quarta-feira, 2 de outubro de 2024

Mensageiros enviados para servir aos filhos dos homens

Mensageiros enviados para servir aos filhos dos homens[1][2]
Apocalipse 12 e São Lucas 10

São Miguel vencendo Satanás.
Rafael, 1518. Em exposição no Museu do Louvre.
Assim como nós, os anjos também são criaturas do único e verdadeiro Deus. No entanto, eles são seres de tal poder e majestade que nós, seres humanos, limitados e frágeis em nossa carne e sangue, mal conseguimos imaginar como eles realmente são — e isso se torna ainda mais difícil devido ao nosso estado caído e pecador.

Os anjos são criaturas divinas, e talvez, em toda a vasta Criação, não haja seres mais poderosos e majestosos do que eles. E, mesmo assim, esses anjos foram criados para o benefício da humanidade, para honrar e servir os seres humanos. Não que Deus precisasse da ajuda deles, pois não há nada que ele não possa fazer por meio de seu poder. Embora os anjos sejam grandes e majestosos, eles também dependem do Senhor, nosso Deus, para existir e para tudo o que são e possuem.

Deus não criou os anjos porque precisava deles — afinal, Deus não precisa de nada — mas por causa de seu amor divino, Deus quis servir e honrar a nós, homens e mulheres, feitos à sua imagem e semelhança. E isso quer dizer, à imagem e semelhança do Filho encarnado, Cristo Jesus.

Somente o ser humano, entre todas as criaturas de Deus, foi criado para compartilhar e participar da vida divina e eterna de Deus. O Filho de Deus não se tornou um anjo, nem outra criatura qualquer, mas verdadeiro homem, nascido de uma mulher, com carne e sangue como os nossos, mas sem o pecado. Os majestosos anjos foram criados para servir a humanidade por causa desse verdadeiro Homem, Cristo Jesus.

Há indícios nas Escrituras Sagradas — e teólogos ao longo da história da Igreja sugeriram e concluíram — que Satanás e seus seguidores caíram da presença de Deus por orgulho e inveja exatamente por causa disso: os seres humanos foram criados para tamanha glória, e Deus, em sua graça, concedeu tamanha honra a essas frágeis criaturas de carne e sangue. Com ciúme e ressentimento, Satanás se rebelou contra Deus e conduziu outros anjos à rebelião.

E o privilégio que Deus deu aos filhos dos homens é demonstrado, acima de tudo, por uma diferença crucial: enquanto os anjos rebeldes e caídos — o diabo e seus seguidores — não têm oportunidade de redenção, arrependimento e restauração ao seu estado original, o homem caído é elevado com Cristo Jesus por meio do arrependimento e da fé no seu Santo Evangelho.

Como todos sabemos, o homem também se rebelou contra Deus e caiu no pecado, trazendo a morte sobre si mesmo e sobre toda a criação — porque toda a criação foi feita por Deus para abençoar e beneficiar o homem, a quem Deus deu domínio sobre a terra. No entanto, apesar dessa glória e honra da graça de Deus, o homem desonrou a Deus e desobedeceu à sua Palavra. Adão e Eva, assim como todos os seus descendentes, inclusive nós, pecaram contra o Senhor.

Mas para você e para todos os filhos do homem — ao contrário dos anjos caídos — foi dada essa grande redenção em Cristo Jesus, essa restauração e salvação, essa grande honra do Santo Evangelho!

Não é como se os pecados da humanidade fossem menos graves ou ofensivos do que os de Satanás e dos outros anjos caídos. Se você considerar que o pecado de Satanás foi de arrogância, orgulho, inveja e ciúme, perceberá que muitos dos seus próprios pecados são “satânicos” — ou demoníacos, como ouvimos recentemente de São Tiago.[4] Você também é arrogante e orgulhoso em seus pecados, egoísta, centrado em si mesmo e autossuficiente; e você também é invejoso e ciumento do seu próximo, cobiçando o que Deus deu aos outros.

No entanto, o mesmo Senhor Deus, em sua misericórdia, escolheu salvar você pela encarnação de seu Filho!

Essa graça e salvação de Deus tornam o diabo ainda mais furioso. Na verdade, o diabo está determinado a arrastar você e todas as pessoas consigo; ele está desesperado para destruí-lo, tentando mantê-lo longe do único e verdadeiro Deus. Para isso, Satanás o tenta ao pecado, para depois acusá-lo desse mesmo pecado! Não subestime a astúcia do diabo, ele é mais sábio e inteligente do que você. Ele é astuto e enganador. E não subestime sua força, pois ele é mais forte do que você e anda ao seu redor como um leão, buscando devorá-lo.

O diabo fará de tudo para destruí-lo. E, infelizmente, você lhe dá muitas armas com seus pecados, com tudo o que faz contrário à Palavra de Deus. Esse velho dragão, Satanás, o “Acusador”, nem precisa mentir quando aponta o dedo para você, porque ele pode usar a própria Lei de Deus contra você. No entanto, ele é derrotado pela Palavra do Evangelho, porque Jesus o perdoa!

A simples Palavra do Evangelho é a sua arma mais poderosa contra o diabo, todas as suas obras e todos os seus caminhos. A Palavra do Evangelho é sua armadura mais forte e sua proteção contra as armadilhas e a força do diabo. Pois o Santo Evangelho de nosso Senhor Jesus Cristo perdoa os seus pecados, remove toda a sua culpa e o cobre com a própria justiça, santidade e paz do Senhor.

Da mesma forma, por causa deste Santo Evangelho, São Miguel e todos os santos anjos servem e protegem você, conforme a boa e graciosa vontade de Deus. Na verdade, acima de tudo, São Miguel e os santos anjos vivem para servir à vontade de Deus; e é a boa e graciosa vontade de Deus para você, em Cristo Jesus, que você seja resgatado e salvo do pecado, da morte, do diabo e do inferno, e que não pereça, mas viva para sempre com Deus no Paraíso.

Portanto, por causa do Evangelho — o que realmente significa por causa de Cristo Jesus — esses grandes e majestosos anjos de Deus estão constantemente ao seu redor para protegê-lo, salvá-lo da destruição e guardar o seu corpo. E, além disso, eles também protegem e guardam sua alma, para que Satanás não tenha chance de alcançá-lo.

No entanto, não foram os santos anjos, mas homens, que Deus escolheu, chamou, ordenou e enviou em seu nome — não anjos, mas homens — para pregar o Evangelho, perdoar pecados e administrar o Corpo e o Sangue de Cristo Jesus na Santa Ceia. É por meio dessa Palavra e desse Corpo e Sangue de Cristo que você é resgatado e salvo do diabo e de todos os seus ataques e acusações. Mas não são os santos anjos que recebem esse ministério sagrado do Evangelho, mas homens enviados em nome e lugar pelo Senhor Jesus.

Hoje, em particular, damos graças e louvamos a Deus pelo presente dos seus “anjos” humanos, mensageiros de Deus neste lugar — Bryan e Adam — enviados para proclamar o Evangelho a todos vocês!

Neste Santo Ministério, vemos novamente a honra e a glória que Deus deu ao homem, acima até dos santos anjos. São os homens que têm o privilégio de distribuir os dons de Cristo Jesus, e são os homens e mulheres que os recebem. Pois o Filho de Deus todo-poderoso e eterno não se tornou como os espíritos angelicais, mas se fez verdadeiro homem e Salvador de toda a humanidade.

Os santos anjos de Deus veem em você, em sua carne e sangue, a mesma natureza humana que Deus, o Filho encarnado, Cristo Jesus, fez sua própria quando foi concebido e nascido da mulher, Maria. Isso é o que os anjos veem em você. E, da mesma forma, é isso que você deve ver no seu próximo: a imagem e semelhança de Deus, o seu Salvador.

De fato, em Cristo Jesus, o homem mortal — apesar de nossa queda no pecado e da morte e condenação que merecemos por nossos pecados — é elevado, exaltado e glorificado muito acima dos santos anjos: nAquele que por um tempo foi feito menor do que os anjos, mas agora recebeu o nome que está acima de todo nome, o nome com o qual ele o nomeou em seu Batismo. E essa é a sua glória e honra, que pela graça de Deus Ele fez tudo isso por você.

Ao contrário de Satanás e de todos os outros anjos caídos que se juntaram à sua rebelião, São Miguel e todos os santos anjos de Deus não sentem inveja ou ciúmes de você. Eles não ressentem essa graça de Deus para com você e todos os filhos dos homens. Eles não são amargurados com você, nem estão irritados com Deus por sua causa. Ao contrário, sua maior alegria e satisfação está no arrependimento, perdão, fé e salvação dos homens e mulheres — no seu arrependimento, seu perdão, sua fé e sua salvação.

Os santos anjos de Deus se alegram em servir você por causa de Cristo Jesus, seu Salvador. Eles amam fazer isso, porque está de acordo com a vontade de Deus, o Senhor. Essa é a maior alegria de Deus, salvá-lo e dar-lhe vida; e essa também é a maior alegria e satisfação dos santos anjos.

Portanto, por tudo isso, os anjos louvam, honram e adoram a Deus, especialmente porque você foi salvo; porque você foi chamado das trevas para a Luz de Cristo; porque seus pecados foram perdoados; porque você viverá com Cristo para sempre. Nisso todos os anjos no céu se alegram. Quanto mais, então, nós devemos adorar, honrar, glorificar e louvar o nosso querido Deus e Pai por este Evangelho e por esta Vida que ele nos dá gratuitamente por sua graça em Cristo Jesus!

E, junto com todos os seus benefícios, agradecemos a Deus também pelo serviço de seus santos anjos, que até agora se reúnem conosco ao redor do Cordeiro no trono de Deus - o Deus de Deus e Luz da Luz, o verdadeiro Deus de verdadeiro Deus, que se fez carne da nossa carne e osso dos nossos ossos, que levou sobre Si os seus pecados, tristezas e sofrimentos em seu próprio corpo na Cruz, que foi crucificado, morto e sepultado por você, para expiar seus pecados e reconciliá-lo com Deus, que ressuscitou dos mortos, subiu aos céus e está sentado à direita do Pai para sempre.

Em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo. Amém.

O Culto Luterano: o processional

   
Processional em Culto no Seminário Concórdia

    Todo culto ou evento precisa de um início. A maneira como algo começa define o clima e o tema do que está por vir. Um exemplo famoso é a abertura dos filmes de Guerra nas Estrelas, que sempre começa com a frase: “Há muito tempo, em uma galáxia muito, muito distante”, seguida do logotipo de Guerra nas Estrelas e uma introdução que contextualiza a história daquele filme específico. Essa abertura prepara o clima e as expectativas para o filme que está por vir. Da mesma forma, todo culto tem um rito de entrada. Ele é essencial para definir o clima e o tom para o restante do culto.
    Em algumas igrejas, o culto começa com o pastor dando as boas-vindas e com uma banda de louvor tocando. Embora esses elementos não sejam vistos formalmente como um “rito de entrada”, eles indicam o início do culto. A maneira como o culto começa influencia a expectativa e a direção para o restante da celebração. Em um culto litúrgico, o rito de entrada inclui três elementos principais: o hino de abertura, a procissão e a invocação.

O Hino Processional
    Em muitas igrejas modernas, as músicas são frequentemente agrupadas em um bloco de “louvor e adoração” no início do culto. No entanto, nas igrejas litúrgicas, os hinos são distribuídos ao longo da liturgia. O primeiro deles, chamado de “hino processional”, marca o início do culto. Outros hinos são entoados antes do sermão, após a bênção e, em alguns casos, durante a distribuição da Santa Ceia. A seleção desses hinos segue o calendário litúrgico, sempre refletindo o tema das leituras e do sermão. O hino processional representa o momento em que a congregação deixa para trás as preocupações da vida cotidiana e adentra a presença de Deus, onde o céu e a terra se encontram. Durante este hino, é costume que a congregação permaneça de pé, em sinal de reverência a Deus e reconhecimento da santidade do momento.
    Ao entrarmos na igreja, é como se estivéssemos em um mundo à parte. Pelo Santo Batismo, somos filhos de Deus e herdeiros dos céus. Assim, ao adentrar a igreja, entramos em um lugar onde nós, como filhos batizados que já possuímos a vida eterna por meio de Cristo, viveremos junto com “anjos e arcanjos, e com toda a companhia celeste” (Hebreus 12.22-24). Estaremos diante de Cristo, seja nos céus quando partirmos deste mundo, seja na Nova Jerusalém, quando testemunharmos a tão esperada volta de Cristo a este mundo (Apocalipse 21.1-4).
    Esse pensamento é consolador, pois já aqui, neste mundo, temos a oportunidade de experimentar aquilo que faremos após a morte: adorar o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo, rendendo louvores ao seu santo nome. Como é reconfortante saber que, a cada semana, podemos ter um vislumbre do que é o céu! Como é maravilhoso poder nos desligar deste mundo imperfeito e repleto de pecado e, ao entrar na igreja (um pedaço do céu), entregar a Jesus todas as nossas dificuldades e angústias – sabendo que no céu não haverá mais sofrimento, e sair de sua casa com os ombros mais leves. Pois, onde está Jesus, ali também está o céu.
    Afinal, quer saber o que você fará quando deixar este mundo ou quando Jesus voltar em glória? Vá ao culto. Se você deseja passar a eternidade com Cristo, certamente não se recusará a dedicar 1 ou 2 horas por semana para já começar a viver essa realidade maravilhosa.

O Processional
    Durante o hino processional, o pastor e seus auxiliares processam (caminham) até o altar. Essa procissão geralmente inclui um acólito (quem acende e apaga as velas), leitores e outros oficiantes ou auxiliares. Às vezes, o coral da igreja também participa. A procissão simboliza o povo de Deus se reunindo e caminhando em direção ao altar, que é o ponto central do culto. Ao caminhar, a atenção da congregação se volta para o altar, onde Deus encontra seu povo.
Processional na Paróquia Castelo Forte
de Itueta - MG, em 27/06/2021
    As procissões recordam como as multidões seguiram ou receberam Jesus em suas jornadas, especialmente no Domingo de Ramos. Além disso, elas simbolizam a entrada de Cristo para realizar seu
serviço ao povo (Lucas 22.27), por meio do Santo Ministério. Se uma procissão for utilizada, é importante escolher um hino de entrada com um ritmo claro para que os participantes possam caminhar em um ritmo confortável. Ao planejar uma procissão, a ordem dos participantes comunica a importância do evento. A procissão começa com a cruz processional, que simboliza que a Igreja Cristã segue o Senhor. O cruciferário, que é quem carrega a cruz, caminha deliberadamente, nem muito devagar, nem muito rápido. A cruz deve ser carregada em posição vertical, preferencialmente com uma mão segurando o bastão da cruz ou tocha ao nível do rosto e a outra mão segurando o bastão ao nível da cintura. Tanto a cruz quanto as tochas devem ser elevadas acima do nível dos olhos da congregação que está em pé.
    Não existe uma regra fixa sobre a ordem de entrada. Normalmente, a sequência costuma ser a seguinte: cruciferário, leitores, acólitos, oficiantes auxiliares (se houver) e o pastor celebrante principal, que é aquele que irá celebrar a Liturgia da Santa Ceia. É muito comum também que, em cultos festivos, onde há a presença de muitos pastores, eles entrem em dupla. Isso não está errado, mas é importante que aquele que irá liderar a liturgia, ao chegar no altar, fique no meio, para garantir uma boa dinâmica e evitar movimentações desnecessárias durante a celebração litúrgica.
    Ao longo dos séculos, a tradição de ter uma cruz processional e uma cruz fixa no altar se consolidou, destacando a importância da morte expiatória de Cristo no culto cristão. Muitas igrejas também possuem uma cruz ou crucifixo na parede atrás do altar. Ao final da procissão, o pastor e todos que participaram do processional fazem uma reverência diante do altar, em sinal de respeito a Cristo. Para alguns, isso pode parecer uma adoração ao altar, mas, na verdade, é um gesto de reverência a Deus, que está presente no altar. Este é o local onde Cristo se faz presente com Seu verdadeiro Corpo e Sangue, unidos ao pão e ao vinho. Ao entrar no culto, os fiéis na terra se curvam assim como os seres celestiais se curvam diante do trono do Cordeiro (Apocalipse 5.8-14).

+ Rev. Filipe Schuambach Lopes

quinta-feira, 19 de setembro de 2024

Festa da Santa Cruz - 14/09/2024 A+D


Hoje, não temos diante de nós a cruz original. O que possuímos em nosso altar é uma representação dela. No entanto, mesmo sem a presença física da cruz original, os benefícios do sacrifício realizado nela continuam vivos e acessíveis a cada um de nós. Ainda hoje, recebemos os frutos desse sacrifício por meio dos meios da graça: a Palavra e os Santos Sacramentos.

Na pregação da Palavra de Deus, temos a oportunidade de contemplar Cristo crucificado com os olhos da fé, pois, como afirma São Paulo na segunda leitura de hoje: “nós pregamos a Cristo crucificado” (1Co 1.23). Assim, ao ouvirmos e lermos a Palavra de Cristo, presenciamos, aquele ato de amor realizado por nós na cruz. Contudo, não é apenas na Palavra que encontramos essa presença. De maneira especial, na Santa Ceia, em cada culto, temos o privilégio de receber os frutos da cruz. De fato, assim como no Jardim do Éden uma árvore produziu frutos, e por meio de um desses frutos, ao ser consumido de forma desobediente por nossos primeiros pais, o pecado entrou no mundo, assim também a cruz de Cristo nos oferece frutos – fruto da obediência do Filho: o perdão e a reconciliação com Deus. Ao nos aproximarmos da Mesa do Senhor, aquilo que foi conquistado há mais de dois mil anos, no alto do Gólgota, é hoje distribuído a nós como um presente real.

+ Pr. Filipe Schuambach Lopes
Trecho do sermão para a Festa da Santa Cruz, 14/09/2024

quarta-feira, 18 de setembro de 2024

"Subiu ao céu e está sentado à direita de Deus Pai todo-poderoso.”



Os textos de Lucas 24.51, Atos 1.9-11, Salmo 100.1 e Hebreus 1.3 nos lembram, como confessamos nos credos da igreja, que Jesus “subiu ao céu e está assentado à direita de Deus Pai todo-poderoso”. Mas, o que significa afirmar que Jesus subiu ao céu? E, se ele está à direita do Pai, como pode estar verdadeiramente presente com seu corpo e sangue na Ceia do Senhor? As nossas confissões nos ajudam!

Assim afirma a Fórmula de Concórdia, Declaração Sólida, Art. VII, da pessoa de Cristo:[1]

“[27] Agora, porém, uma vez que subiu ao céu não simplesmente como qualquer outro santo, mas, como o apóstolo testifica, subiu acima de todos os céus, também verdadeiramente preenche todas as coisas, e, presente em toda parte, governa de um mar ao outro e até os confins da terra, não só como Deus, mas também como homem, como os profetas predizem e os apóstolos testificam que, por toda parte, cooperou com eles e lhes confirmou a palavra por meio de sinais, que se seguiam. [28] Isso, porém, não se deu de maneira terrena, mas, como o Dr. Lutero explica, segundo o modo da mão direita de Deus. A mão direita de Deus não é lugar específico no céu, como alegam os sacramentários,[2] sem fundamento da Escritura Sagrada. Pelo contrário, não é nenhuma outra coisa senão o poder onipotente de Deus, que preenche o céu e a terra, no qual Cristo foi investido segundo a sua humanidade, realiter, isto é, de fato e de verdade, sine confusione et exaequatione naturarum, isto é, sem mistura e igualamento das duas naturezas na essência e propriedades essenciais delas. [29] Por causa desse poder transmitido, Cristo verdadeiramente pode estar e está presente na santa ceia, com seu corpo e sangue, conforme as palavras de seu testamento, para as quais ele nos apontou por meio de sua palavra. Isso não é possível a nenhum outro ser humano, porque nenhum outro ser humano está unido com a natureza divina nem foi investido de tal majestade divina, onipotente, e de tal poder, pela união pessoal e na união pessoal de ambas as naturezas em Cristo, como acontece com Jesus, o filho de Maria. [30] Nele, a natureza divina e a natureza humana estão pessoalmente unidas, de modo que em Cristo ‘habita corporalmente toda a plenitude da divindade’ (Cl 2[.9]). Nessa união pessoal, as duas naturezas têm comunhão tão excelsa, íntima e indescritível, que até os anjos ficam admirados e, conforme São Pedro testifica, se deliciam e se alegram em contemplar”.

Colocando isso em outras palavras, conforme explicado acima, a ascensão de Cristo ao céu, não foi como a de qualquer outro santo. Ao contrário, ele subiu acima de todos os céus e, como o apóstolo testifica, preenche todas as coisas (Ef 4.10). Essa ascensão significa que Cristo governa de modo onipresente, não apenas como Deus, mas também como homem. Esse governo é descrito de forma clara pelas Escrituras, com Cristo confirmando a palavra dos apóstolos por meio de sinais que se seguiram à sua ascensão (Mc 16.20).

Dizer que Cristo está à "direita de Deus" não é dizer que ele se localiza em um espaço físico no céu, como argumentam alguns, mas sim que ele está investido no poder onipotente de Deus, que preenche o céu e a terra (Hb 1.3). Lutero explica que a mão direita de Deus não é um lugar específico, mas o poder divino. Assim, Cristo, em sua humanidade, recebeu esse poder sem confusão ou mistura de suas duas naturezas, divina e humana (Cl 2.9).

Por causa desse poder divino, Cristo pode estar verdadeiramente presente na Santa Ceia com seu Corpo e Sangue, conforme ele mesmo prometeu em seu testamento (Mt 26.26-28). Essa presença real não é possível para nenhum outro ser humano, já que nenhum outro está unido à natureza divina da forma que Cristo está. Somente Jesus, o Filho de Maria, pela união pessoal de suas duas naturezas, pode estar presente de maneira tão excelsa, como atestado pelas Escrituras, que dizem que "nele habita corporalmente toda a plenitude da divindade" (Cl 2.9 - NAA).

Portanto, a ascensão de Cristo ao céu e sua presença na Ceia do Senhor são possíveis porque ele governa de modo divino, investido de poder, sem confusão de suas naturezas, e cumpre suas promessas de estar presente em todas as coisas, inclusive e de forma mais que especial, no Sacramento da Ceia (Mt 28.20).


[1] Livro de Concórdia, 2021, página 667

[2] Os sacramentários viam os elementos da Ceia como símbolos ou representações da presença espiritual de Cristo. Entre os mais proeminentes sacramentários estavam Ulrico Zuínglio e João Calvino, que promoviam a ideia de que o pão e o vinho eram símbolos que apontavam para Cristo, mas não continham a sua presença corporal.

Você sabia que o seu pastor realiza "milagres"?


Olhe o que Lutero afirma sobre isso:

"Pois, visto que a palavra de Deus, quando ensinada corretamente, não pode deixar de produzir incessantemente grandes coisas e fazer milagres, também [o pastor] realizará grandes coisas e tão-somentes milagres sem cessar perante, como, por exemplo, ressuscitar mortos, expulsar demônios, devolver a vista a cegos, recuperar a audição de surdos, purificar leprosos, curar mudos e pôr aleijados a andar. Ainda que isso não aconteça fisicamente, não deixa de acontecer espiritualmente na alma, o que é um milagre muito maior. [...] Não que o fizesse como ser humano, mas quem faz é o seu ministério instituído por Deus para isso, e a palavra de Deus que ele ensina, pois ele é o instrumento para isso. [...] Se realiza essas grandes obras e milagres espiritualmente, decorre daí que também os realiza fisicamente, ou, no mínimo, é o iniciador deles e sua causa. Pois, de onde procede que no dia derradeiro os cristãos ressuscitarão dos mortos, que todos os surdos, cegos, aleijados e quaisquer que tenham sido as mazelas do corpo hão de desaparecer, e que seus corpos não apenas serão maravilhosos, bonitos, sadios, mas inclusive irão luzir brilhantes e belos como o sol, como o afirma Cristo? Não será porque foram convertidos, chegaram à fé, foram batizados e incorporados a Cristo aqui na terra por meio da palavra de Deus? como o diz Paulo em Rm 8.11: ‘Deus ressuscitará nossos corpos mortais por amor de seu Espírito que habita em nós’. Quem conduz a pessoa humana a essa fé e princípio da ressurreição corporal se não for o ministério da pregação e a palavra de Deus que [o pastor] exerce? Acaso, não é isso uma obra e milagre infinitamente maiores e mais maravilhosos do que se ressuscitasse fisicamente ou temporalmente mortos para essa vida e se ajudasse a cegos, surdos, mudos, leprosos neste mundo e na existência corruptível?"
O trabalho espiritual realizado por um pastor, ao pregar a Palavra de Deus e ministrar os sacramentos, é infinitamente mais significativo do que os milagres físicos. A fé que a Palavra desperta leva à ressurreição e à vida eterna, e essa é a verdadeira obra milagrosa que Deus realiza por meio de seu ministério. Portanto, valorize o seu pastor, valorize a Igreja, especialmente os momentos de culto. É nesses momentos que Cristo vem ao nosso encontro, nos tocando com seu amor por meio da Palavra e dos Sacramentos. E é principalmente na Santa Ceia que experimentamos o maior dos milagres: Cristo nos dando sua vida, sua presença e sua graça.

- Citação retirada de Uma prédica para que se mandem os filhos à Escola in Obras Selecionadas, volume 5, p. 337.

quarta-feira, 28 de agosto de 2024

Comemoração de Agostinho de Hipona, Pastor e Teólogo - 28 de agosto

 

Agostinho, Bispo de Hipona, 430

Aurelius Augustinus, geralmente conhecido como Santo Agostinho, nasceu na cidade de Tagaste, hoje conhecida como Souk Arrhas, na Argélia, em 13 de novembro de 354. Sua mãe, Mônica, era cristã e tentou criá-lo na fé cristã, mas sem sucesso. Ele frequentou a escola em Cartago, onde foi um estudante sério, mas acabou se convertendo ao maniqueísmo, uma religião dualista de origem persa que era popular na época. Ele teve um filho com uma concubina, a quem deu o nome de Adeodato ("Presente de Deus").

Em algum momento depois de 383, Agostinho foi para Roma, onde ensinou retórica e continuou seus estudos. Em 384, ele foi para Milão para lecionar, e lá foi gradualmente atraído para a fé católica. Primeiro, ele abandonou o maniqueísmo para estudar o neoplatonismo e, depois, caiu sob a influência de Santo Ambrósio, o Bispo de Milão. Após uma grande luta interna, suas dúvidas foram dissipadas, e Ambrósio o batizou na Vigília Pascal de 387. Sua mãe faleceu enquanto os dois estavam a caminho de volta ao Norte da África. Lá, Agostinho viveu uma espécie de vida monástica por vários anos com um grupo de amigos. Em 391, durante uma visita à cidade de Hipona, foi escolhido contra sua vontade pelos cristãos locais para ser seu pastor. A partir de então, Hipona se tornou sua residência até sua morte. Ele foi ordenado sacerdote e, quatro anos depois, consagrado bispo, tornando-se o Bispo de Hipona, a segunda cidade mais importante da África em termos eclesiásticos, que hoje não existe mais. Agostinho serviu como bispo por trinta e cinco anos. Mesmo com muitas viagens e responsabilidades, ele produziu uma vasta quantidade de escritos.

Santo Agostinho foi um dos grandes mestres da Igreja, e pensadores cristãos, tanto católicos quanto protestantes, reconhecem sua importância como teólogo e defensor da fé cristã. Entre seus muitos escritos, os mais famosos são as “Confissões” (c. 400) e “A Cidade de Deus” (após 412). As “Confissões” narram sua vida e conversão; “A Cidade de Deus” contém suas visões sociais e políticas, motivadas pelo colapso de Roma; uma defesa do cristianismo; e uma visão da sociedade cristã ideal. Ele também escreveu várias obras mais puramente teológicas, incluindo ataques ao maniqueísmo e polêmicas contra heresias como o donatismo e o pelagianismo. Alguns de seus tratados foram comentários sobre partes das Escrituras. Seus livros, sermões e cartas foram publicados em muitas línguas e edições, e há uma vasta literatura sobre ele. Ele estabeleceu a regra monástica de Santo Agostinho, e mais de um milênio depois, Martinho Lutero se tornou um monge da Ordem Agostiniana.

Os últimos anos de Santo Agostinho foram marcados pelo caos causado pela invasão das tribos vândalas no Norte da África. Cidade após cidade foi destruída, igrejas foram queimadas e o clero foi disperso. Durante o cerco dos vândalos a Hipona, em 430, Santo Agostinho foi acometido por uma febre e faleceu em 28 de agosto de 430, data em que é atualmente comemorado. Seu corpo foi posteriormente levado para a Sardenha e, no meio do século VIII, foi transferido novamente para a capital da Lombardia, Pavia, onde agora repousa em um esplêndido monumento de mármore na Igreja de São Pedro em Ciel d’Oro.

LEITURA

(De Confissões de Agostinho)

Quando essas severas reflexões me fizeram emergir do íntimo e expuseram toda a minha miséria à contemplação do coração, desencadeou-se uma grande tempestade portadora de copiosa torrente de lágrimas. Para dar-lhes vazão com naturalidade, levantei-me e afastei-me de Alípio, o necessário para que sua presença não me perturbasse, pois a solidão me parecia mais apropriada ao pranto. Alípio percebeu o estado em que me encontrava: o tom da voz embargada pelas lágrimas, ao dizer-lhe alguma coisa, havia-me traído. Levantei-me; ele permaneceu atônito, onde estávamos sentados. Deixei-me, não sei como, cair debaixo de uma figueira e dei livre curso às lágrimas, que jorravam de meus olhos aos borbotões, como sacrifício agradável a ti. E muitas coisas eu te disse, não exatamente nestes termos, mas com o seguinte sentido: “E tu, Senhor, até quando? Até quando continuarás irritado? Não te lembres de nossas culpas passadas”! Sentia-me ainda preso ao passado, e por isso gritava desesperadamente: “Por quanto tempo, por quanto tempo direi ainda: amanhã, amanhã? Por que não agora? Por que não pôr fim agora à minha indignidade?”

Assim falava e chorava, oprimido pela mais amarga dor do coração. Eis que, de repente, ouço uma voz vinda da casa vizinha. Parecia de um menino ou menina repetindo continuamente uma canção: “Toma e lê, toma e lê”. Mudei de semblante e comecei com a máxima atenção a observar se se tratava de alguma cantilena que as crianças gostam de repetir em seus jogos. Não me lembrava, porém, de tê-la ouvido antes. Reprimi o pranto e levantei-me. A única interpretação possível, para mim, era a de uma ordem divina para abrir o livro e ler as primeiras palavras que encontrasse. Tinha ouvido que Antão, assistindo por acaso a uma leitura evangélica, sentiu um chamado, como se a passagem lida fosse pessoalmente dirigida a ele: “Vai, vende os teus bens e dá aos pobres, e terás um tesouro nos céus. Depois, vem e segue-me”. E logo, através dessa mensagem, converteu-se a ti. Apressado, voltei ao lugar onde Alípio ficara sentado, pois, ao levantar-me, havia deixado aí o livro do Apóstolo. Peguei-o, abri e li em silêncio o primeiro capítulo sobre o qual caiu o meu olhar: “Não em orgias e bebedeiras, nem na devassidão e libertinagem, nem nas rixas e ciúmes. Mas revesti-vos do Senhor Jesus Cristo e não procureis satisfazer os desejos da carne”. Não quis ler mais, nem era necessário. Mal terminara a leitura dessa frase, dissiparam-se em mim todas as trevas da dúvida, como se penetrasse no meu coração uma luz de certeza.

- AGOSTINHO, Confissões.  A Conversão: Toma e lê! In Patrística: Santo Agostinho, Confissões. Editora Paulus.

Cor Litúrgica: Branco

Prefácio Próprio: A Santíssima Trindade

Leituras Bíblicas:

                + Primeira Leitura: Provérbios 3.1-7

                + Salmodia: Salmo 119.89-104

                + Segunda Leitura: 1Coríntios 2.6-10; 13-16

                + Santo Evangelho: João 17.18-23

 ORAÇÃO DO DIA

Ó Senhor Deus, luz das mentes que te conhecem, vida das almas que te amam e força dos corações que te servem, concede-nos força para seguir o exemplo de teu servo Agostinho de Hipona, de modo que, conhecendo a ti, possamos te amar verdadeiramente, e amando a ti, possamos te servir inteiramente – pois servir-te é a perfeita liberdade; através de Jesus Cristo, nosso Senhor, que vive e reina contigo e o Espírito Santo, um só Deus, agora e sempre. Amém.

 —  As informações sobre história, cor litúrgica, prefácio próprio e leituras bíblicas da comemoração foram retiradas do livro Festivals and Commemorations: handbook to the calendar in Lutheran Book of Worship de Philip H. Pfatteicher, publicado pela Augusburg Publishing House, 1980. A Oração do Dia é retirado de Treasury of Daily Prayer, publicado pela Concordia Publishing House, 2008. 

segunda-feira, 26 de agosto de 2024

Os Meios da Graça

O que é um meio de graça?

A teologia luterana não aborda a questão dos sacramentos, ou meios da graça, partindo de uma definição geral ou de um conceito universal. A essência dos sacramentos não pode ser captada se forem vistos apenas como fenômenos religiosos ou rituais que também aparecem em outras religiões. Embora outras religiões possam ter práticas semelhantes ao batismo e à Ceia do Senhor, como o uso da água e refeições cultuais, não existe uma ideia universal compartilhada por trás dessas práticas. Os sacramentos cristãos são sui generis, sem comparação possível, pois foram instituídos exclusivamente pelo Filho de Deus.

Ao contrário da Igreja Católica Romana[2] e da tradição reformada,[3] a Igreja da Confissão de Augsburgo não desenvolve sua doutrina sacramental a partir de uma definição geral. A Confissão de Augsburgo aborda os sacramentos de maneira particular, tratando cada um deles individualmente. A doutrina dos sacramentos, portanto, não é deduzida de um conceito a priori, mas busca uma síntese através da observação indutiva. Isso é mais evidente no fato de que os luteranos nunca definiram com precisão o número de sacramentos. A Igreja de Roma ensina que há exatamente sete sacramentos, enquanto Genebra reconhece apenas dois. No luteranismo, o número de sacramentos pode variar (de 2 a 4), dependendo de como definimos o que é um sacramento.[4] Isso se deve simplesmente ao fato de que Cristo não instituiu um sacramento abstrato, mas instituiu a Ceia do Senhor, o Batismo, a Confissão, e o Ofício Pastoral para ministrá-los e proclamar o Evangelho. É importante lembrar que o termo “sacramento” não aparece no Novo Testamento com seu significado teológico.[5] Por isso, a ordem dos artigos na Confissão de Augsburgo revela a maneira correta do luteranismo abordar essa questão: Artigo V: do ministério da pregação; Artigo IX: do Batismo; Artigo X: da Ceia do Senhor; Artigo XI:  da Confissão de Pecados; e Artigo XIII: do uso dos Sacramentos. Só no Artigo XIII é que se diz algo geral e comum sobre todos os sacramentos tratados anteriormente, mas mesmo assim não é dada uma definição abrangente ou limitante. Esse ensino, de acordo com o princípio do sola scriptura, impede que apliquemos categorias humanas aos sacramentos, forçando-os a se encaixar em um “molde sacramental”. Isso não significa que não sejam necessárias algumas definições delimitadoras e esclarecedoras. Lutero cita uma frase do pai da Igreja, Agostinho, no Catecismo Maior, tanto no contexto do Batismo quanto na Ceia do Senhor: “Accedat verbum ad elementum et fit sacramentum: o que significa: ‘Quando a palavra se junta ao elemento ou substância natural, faz-se o sacramento’”. [6] No entanto, nossos documentos confessionais não excluem, com base nessa fórmula, a Confissão, mesmo que não envolva um elemento físico, nem negam a natureza sacramental do Ofício Pastoral. Na Apologia (art. XIII) lemos:

“Autenticamente sacramentos são, portanto, o batismo, a ceia do Senhor e a absolvição, que é o sacramento da penitência. Pois esses ritos têm o mandamento de Deus e a promessa da graça, que é própria do Novo Testamento. [...] Os sacerdotes não são chamados para realizar algum sacrifício pelo povo como era na lei, visando merecer o perdão dos pecados para o povo por meio dele, mas são chamados para ensinar o evangelho e administrar os sacramentos ao povo. [...] Se a ordem for entendida como referente ao ministério da palavra, não relutaremos em chamar a ordem de sacramento. Pois o ministério da Palavra tem mandamento divino e magníficas promessas. [...] Se a ordem for entendida dessa maneira, não nos recusaremos a chamar de sacramento nem a imposição de mãos. Pois a igreja tem o mandamento de constituir ministros, pelo qual devemos ser profundamente gratos, porque sabemos que Deus aprova esse ministério e nele está presente” (Ap, Art. XIII, p. 250-251).

Nós encontramos na Bíblia a instituição de Cristo para cada sacramento.

“Portanto, vão e façam discípulos... batizando-os... ensinando-os” (Mt 28.19-20). “Façam isto em memória de mim” (Lc 22.19; 1Co 11.24). “Recebam o Espírito Santo. Se de alguns vocês perdoarem os pecados, são-lhes perdoados; mas, se os retiverem, são retidos” (Jo 20.22-23). É notável que essas passagens, que servem de base doutrinária para os sacramentos, também fundamentam a ordenação ao ministério e o envio (missio). Sacramentos e o ofício pastoral não podem e não devem ser separados. Observamos também que, embora a Bíblia atribua várias promessas ao casamento, à doação de esmolas e à oração, esses atos não cumprem os requisitos para serem considerados sacramentos: “Sinais e testemunhos da vontade de Deus para conosco, mediante os quais Deus leva os corações a crerem” (Ap. Art. XIII, p.249).  A oração é um ato sacrificial, uma ação que parte do ser humano em direção a Deus, enquanto os sacramentos, por outro lado, são ações graciosas e salvadoras de Deus para conosco. Por isso, o convite luterano ao altar é sempre para a mesa da Ceia do Senhor, onde recebemos objetivamente os dons da graça de Deus, contrastando com a tradição evangélica, onde o chamado ao altar é uma resposta sinergística, uma decisão pessoal ou uma oração oferecida a Deus. Também não devemos, de forma alguma, confundir dons espirituais com meios de graça, pois Cristo não instituiu os chamados dons espirituais para a Igreja em um sentido restrito, nem vinculou a eles qualquer promessa de transmissão da graça. Há uma diferença tão grande entre os meios de graça e os dons espirituais quanto entre o doador do presente e os presentes.

Ao compreendermos a singularidade de cada sacramento, iremos desfrutar corretamente de todos os dons de Deus que Cristo concedeu à Igreja. Ele deu muitos dons porque sabe que precisamos de cada um deles. Não podemos colocá-los em oposição uns aos outros ou classificá-los por importância. Considero problemático se cada sacramento for visto apenas como uma forma específica da palavra (por exemplo, ao se falar da palavra como sacramento básico). Isso corre o risco de nivelar e empobrecer os tesouros concedidos à Igreja. Portanto, mesmo que falemos de termos como “sacramento audível” (sacramentum audibile) e “palavra visível” (verbum visibile), eles não devem nos enganar. É verdade que não há nada de especial nos elementos que são abençoados em si mesmos. Por isso, é precisamente a palavra, quando unida à água, ao pão e ao vinho, bem como às ondas sonoras, que os torna sacramentos e nos concede o mesmo dom de perdão dos pecados, gerando e fortalecendo a fé. No entanto, não devemos igualá-los completamente. O Batismo é o sacramento da porta, e não é repetido, enquanto a Ceia do Senhor deve ser recebida semanalmente como alimento para a vida e caminha do cristão na terra. A confissão concede o perdão dos pecados, mas não o Corpo e o Sangue de Cristo. O que dizemos sobre o Batismo, portanto, não se aplica necessariamente à Ceia do Senhor. Assim, por exemplo, aceitamos o Batismo dos reformados como válido, mas não consideramos sua Ceia do Senhor como válida. Da mesma forma, por exemplo, a absolvição pode ser dada por um leigo, mas não reconhecemos o conceito de uma “Ceia do Senhor de emergência”. Para nós, ouvir apenas a pregação não é suficiente; também precisamos da Ceia do Senhor semanalmente. Portanto, o melhor é desfrutar e admirar a particularidade de cada meio de graça e receber graça sobre graça.

Cristologia e Meios da Graça

Na exposição da teologia luterana, a cristologia, a pessoa e a obra de Cristo precedem a doutrina dos meios de graça. Isso não é apenas uma questão de método expositivo, mas contém um profundo significado teológico. Os meios de graça recebem seu significado do fato de que “o Verbo se fez carne” (Jo 1.14) A segunda pessoa do Deus eterno, imutável e invisível assumiu a natureza humana no ventre da Virgem Maria. O Espírito de Deus entra na matéria, o Criador no criado, e o Invisível se torna visível. A maneira como Deus realiza a história da salvação é sempre teologia da cruz, ou seja, o poder oculto na fraqueza, a glória na insignificância, o Espírito na matéria, a fé em vez da experiência, e a direção é sempre de cima para baixo. O princípio do conhecimento de Deus no luteranismo é: Deus absconditus é Deus revelatus somente e unicamente naquele que é Deus incarnatus. Portanto, não temos nenhum conhecimento direto do Deus Triúno, nem acesso ao Deus oculto, exceto em Cristo encarnado. Ao confessar isso, afirmamos que Deus não deseja se relacionar com as pessoas de outra maneira que não seja por meio dos meios da graça. A encarnação é um juízo contra todo misticismo que busca se aproximar do Deus nu, sem intermediários. Esse modelo encarnacional continua também nos meios de graça dentro da congregação.

A vida de Cristo, seu sofrimento vicário e morte na cruz, bem como sua ressurreição, foram, de fato, a absolvição de todo o mundo. Embora o pecado ainda atue no mundo, o coração de Deus agora é gracioso. Essa disposição graciosa de Deus significa justificação universal. A reconciliação foi realizada por Deus de uma vez por todas, mas agora ele deseja compartilhar seus frutos, para que ninguém fique sem eles. Por isso, ele instituiu os meios pelos quais nos oferece e concede essa graça. Por isso, no luteranismo chamamos os sacramentos de meios de graça, media salutis, porque eles nos transmitem Cristo e seus dons. Os sacramentos não criam uma nova graça, mas nos distribuem a graça já existente. Os sacramentos não são nossos sacrifícios ou promessas de aliança a Deus. Eles não são uma extensão do Decálogo para nós. Não são lei, mas evangelho. Embora o imperativo divino nos obrigue a seguir, por exemplo, o mandamento do batismo e a ordem do Senhor, eles não são exigências da lei para nós. Pois a obediência à lei é completamente diferente de seguir a ordenança graciosa de Cristo, pela qual Ele prometeu nos dar seus dons. Pois, embora não possamos cumprir a lei, temos o evangelho como segurança. Mas, se desprezamos o evangelho e os meios pelos quais ele é trazido a nós, tal como Cristo mesmo os instituiu, resta apenas a condenação. Lutero explica de maneira precisa a relação entre a obra da cruz e a distribuição de seus frutos. Ele responde onde, então, estamos verdadeiramente “aos pés da cruz”:

“Tratamos do perdão dos pecados de duas maneiras. Primeiro, como ele é conquistado e alcançado. Segundo, como é distribuído e dado a nós. Cristo o conquistou na cruz, é verdade. Mas ele não o distribuiu ou deu na cruz. [...] Ele o conquistou de uma vez por todas na cruz. Mas a distribuição ocorre continuamente, antes e depois, do começo ao fim do mundo. [...] Se agora eu procuro o perdão dos pecados, [...] o encontrarei no sacramento ou no evangelho, a palavra que distribui, apresenta, oferece e me dá aquele perdão que foi conquistado na cruz” (Contra os Profetas Celestiais, LW, 40, 213.)

Cristo instituiu os sacramentos para que, neles e por meio deles Cristo possa atuar neste mundo. Sua promessa de estar conosco todos os dias até o fim do mundo (cf. Mt 28.20) não é uma presença vaga, mas temos Cristo, que conhecemos, cheiramos, provamos e cuja voz ouvimos. Quando falamos dos sacramentos, estamos sempre falando de Cristo. Neles, Cristo está realmente presente. Por isso, o slogan luterano é EST! Cristo está realmente presente nos meios de graça tanto em sua natureza divina quanto humana. Os Santos Sacramentos são a ação monergística de Deus por meio de seu ministro da Palavra. Cristo batiza, Cristo distribui seu Corpo e Sangue, Cristo proclama o perdão dos pecados. Os sacramentos são, portanto, a própria ação graciosa de Deus.

Os sacramentos têm uma base objetiva, pois são a ação de Deus por meio de um instrumento humano. Recebemos e possuímos pela fé o dom de Cristo e o perdão dos pecados nos meios da graça. Fé e sacramentos andam unidos. Não de modo que a origem e a manutenção da fé estejam separadas deles, mas sim que, por meio dos sacramentos, a fé é gerada. Pois os meios da graça são sinais da graça de Deus, que não apontam para algo fora de si mesmos, mas oferecem e concedem o que prometem. Eles têm o poder de gerar fé, que por sua vez se apega a Cristo e o possui nos sacramentos. Assim, a justificação pela fé está ligada à justificação universal, embora entre elas deva ser mantida a distinção entre causa e efeito. A graça, afinal, sempre precede a fé.

Pneumatologia e Meios da Graça

Ao longo da história da Igreja, um dos grandes problemas associados ao movimento do “entusiasmo” ou “espiritualismo” tem sido a separação entre Cristo e o Espírito Santo. É importante lembrar o axioma: ubi Spiritus Sanctus ibi Christus, ubi Christus ibi Spiritus Sanctus (“onde está o Espírito Santo, ali está Cristo; onde está Cristo, ali está o Espírito Santo”).[7] Devemos ter em mente que aquele que foi concebido pelo Espírito Santo e sobre quem a pomba desceu, também enviou o Espírito Santo à Igreja. Esses eventos que indicam o envio temporal do Espírito refletem a eterna origem do Espírito a partir do Pai e do Filho (filioque). O Espírito Santo é o Espírito de Cristo. Portanto, os meios da graça são também instrumentos do Espírito Santo. O Espírito não vem até nós como uma pomba ou como línguas de fogo, mas através dos meios que Cristo estabeleceu.

Ainda hoje, enfrentamos o legado do dualismo platônico de mil anos, que separa espírito e matéria. É difícil para nós, de forma racional, entender como o Espírito pode estar presente em substâncias físicas, como água ou pão e vinho. Por isso, devemos constantemente revisar a “Theologia Crucis” (Teologia da Cruz). Deus não vem até nós diretamente em sua majestade nua, mas se oculta aos nossos olhos. O Batismo, a Ceia, a pregação do evangelho e a Confissão são os meios através dos quais o evangelho é trazido de forma material para seres materiais. Isso também tem uma profunda dimensão antropológica, pois não somos apenas seres espirituais, mas temos corpo e alma. Portanto, Deus teve que se tornar carne para que pudéssemos encontrá-lo. Da mesma forma, o Espírito Santo opera através da matéria no meio de seres materiais.

A tarefa do Espírito Santo é chamar e reunir a Igreja,[8] que é o povo de Deus, o corpo de Cristo e o templo do Espírito Santo (cf. 1Co 6.19). É através dos meios da graça que a Igreja é formada e preservada.[9] A Confissão de Augsburgo (art. VII) afirma que a verdadeira Igreja, Una Sancta, está onde o evangelho é pregado corretamente e os sacramentos são administrados corretamente. A eclesiologia luterana é, portanto, encarnacional, ou seja, sacramental, diferenciando-se do modelo católico externo e hierárquico e do modelo reformado interno e espiritualista.

Escatologia e Meios da Graça

Os meios da graça sempre contêm um elemento escatológico. Eles não estão limitados por restrições de tempo e lugar. Eles nos conectam tanto ao Calvário quanto ao juízo final. Os sacramentos estão ligados à lembrança da história da salvação, a anamnesis[10] (por exemplo, a oração de batismo de Lutero menciona o dilúvio, a travessia do Mar Vermelho, o batismo de Jesus no Jordão,[11] ou as palavras da liturgia da ceia: “Na noite em que foi traído”). Os sacramentos apontam para o passado, mas também olham para o futuro, para o juízo final e o banquete nupcial do Cordeiro. No batismo, já ascendemos para uma nova vida; a absolvição que recebemos é um prelúdio da declaração de liberdade no juízo final; e na mesa da ceia, participamos agora da refeição messiânica. Assim, a teologia sacramental mantém uma compreensão bíblica dos últimos tempos, evitando especulações sobre arrebatamentos e reinos milenaristas. Também entendemos que o anúncio de Jesus sobre a iminente chegada do reino de Deus não foi um desastre, apesar de já ter passado dois mil anos. As orações “Maranatha” na liturgia da Ceia[12] nos lembram que Cristo veio e continua a vir para o meio de sua Igreja. Ele nunca nos abandonou! Vivemos agora – não ainda a vida celestial – através dos Sacramentos. Ainda pela fé, mas em breve também pela visão.

A teologia sacramental nunca deve se restringir às “salas de aula” ou se tornar uma “teologia acadêmica”. Os sacramentos não pertencem propriamente à academia, mas aos espaços sagrados da Igreja. Nunca entenderemos os sacramentos corretamente se não passarmos semanalmente pela porta da igreja, ao lado da pia batismal, ouvirmos a Palavra de Deus no púlpito e nos colocarmos ao redor do altar para receber o verdadeiro Corpo e Sangue de Cristo. Ali, o Cristo encarnado, com todos os anjos e arcanjo e a companha celestial, está presente conosco. Portanto, a correta teologia ortodoxa surge de um ensino correto, a orto didaskalia, à verdadeira adoração, orto doxía. À medida que começamos a entender que Cristo está realmente presente através dos sacramentos, descobrimos as riquezas da liturgia antiga, a verdadeira piedade, a alegria na e da adoração.


[2] Sobre a visão romana de “meios da graça”, Pieper afirma: “Roma faz-nos acreditar que a graça conquistada por Cristo leva Deus a infundir no homem uma quantidade suficiente de graça (gratia infusa), ou seja, santificação e boas obras - e isso, é importante notar, com a cooperação constante do homem (Concílio de Trento, Sessão VI, cânon 4) - de modo que ele é capacitado a realmente merecer (vere mereri, Concílio de Trento, Sessão VI, cânon 32) a justificação e a salvação, seja de forma congrua (de acordo com justiça ou liberalidade) ou de forma condigna (por mérito real). Segundo Roma, Cristo conquistou apenas a quantidade de graça necessária para que os homens possam conquistar a salvação por si mesmos. Portanto, os meios da graça no sentido papista não são meios pelos quais Deus oferece à fé o perdão completo dos pecados e a salvação conquistada por Cristo, e através dessa oferta também opera a fé no homem ou fortalece a fé já presente, mas são meios para incitar e ajudar o homem a tais esforços virtuosos, sob direção romana, que podem gradualmente e em medida constantemente crescente (Concílio de Trento, Sessão VI, cap. 16, cânon 32) conquistar a graça de Deus para ele. [...] Com tal ensino, os meios da graça são rebaixados a meios que mantêm o homem na incerteza sobre a posse do favor de Deus”.

[3] Já em relação à visão calvinista, Pieper afirma: “Segundo o ensino dos calvinistas, como a graça salvadora é particular, não existem meios de graça para aqueles a quem a graça de Deus e o mérito de Cristo não se estendem. Pelo contrário, para essas pessoas, os meios de graça são considerados meios de condenação. [...] Os calvinistas também não têm meios de graça para os eleitos. Os crentes são expressamente orientados por Calvin a não determinar sua predestinação a partir da Palavra externa, ou seja, do chamado universal (vocatio universalis) que ocorre através da Palavra exterior (per externum praedicationem), mas a partir do chamado especial (vocatio specialis), que consiste em uma iluminação interior pelo Espírito Santo. [..] essa ‘iluminação interior’ não é causada pelos meios de graça; é realizada imediatamente pelo Espírito Santo”.

[4] “Discutir o número de sacramentos é inútil até que se chegue a um acordo sobre a definição de um sacramento. A ação do Concílio de Trento ao anatematizar todos que ensinam ‘mais ou menos do que sete’ sacramentos é tanto ímpia quanto tola. O número de sacramentos que enumeramos depende da definição adotada. Se definirmos um sacramento como um ato ordenado por Deus ao qual Ele anexou a promessa do perdão dos pecados e para o qual Ele prescreveu um elemento visível, então há apenas dois sacramentos: o Batismo e a Ceia do Senhor. Omitindo o elemento visível em sua definição, a Apologia conta também a absolvição como um sacramento”.

[5] A palavra “sacramento” vem da tradução latina da Bíblia, onde a palavra grega “mistério” é traduzida como “sacramento”

[6] Catecismo Maior, Quarta Parte: Do Batismo, p. 494, [18]

[8] Lutero, no Catecismo Menor afirma que o Espírito Santo “chama, congrega, ilumina e santifica toda a cristandade na terra, e em Jesus Cristo a conserva na verdadeira e única fé” (cf. Catecismo Menor, II – O Credo, terceiro artigo: da santificação in Livro de Concórdia, 2021, p. 390, [6].

[9] Masaki, sobre a igreja, faz a seguinte afirmação: “no Novo Testamento, diz Lutero, o nome do Senhor habita em Cristo. Onde está Cristo, aí está a igreja como um corpo unido com Cristo. Onde a igreja está, ali estão a Palavra de Deus, a Ceia do Senhor e o Batismo. A confissão de Lutero é consistente com a de Inácio de Antioquia: ‘Que seja considerada uma verdadeira eucaristia aquela que é conduzida pelo bispo. Onde o bispo aparece, ali deve estar a igreja, assim como onde está Jesus Cristo, ali está a igreja católica.’ Para Lutero, a igreja é onde Cristo está e onde os meios de graça são oferecidos. Para Inácio, a igreja é onde Cristo está e onde o bispo administra a Ceia do Senhor. Em ambos os casos, a igreja é encontrada onde Cristo entrega os meios de graça por meio do Ofício do Ministério Sagrado. Em contraste com a definição da igreja a partir do homem, aqui a igreja é confessada a partir de Cristo” (Masaki, Naomichi. The Church in Luther’s Large Catechism with Annotations and Contemporany Application”.

[10] Uma liturgia eucarística encontrada na Agenda Litúrgica da SELK (Herausgegeben von der Kirchenleitung der Selbständigen Evangelisch-Lutherischen Kirche. Band 1), traz a seguinte oração de Anamnesis: “Assim lembramos, Senhor, Pai Celeste, o sofrimento e morte redentores, de teu Filho Jesus Cristo. Adoramos sua vitoriosa ressurreição dentre os mortos, e nos consolamos com sua ascensão para tua morada celeste, onde Ele é nosso Sumo Sacerdote, que sempre intercede por nós diante de ti. E assim como pela comunhão do Corpo e Sangue de teu Filho somos um só corpo em Cristo, reúne o teu povo desde os confins da Terra e permite que, junto com todos os teus fiéis, festejemos as bodas do Cordeiro em seu reino. Através dele e no Espírito Santo, seja a ti, Pai todo-poderoso, a glória, o louvor e a adoração agora e sempre, de eternidade a eternidade. Amém”.

[11] “Onipotente eterno Deus, que de acordo com teu reto juízo condenaste o mundo incrédulo pelo dilúvio e, por tua grande misericórdia, conservaste o crente Noé e mais sete pessoas de sua família; que afogaste o endurecido Faraó com todos os seus, no mar Vermelho; que conduziste o teu povo Israel através do mesmo em terra seca, prefigurando, com isso, este banho do teu santo Batismo; e que, pelo Batismo de teu querido Filho, nosso Senhor Jesus Cristo, consagraste e instituíste o Jordão e todas as águas como um dilúvio bem-aventurado e uma rica lavagem dos pecados: pedimos por essa mesma [lavagem] tua profunda misericórdia, que queiras olhar graciosamente para este N. e abençoá-lo com fé verdadeira no Espírito; para que, por meio deste dilúvio salvador, tudo o que lhe é inato desde Adão e que ele mesmo a isto acrescentou seja afogado nele e desapareça; que seja separado dentre o número dos descrentes, conservado seco e seguro na santa arca da cristandade, sirva sempre a teu nome, ardendo em Espírito e alegre em esperança; para que, junto com todos os crentes, ele se torne digno de alcançar vida eterna, de acordo com a tua promessa; por Jesus Cristo, nosso Senhor. Amém”. Manual de Batismo Revisado in Obras Selecionadas, vol. 7. p. 218

[12] As opções 2 e 3 do Livro de Serviço Luterano (Lutheran Service Book), após a consagração dos elementos, trazem como opção a seguinte proclamação: “P Porque, todas as vezes que comerem este pão e beberem o cálice, vocês anunciam a morte do Senhor, até que ele venha. C Amém! Vem, Senhor Jesus”.

sexta-feira, 23 de agosto de 2024

Fonte, Púlpito e Altar

 A Palavra e os sacramentos definem a unidade entre os cristãos. Em um de seus salmos, o rei Davi expressa a grande beleza dessa unidade:

“Oh! Como é bom e agradável viverem unidos os irmãos! É como o óleo precioso sobre a cabeça, o qual desce pela barba, a barba de Arão, e desce para a gola de suas vestes. É como o orvalho do Hermom, que desce sobre os montes de Sião. Ali o Senhor ordena a sua bênção e a vida para sempre” (Salmo 133).

Davi menciona Arão e Sião, não Moisés e Jerusalém, porque está falando da unidade na igreja, não na nação. Segundo Davi, a unidade é boa, prazerosa e preciosa. Onde há essa unidade, também estão presentes a bênção de Deus e a vida eterna. Reconhecendo a importância da unidade, São Paulo destaca sua relevância ao escrever aos Efésios para que façam tudo o que puderem para mantê-la: “fazendo tudo para preservar a unidade do Espírito no vínculo da paz. Há somente um corpo e um só Espírito, como também é uma só a esperança para a qual vocês foram chamados. Há um só Senhor, uma só fé, um só batismo, um só Deus e Pai de todos, o qual é sobre todos, age por meio de todos e está em todos” (Efésios 4.3-6). Assim como Deus é um, há um só corpo, a igreja, um Espírito, uma fé, um batismo.

Na Igreja Luterana, procuramos expressar em nossa prática essa unidade exaltada por Davi e Paulo. No Culto Luterano, reconhecemos a unidade essencial entre a fonte do batismo, o púlpito e o altar. A fé na qual uma criança é batizada é a única fé verdadeira mencionada por Paulo aos Efésios. A fé que o pastor proclama do púlpito não é sua própria opinião, mas a única fé verdadeira expressa no credo. E a fé confessada no altar, quando recebemos a Santa Ceia, não é a fé individual de cada fiel. O perdão recebido na Santa Ceia está ligado à “fé” da igreja. Portanto, a fonte, o púlpito e o altar expressam unidade na fé. Os pastores luteranos não pregam algo diferente da fé na qual a criança é batizada. Da mesma forma, os comungantes não vêm ao altar com crenças que contradizem o que é pregado do púlpito.

Por exemplo, quando somos batizados, não somos batizados em nome de qualquer deus. Somos batizados especificamente em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. A pregação do pastor orienta a fé das pessoas não para algum deus, mas especificamente para o Deus Triúno. Se o pastor não prega para guiar as pessoas a crer no Deus do nosso Batismo, não é um pregador fiel. Quando participamos da Santa Ceia, nos aproximamos do altar com aqueles que confessam fé no Deus Triúno que nos marca no Batismo e a quem o pastor aponta em sua pregação. Criar qualquer tipo de desvio entre a fonte e o altar ou entre o púlpito e o altar, permitindo variações ou discordâncias na doutrina expressa na fonte, no púlpito e no altar, é prejudicar a unidade que Davi e São Paulo pediram para manter e valorizar. Eventualmente, uma prática que não honra a unidade essencial de confissão na fonte, no púlpito e no altar destruirá a integridade confessional da igreja.


Quando falamos de Batismo, pregação e Santa Ceia, estamos, claro, falando da vida no Monte Sião. Estamos falando de como a igreja nasce, é alimentada, sustentada e preservada até o fim. E em cada atividade, Jesus é o centro. São seus benefícios que são derramados sobre nossas cabeças com a água no Batismo. Suas palavras são o foco de toda pregação. É seu perdão e vida que recebemos junto com seu Corpo e Sangue no Sacramento do Altar. É sua santa noiva com quem ele se torna um no altar.

Mas há outra forma de unidade entre a fonte, o púlpito e o altar além da unidade de confissão. O Batismo, a pregação do evangelho e a Santa Ceia nos trazem o mesmo: graça. O propósito do Batismo, do Evangelho e da Santa Ceia é o mesmo: criar e preservar a fé, a fé em Jesus, nosso Salvador. Esta fé é gerada, alimentada e nutrida por uma única coisa: a graça que vem por meio de Jesus Cristo. Assim como os israelitas foram sustentados pelo maná enviado do céu, Sião vive pela graça que Deus envia do céu em seu Filho Jesus Cristo, a graça que chega até nós no Batismo, no Evangelho e na Santa Ceia.

A graça é de valor inestimável. Sem ela, estamos longe de Deus; com ela, estamos em comunhão com Ele. Sem ela, estamos sem esperança; com ela, temos uma esperança viva e uma herança que não se perde (cf. 1Pedro 1.3-4). Sem ela, estamos perdidos para sempre; com ela, vivemos para sempre.

Infelizmente, muitas vezes as pessoas não conhecem ou não apreciam o grande valor da graça de Deus. Como resultado, costumam questionar por que precisam ser batizadas, especialmente se já acreditam em Jesus e no perdão conquistado na cruz. Essas mesmas pessoas podem questionar a necessidade de se aproximar do altar, pois já possuem o que a Santa Ceia oferece. Esse raciocínio pode parecer razoável, mas perde sentido quando examinado com mais atenção. Sim, os cristãos que chegam à fé em Cristo como adultos, por exemplo, já têm perdão completo por todos os seus pecados. Se morrerem, irão para o céu. Não podem ser “mais perdoados” do que são no momento em que creem em Cristo. Os filhos de Deus batizados e que estão na fé vivem constantemente sob a graça de Deus e não são “menos perdoados” em um sábado à noite antes da Santa Comunhão do que em um domingo depois de receber o Sacramento.

Com esse raciocínio, uma pessoa poderia decidir não se batizar nem receber a Santa Ceia nunca mais. Mas, ao adotar esse raciocínio, uma pessoa ignora a razão pela qual os Sacramentos foram dados. Eles são tesouros. São a graça de Deus. Não são obrigações impostas sobre nós, mas presentes. Não são um fardo para a fé, mas a alimentam. Quem, em sã consciência e em circunstâncias normais, rejeitaria o alimento necessário para sustentar sua vida? A graça é o alimento que nutre nossa fé e a sustenta. Por que deveríamos rejeitá-la? As pessoas que não querem ser batizadas ou são negligentes em participar da Santa Ceia não acreditam no que a Bíblia diz sobre o presente de Deus nesses sacramentos.

Imagine que eu tenha um campo cheio de tesouros e permita que você ande por ele. Que eu lhe dê uma bolsa e peça que guarde tudo o que encontrar. Logo, você encontra vários diamantes e coloca na bolsa. Alguns metros adiante, descobre um monte de grandes rubis. Você os deixará lá porque já tem diamantes? A maioria de nós adoraria ter diamantes e rubis, então você adiciona os rubis à bolsa e continua. Agora, você encontra algumas esmeraldas. O que fará? Diamantes, rubis e esmeraldas são todas joias preciosas. Você não vai desprezar uma só porque não parece com as outras. O valor vem de diferentes formas. O que pensaria de alguém que diz: “Minha irmã herdou um milhão de dólares em ouro, mas eu herdei um milhão de dólares em prata. Estou muito descontente.” ? Assim como pedras preciosas, prata e ouro são diferentes, mas todas são valiosas, Deus também tem mais de uma forma de mostrar e nos dar seu amor: o Evangelho, o Batismo e a Santa Ceia. Seu amor e graça não têm menos valor por virem de diferentes meios. Pelo contrário, Deus usa os três meios de graça para garantir que nos ama.

Na proclamação do evangelho, não há dúvida sobre quem Deus deseja perdoar e salvar. A Bíblia diz: “O Senhor... é paciente com vocês, não querendo que ninguém pereça, mas que todos cheguem ao arrependimento” (2Pedro 3.9). Em sua primeira carta a Timóteo, Paulo diz que Deus “deseja que todos sejam salvos e cheguem ao pleno conhecimento da verdade” (1Timóteo 2.4). Jesus disse: “Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo o que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna” (João 3.16). E Paulo proclama que Cristo “morreu por todos” (2Coríntios 5.15). O Evangelho esclarece que Deus ama a todos; Deus enviou seu Filho para todos; Jesus morreu por todos. Portanto, podemos confiar que Jesus é nosso Salvador. No entanto, devido ao pecado, podemos duvidar desse fato, por isso Deus manifesta seu amor e perdão de outra maneira. Ele derrama água sobre nossa cabeça e somos batizados em seu nome. Da mesma forma, Deus estabelece claramente em sua Santa Ceia que sua graça é plenamente destinada a cada pessoa junto ao altar. Não podemos ter dúvidas de que o perdão de Deus é para nós quando o corpo do Salvador é colocado em nossa boca. Não podemos duvidar que Jesus nos salvou quando nos dá para beber seu próprio Sangue derramado por nós na cruz.

O amor de Deus nos fala de diferentes maneiras, mas é o mesmo amor, seja através do Evangelho, do Batismo ou da Santa Ceia. Seu perdão, salvação e vida são transmitidos de formas diferentes, mas são o mesmo perdão, vida e salvação que Cristo conquistou no Monte Calvário e que nos é dado no Monte Sião. Esses tesouros de Deus criam, nutrem e preservam Sião durante a peregrinação na terra e a preparam para o dia em que se encontrará com o Salvador face a face, e a graça culminará em glória eterna.

- Capítulo traduzido e adaptado de Why I am a Lutheran. Jesus at the Center, escrito pelo Rev. Daniel Preus e publicado pela Concordia Publishing House, 2004. Todas as citações da Bíblia Sagrada são da versão Nova Almeida Atualizada (NAA), da Sociedade Bíblica do Brasil.