Senhor Jesus Cristo, consagraste e instituíste o Jordão e todas as
águas como um dilúvio bem-aventurado e uma rica lavagem dos pecados: pedimos
por essa mesma [lavagem] tua profunda misericórdia, que queiras olhar
graciosamente para este N. e abençoá-lo com fé verdadeira no Espírito; para
que, por meio deste dilúvio salvador, tudo o que lhe é inato desde Adão e que
ele mesmo a isto acrescentou seja afogado nele e desapareça; que seja separado
dentre o número dos descrentes, conservado seco e seguro na santa arca da
cristandade, sirva sempre a teu nome, ardendo em Espírito e alegre em
esperança; para que, junto com todos os crentes, ele se torne digno de alcançar
vida eterna, de acordo com a tua promessa; por Jesus Cristo, nosso Senhor. Amém”.
Manual de Batismo Revisado in Obras Selecionadas, vol. 7. p. 218
[12] As opções 2 e 3 do Livro de
Serviço Luterano (Lutheran Service Book), após a consagração dos elementos,
trazem como opção a seguinte proclamação: “P Porque, todas as vezes que comerem
este pão e beberem o cálice, vocês anunciam a morte do Senhor, até que ele
venha. C Amém!
Vem, Senhor Jesus”.
sexta-feira, 23 de agosto de 2024
Fonte, Púlpito e Altar
A Palavra e os sacramentos definem a unidade entre os cristãos. Em um de seus salmos, o rei Davi expressa a grande beleza dessa unidade:
“Oh!
Como é bom e agradável viverem unidos os irmãos! É como o óleo precioso sobre a
cabeça, o qual desce pela barba, a barba de Arão, e desce para a gola de suas
vestes. É como o orvalho do Hermom, que desce sobre os montes de Sião. Ali o
Senhor ordena a sua bênção e a vida para sempre” (Salmo 133).
Davi menciona Arão e
Sião, não Moisés e Jerusalém, porque está falando da unidade na igreja, não na
nação. Segundo Davi, a unidade é boa, prazerosa e preciosa. Onde há essa
unidade, também estão presentes a bênção de Deus e a vida eterna. Reconhecendo
a importância da unidade, São Paulo destaca sua relevância ao escrever aos
Efésios para que façam tudo o que puderem para mantê-la: “fazendo tudo para
preservar a unidade do Espírito no vínculo da paz. Há somente um corpo e um só
Espírito, como também é uma só a esperança para a qual vocês foram chamados. Há
um só Senhor, uma só fé, um só batismo, um só Deus e Pai de todos, o qual é sobre
todos, age por meio de todos e está em todos” (Efésios 4.3-6). Assim como
Deus é um, há um só corpo, a igreja, um Espírito, uma fé, um batismo.
Na Igreja Luterana,
procuramos expressar em nossa prática essa unidade exaltada por Davi e Paulo.
No Culto Luterano, reconhecemos a unidade essencial entre a fonte do batismo, o
púlpito e o altar. A fé na qual uma criança é batizada é a única fé verdadeira
mencionada por Paulo aos Efésios. A fé que o pastor proclama do púlpito não é
sua própria opinião, mas a única fé verdadeira expressa no credo. E a fé
confessada no altar, quando recebemos a Santa Ceia, não é a fé individual de
cada fiel. O perdão recebido na Santa Ceia está ligado à “fé” da igreja.
Portanto, a fonte, o púlpito e o altar expressam unidade na fé. Os pastores
luteranos não pregam algo diferente da fé na qual a criança é batizada. Da
mesma forma, os comungantes não vêm ao altar com crenças que contradizem o que
é pregado do púlpito.
Por exemplo, quando somos
batizados, não somos batizados em nome de qualquer deus. Somos batizados
especificamente em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. A pregação do
pastor orienta a fé das pessoas não para algum deus, mas especificamente para o
Deus Triúno. Se o pastor não prega para guiar as pessoas a crer no Deus do
nosso Batismo, não é um pregador fiel. Quando participamos da Santa Ceia, nos
aproximamos do altar com aqueles que confessam fé no Deus Triúno que nos marca
no Batismo e a quem o pastor aponta em sua pregação. Criar qualquer tipo de
desvio entre a fonte e o altar ou entre o púlpito e o altar, permitindo
variações ou discordâncias na doutrina expressa na fonte, no púlpito e no
altar, é prejudicar a unidade que Davi e São Paulo pediram para manter e
valorizar. Eventualmente, uma prática que não honra a unidade essencial de
confissão na fonte, no púlpito e no altar destruirá a integridade confessional
da igreja.
Mas há outra forma de
unidade entre a fonte, o púlpito e o altar além da unidade de confissão. O
Batismo, a pregação do evangelho e a Santa Ceia nos trazem o mesmo: graça. O
propósito do Batismo, do Evangelho e da Santa Ceia é o mesmo: criar e preservar
a fé, a fé em Jesus, nosso Salvador. Esta fé é gerada, alimentada e nutrida por
uma única coisa: a graça que vem por meio de Jesus Cristo. Assim como os
israelitas foram sustentados pelo maná enviado do céu, Sião vive pela graça que
Deus envia do céu em seu Filho Jesus Cristo, a graça que chega até nós no
Batismo, no Evangelho e na Santa Ceia.
A graça é de valor
inestimável. Sem ela, estamos longe de Deus; com ela, estamos em comunhão com
Ele. Sem ela, estamos sem esperança; com ela, temos uma esperança viva e uma
herança que não se perde (cf. 1Pedro 1.3-4). Sem ela, estamos perdidos para
sempre; com ela, vivemos para sempre.
Infelizmente, muitas
vezes as pessoas não conhecem ou não apreciam o grande valor da graça de Deus.
Como resultado, costumam questionar por que precisam ser batizadas,
especialmente se já acreditam em Jesus e no perdão conquistado na cruz. Essas
mesmas pessoas podem questionar a necessidade de se aproximar do altar, pois já
possuem o que a Santa Ceia oferece. Esse raciocínio pode parecer razoável, mas
perde sentido quando examinado com mais atenção. Sim, os cristãos que chegam à
fé em Cristo como adultos, por exemplo, já têm perdão completo por todos os
seus pecados. Se morrerem, irão para o céu. Não podem ser “mais perdoados” do
que são no momento em que creem em Cristo. Os filhos de Deus batizados e que
estão na fé vivem constantemente sob a graça de Deus e não são “menos
perdoados” em um sábado à noite antes da Santa Comunhão do que em um domingo
depois de receber o Sacramento.
Com esse raciocínio, uma
pessoa poderia decidir não se batizar nem receber a Santa Ceia nunca mais. Mas,
ao adotar esse raciocínio, uma pessoa ignora a razão pela qual os Sacramentos
foram dados. Eles são tesouros. São a graça de Deus. Não são obrigações
impostas sobre nós, mas presentes. Não são um fardo para a fé, mas a alimentam.
Quem, em sã consciência e em circunstâncias normais, rejeitaria o alimento
necessário para sustentar sua vida? A graça é o alimento que nutre nossa fé e a
sustenta. Por que deveríamos rejeitá-la? As pessoas que não querem ser
batizadas ou são negligentes em participar da Santa Ceia não acreditam no que a
Bíblia diz sobre o presente de Deus nesses sacramentos.
Imagine que eu tenha um
campo cheio de tesouros e permita que você ande por ele. Que eu lhe dê uma
bolsa e peça que guarde tudo o que encontrar. Logo, você encontra vários
diamantes e coloca na bolsa. Alguns metros adiante, descobre um monte de
grandes rubis. Você os deixará lá porque já tem diamantes? A maioria de nós
adoraria ter diamantes e rubis, então você adiciona os rubis à bolsa e
continua. Agora, você encontra algumas esmeraldas. O que fará? Diamantes, rubis
e esmeraldas são todas joias preciosas. Você não vai desprezar uma só porque
não parece com as outras. O valor vem de diferentes formas. O que pensaria de
alguém que diz: “Minha irmã herdou um milhão de dólares em ouro, mas eu herdei
um milhão de dólares em prata. Estou muito descontente.” ? Assim como pedras
preciosas, prata e ouro são diferentes, mas todas são valiosas, Deus também tem
mais de uma forma de mostrar e nos dar seu amor: o Evangelho, o Batismo e a
Santa Ceia. Seu amor e graça não têm menos valor por virem de diferentes meios.
Pelo contrário, Deus usa os três meios de graça para garantir que nos ama.
Na proclamação do
evangelho, não há dúvida sobre quem Deus deseja perdoar e salvar. A Bíblia diz:
“O Senhor... é paciente com vocês, não querendo que ninguém pereça, mas que
todos cheguem ao arrependimento” (2Pedro 3.9). Em sua primeira carta a
Timóteo, Paulo diz que Deus “deseja que todos sejam salvos e cheguem ao
pleno conhecimento da verdade” (1Timóteo 2.4). Jesus disse: “Porque Deus
amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo o
que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna” (João 3.16). E Paulo
proclama que Cristo “morreu por todos” (2Coríntios 5.15). O Evangelho
esclarece que Deus ama a todos; Deus enviou seu Filho para todos; Jesus morreu
por todos. Portanto, podemos confiar que Jesus é nosso Salvador. No entanto,
devido ao pecado, podemos duvidar desse fato, por isso Deus manifesta seu amor
e perdão de outra maneira. Ele derrama água sobre nossa cabeça e somos
batizados em seu nome. Da mesma forma, Deus estabelece claramente em sua Santa
Ceia que sua graça é plenamente destinada a cada pessoa junto ao altar. Não
podemos ter dúvidas de que o perdão de Deus é para nós quando o corpo do
Salvador é colocado em nossa boca. Não podemos duvidar que Jesus nos salvou
quando nos dá para beber seu próprio Sangue derramado por nós na cruz.
O amor de Deus nos fala
de diferentes maneiras, mas é o mesmo amor, seja através do Evangelho, do
Batismo ou da Santa Ceia. Seu perdão, salvação e vida são transmitidos de
formas diferentes, mas são o mesmo perdão, vida e salvação que Cristo
conquistou no Monte Calvário e que nos é dado no Monte Sião. Esses tesouros de
Deus criam, nutrem e preservam Sião durante a peregrinação na terra e a
preparam para o dia em que se encontrará com o Salvador face a face, e a graça
culminará em glória eterna.
- Capítulo traduzido e
adaptado de Why I am a Lutheran. Jesus at the Center, escrito pelo Rev. Daniel
Preus e publicado pela Concordia Publishing House, 2004. Todas as citações da
Bíblia Sagrada são da versão Nova Almeida Atualizada (NAA), da Sociedade
Bíblica do Brasil.