quinta-feira, 31 de julho de 2025

Comemoração de São José de Arimateia - 31 de julho



Hoje, a santa Igreja se alegra ao lembrar José de Arimateia.

José de Arimateia é mencionado por todos os quatro evangelistas: Mateus (27.57–60), Marcos (15.42–46), Lucas (23.50–53) e João (19.38–42). Ele era natural de uma pequena aldeia chamada Arimateia, nas colinas da Judeia. Homem rico e respeitado membro do Sinédrio judeu, José havia preparado para si mesmo um túmulo novo. Com coragem, dirigiu-se a Pilatos e pediu permissão para sepultar o corpo de Jesus em seu próprio túmulo.

João relata em seu Evangelho (capítulo 19) que José contou com a ajuda de Nicodemos na difícil tarefa de retirar o corpo do Senhor da cruz. Juntos, levaram o corpo de Jesus ao túmulo que pertencia a José, acompanhados de uma grande quantidade de especiarias. Eles envolveram o corpo de Cristo em linho limpo e o sepultaram às pressas, pois o pôr do sol marcava o início do sábado. As mulheres que seguiam Jesus observaram o local e planejavam retornar após o sábado para completar os ritos de preparação do corpo, mas encontraram, em vez disso, a surpreendente realidade da ressurreição.

Muitos destacam a coragem de José e Nicodemos, especialmente em contraste com o medo demonstrado pelos demais discípulos. Esses dois homens, membros do Sinédrio judeu, não hesitaram em pedir ao governador romano, Pilatos, permissão para sepultar o “Rei dos Judeus” e obtiveram sua autorização.

O cuidado que José demonstrou pelo corpo de Cristo foi, por si só, uma confissão da fé na ressurreição dos mortos. Da mesma forma, os corpos dos santos não são restos a serem descartados, mas verdadeiras relíquias sagradas, aguardando a gloriosa ressurreição.

Ao lembrarmos de José e de seu serviço prestado ao corpo do Senhor, também recordamos que nós, cristãos, recebemos o chamado de honrar os corpos daqueles que morreram em Cristo. Confessamos diante de um mundo incrédulo que esses corpos devem ser tratados com respeito, porque, unidos a Cristo, serão ressuscitados em glória no Último Dia, quando nosso Senhor aparecer novamente, ressuscitar todos os mortos e conceder a vida eterna a todos os que creem nEle.

ORAÇÃO DO DIA
Misericordioso Deus, teu servo José de Arimateia preparou o corpo de nosso Senhor e Salvador para o sepultamento com reverência e temor a Deus e o depositou em seu próprio túmulo. Ao seguirmos o exemplo de José, concede a nós, teu povo fiel, a mesma graça e coragem para amar e servir a Jesus com devoção sincera todos os dias de nossas vidas; através de Jesus Cristo, nosso Senhor, que vive e reina contigo e o Espírito Santo, um só Deus, agora e sempre. Amém

Traduzido e Adaptado de WEEDON, William. Celebrating the Saints (Concordia Publishing House, 2016).

terça-feira, 29 de julho de 2025

Podemos cantar o Sanctus, por favor?

Uma prática não incomum durante o Serviço do Sacramento em algumas congregações da LCMS (e também na IELB) é a omissão do Prefácio, do Prefácio Próprio e do Sanctus. Numa tentativa de abreviar o culto (mesmo que minimamente, diga-se de passagem), a ordem resultante geralmente é algo como: sermão, ofertas, orações, Pai Nosso e, em seguida, diretamente as Palavras da Instituição (Verba). Embora a transição seja certamente fluida, vale a pena refletir sobre o que se perde nesse processo.

O que se perde não é nada menos do que algumas das partes mais antigas do Culto Divino. O diálogo de abertura do Prefácio, por exemplo, remonta à Tradição Apostólica do início do terceiro século, com a implicação de que já era usado bem antes disso. Esse diálogo, que nos convida a elevar nossa mente às coisas do alto (Colossenses 3.1) enquanto começamos nossa ação de graças pelas ricas bênçãos do Senhor neste Sacramento (Santa Ceia), logo se tornou o início fixo do Serviço do Sacramento (Liturgia da Santa Ceia) tanto no Oriente quanto no Ocidente. Cerca de um século depois, sua ampliação já estava firmemente estabelecida em todo o mundo mediterrâneo, com muitos dos ritos antigos literalmente se atropelando em ações de graças a Deus: 

“É verdadeiramente digno e justo, conveniente e proveitoso, louvar-te, [entoar-te hinos,] bendizer-te, adorar-te, glorificar-te, dar-te graças.”[1] 

O ponto enfatizado em todos esses ritos antigos é claro: não há resposta mais apropriada à misericórdia que Deus nos mostra nesta santa ceia do que reconhecer que tal ação de graças é de fato digna em todos os tempos e lugares.

Claro, há mais. Por meio do Prefácio Próprio, ouvimos — em pequenos trechos distribuídos ao longo do Ano da Igreja — os feitos salvadores de Cristo, tudo o que ele realizou por nós. E então, com grande solenidade, o Prefácio conclui com aquelas palavras familiares (“por isso com anjos e arcanjos...”), que reconhecem uma realidade acessível apenas pela fé — a saber, que nós, reunidos aqui, seja uma congregação de centenas ou apenas alguns fiéis, não estamos sozinhos em nossa ação de graças. Pelo contrário, é a verdade inabalável de que nossas vozes se unem ao grande coral de santos e anjos que habitam na presença mais próxima de Cristo. Em nenhum outro momento do culto esse mistério é tão claramente reconhecido ou tão eloquentemente expresso.

O que é que então dizemos com essa grandiosa companhia celestial? É o “Santo, Santo, Santo” dos anjos reunidos ao redor do trono de Deus (Isaías 6.3; Apocalipse 4.8); à sua incessante adoração de Deus unimos nossas vozes por esse breve momento. Diferente dos antigos israelitas, que eram instruídos a buscar a glória do Senhor num lugar específico (isto é, o propiciatório sobre a arca da aliança), reconhecemos que a glória do Senhor agora se manifesta em todo lugar onde o seu mandamento de comer e beber de sua carne e sangue é fielmente cumprido. Por isso, nós o aclamamos com clamores de súplica (“Hosana!”), confiantes de que aquele que entra em nosso meio por meio dos humildes sinais do pão e do vinho traz vida e salvação. Bendito, de fato, é ele!

Se, por questão de tempo, for necessário encurtar o Culto, que não seja o Prefácio e o Sanctus que sofram esse corte. Despedimo-nos do hino final, que nem sequer está listado como parte obrigatória do culto, ou do hino de invocação, que aparece apenas sob uma rubrica opcional. Corte os noventa segundos do sermão ou das orações, se for preciso. Mas não prive os fiéis deste momento sublime, quando suas vozes se unem à companhia celestial para reconhecer o Senhor que está em seu meio.

GRIME, Paul J. May we sing the Sanctus, please?. Concordia Theological Quarterly, Fort Wayne, IN, v. 84, n. 3–4, p. 363–368, jul./out. 2020. Tradução de Filipe Schuambach Lopes.


[1] “Liturgia de São Tiago”, em R. C. D. Jasper and G. J. Cuming, Prayers of the Eucharist: Early and Reformed, 3rd ed. (Collegeville, MN: Liturgical Press, 1987), 90. Observe-se a semelhança dessas palavras com as do Gloria in Excelsis, que também tem origem oriental dessa mesma época.

Comemoração de Maria, Marta e Lázaro de Betânia - 29 de julho


Hoje lembramos três amigos de Jesus: Maria, Marta e Lázaro de Betânia.

Imagine como deve ter sido difícil para elas: um atraso que parecia sem explicação. Maria e Marta mandaram avisar Jesus que Lázaro estava doente, pois sabiam que uma palavra de Jesus podia curar qualquer enfermidade e afastar até a morte (João 11.1–3).

Mas o tempo passou e Jesus não respondeu. Ele não apareceu. Silêncio. E, enquanto isso, o irmão delas piorava diante de seus olhos, até que morreu. Lázaro fechou os olhos e parou de respirar. Seus corações se partiram. E Jesus ainda não tinha vindo (João 11.6).

Elas o prepararam para o sepultamento com todo carinho, envolveram seu corpo em faixas e o colocaram no túmulo. A cidade participou do funeral. A pedra foi colocada na entrada. A escuridão tomou conta do túmulo... e dos corações das irmãs. Lázaro estava morto. E Jesus ainda não tinha chegado.

No meio do luto, as perguntas começaram a brotar: “Por que Ele não veio? Será que ele não se importa mais? Será que fizemos algo errado?” Maria, que tantas vezes havia sentado aos pés de Jesus para ouvir sua Palavra (Lucas 10.39), se agarrava agora às promessas do amor do Pai. Marta, por sua vez, continuava se ocupando, tentando lidar com a dor.

Então, alguém avisou: “Jesus está vindo.” Marta correu para encontrá-lo. E desabafou:
“Se o Senhor estivesse aqui, o meu irmão não teria morrido. Mas também sei que, mesmo agora, tudo o que o senhor pedir a Deus, ele concederá.
Jesus disse a ela:
— O seu irmão há de ressurgir.
Ao que Marta respondeu:
— Eu sei que ele há de ressurgir na ressurreição, no último dia.
Então Jesus declarou:
— Eu sou a ressurreição e a vida. Quem crê em mim, ainda que morra, viverá.”
(João 11.21–25)
Depois, Maria também se aproximou de Jesus. Ao ver o sofrimento dela, Jesus se comoveu profundamente. Ele chorou (João 11.35). Foram juntos ao túmulo. E lá, diante de todos, Jesus ordenou: “Lázaro, venha para fora!” E Lázaro saiu. Não um fantasma ou um morto-vivo, mas uma pessoa viva, que havia sido chamada de volta à vida pela voz do Filho de Deus (João 11.43–44).

Mas por que esse atraso? Por que Jesus não foi direto curá-lo? A resposta de Jesus é esta:
“Essa doença não é para morte, mas para a glória de Deus, a fim de que o Filho de Deus seja glorificado por meio dela.” (João 11.4)
Jesus realmente amava aqueles três irmãos (João 11.5). E ele também ama você. Mesmo quando as situações parecem sem saída, mesmo quando as orações parecem não ter resposta, podemos confiar: ele vê, ele se importa e está agindo com propósito. Às vezes, o milagre vem depois da espera. Às vezes, a cruz vem antes da ressurreição. Mas a presença de Jesus, Aquele que é a ressurreição e a vida, é o que nos dá verdadeira paz (João 14.27).

Lázaro é uma pequena amostra do que acontecerá com todos os que creem em Cristo:
“Vem a hora em que todos os que se acham nos túmulos ouvirão a voz dele e sairão” (João 5.28–29)
A ressurreição no último dia é certa. Mas até lá, você tem em Jesus um amigo fiel, que chora com você, caminha ao seu lado e vai, um dia, te chamar pelo nome para a vida eterna.

ORAÇÃO DO DIA
Pai Celestial, teu amado Filho fez amizade com seres humanos frágeis como nós para torná-los teus amigos. Ensina-nos a ser como os queridos amigos de Jesus de Betânia, para que possamos servi-lo fielmente como Marta, aprendermos sinceramente com ele como Maria e, finalmente, sermos ressuscitados por ele como Lázaro. Através de Jesus Cristo, Senhor deles e nosso, que vive e reina contigo e o Espírito Santo, um só Deus, agora e sempre. Amém.

Traduzido e Adaptado de WEEDON, William. Celebrating the Saints (Concordia Publishing House, 2016)

A fundação da Igreja Evangélica Luterana do Brasil (IELB) - OS PRIMEIROS 10 ANOS DE UM NOVO DISTRITO SINODAL: 1904–1914


📖 Este é o último post da nossa série contando a história da fundação
da Igreja Evangélica Luterana do Brasil.
Através dessas publicações, revisitamos o início da missão luterana no Sul do Brasil, os desafios enfrentados pelos primeiros missionários e a fidelidade que marcou a pregação da Palavra e a formação das primeiras comunidades.

Que essa história inspire gratidão a Deus e renovado compromisso com a missão da nossa igreja hoje.
Agradecemos a todos que acompanharam! Que o Senhor continue abençoando a IELB! 

sexta-feira, 25 de julho de 2025

A fundação da Igreja Evangélica Luterana do Brasil (IELB) - O COMEÇO: 1900-1904


📖 Continuamos a contar a história da IELB…
Dando sequência à série de publicações sobre as origens da Igreja Evangélica Luterana do Brasil, compartilhamos hoje mais um trecho do livro “Um Grão de Mostarda: a história da Igreja Evangélica Luterana do Brasil”, volume 1, escrito por Mário L. Rehfeldt.

Este trecho relata os desafios e os primeiros passos da missão luterana no sul do Brasil, especialmente o trabalho do pastor Broders e do diretor de missões Wilhelm Mahler. Uma história de fé, perseverança e dedicação ao Evangelho.

Boa leitura!

segunda-feira, 23 de junho de 2025

A fundação da Igreja Evangélica Luterana do Brasil (IELB) - O Pano de Fundo


Em alusão ao aniversário de 121 anos da IELB, celebrado neste dia 24 de junho
, queremos compartilhar com vocês um trecho especial do livro "Um grão de mostarda: a história da Igreja Evangélica Luterana do Brasil", Volume 1, escrito por Mário L. Rehfeldt.

Neste primeiro post, nosso objetivo é apresentar o pano de fundo histórico e religioso que preparou o caminho para o surgimento da IELB. Ao compreendermos o contexto em que nossos antepassados viviam e os desafios enfrentados, conseguimos valorizar ainda mais a graça de Deus que sustentou essa semente de fé que cresceu e floresceu até os nossos dias

sexta-feira, 13 de junho de 2025

O Reformador e a Freira: 500 anos de uma união histórica

Há exatos 500 anos, em 13 de junho de 1525, Martinho Lutero, então com 42 anos, casou-se com Katharina von Bora, uma ex-freira de 26 anos (1499–1552). Na época, esse ato era considerado um “crime” segundo o direito canônico vigente, passível até de pena de morte, e foi visto por muitos como um escândalo. O casamento dos dois durou vinte e um anos e foi abençoado com seis filhos. Após a morte de Lutero, Katharina ainda viveria por mais seis anos.

A decisão de Lutero de se casar com Katharina teve mais motivações teológicas do que românticas. Ele disse ter feito isso para “agradar seu pai, provocar o papa, fazer os anjos rirem e os demônios chorarem.” Katharina foi a única das ex-freiras do convento de Nimbschen que, após fugirem para Wittenberg em abril de 1523, ainda não havia se casado nem encontrado emprego estável. As demais já haviam se estabelecido. Os motivos que levaram Katharina a aceitar o casamento com Lutero intrigam os historiadores até hoje. Ela recusou diversas propostas de casamento, mas confidenciou ao amigo de Lutero, Nicolaus von Amsdorf, que aceitaria se fosse dele — ou de Lutero! No fim, foi Lutero quem a conquistou, apesar das reservas de amigos como Philipp Melanchthon, que tinham dúvidas tanto sobre o casamento em si quanto sobre Katharina.

Naquele 13 de junho, a cerimônia foi simples e privada, com testemunhas como Justus Jonas, JohannesBugenhagen e o casal Lucas e Barbara Cranach. Mais tarde, em 27 de junho, houve uma recepção pública e festiva. O casal passou a viver no antigo mosteiro agostiniano de Wittenberg — conhecido como “Claustro Negro” — que se tornou não apenas o lar da família, mas também hospedaria, hospital e até cervejaria doméstica, tudo organizado com competência por Katharina, mulher de notável talento e energia.

Mas como seria a vida matrimonial dos Lutero? O contexto em que se casaram era bem distinto daquele dos casamentos dos dias de hoje. A vida familiar certamente foi desafiadora: um teólogo ativo e excomungado, considerado criminoso pelo império, casado com uma mulher que vivera a maior parte da vida enclausurada e que agora era lançada aos olhos do mundo.

O que podemos aprender com o casamento de Lutero e Katharina?
Em uma época como a nossa, onde tantos casamentos são desfeitos com facilidade, muitas vezes por razões superficiais ou pela simples busca de conforto individual, o casamento de Lutero e Katharina nos oferece uma lição valiosa.

Eles não entraram no matrimônio buscando perfeição ou facilidades. Enfrentaram pressões externas, limitações internas, dificuldades financeiras e pessoais. Ainda assim, permaneceram firmes, construindo uma vida juntos baseada em compromisso, respeito mútuo e responsabilidade diante de Deus.

Seu exemplo nos lembra que o casamento cristão não é sustentado por emoções passageiras, mas por uma aliança diante de Deus, em que ambos servem um ao outro em amor e paciência. É uma escola onde se aprende diariamente a perdoar, a recomeçar e a confiar que Deus atua até mesmo nas pequenas tarefas do cotidiano.

O lar de Lutero e Katharina não era um palco de perfeição, mas um local onde o evangelho era vivido de forma concreta: no cuidado com os filhos, na administração dos recursos, no acolhimento aos necessitados, e no encorajamento mútuo nas horas de aflição. Ali, fé e vida andavam de mãos dadas.

Nos tempos atuais, precisamos redescobrir a beleza do casamento como vocação. Em vez de vê-lo como uma prisão ou um contrato frágil, somos chamados a enxergá-lo como um presente de Deus, no qual crescemos, amadurecemos e testemunhamos Cristo em nosso viver diário.

Que o exemplo de Lutero e Katharina nos inspire a valorizar nossos lares e a viver nossos casamentos com coragem, fidelidade e esperança. Que sejamos, como eles, testemunhas do amor de Deus também dentro de casa.

quarta-feira, 23 de abril de 2025

Quarta-feira de Páscoa (23 de abril de 2025)

Celebração da Santa Ceia na Igreja Luterana Bom Pastor em Palmar Arriba, República Dominicana - 20/04/2025

Ainda estamos celebrando a Páscoa do Senhor: este tempo de alegria e vitória, no qual a Igreja proclama: Cristo ressuscitou! Aleluia! Dentro dessa grande celebração, hoje comemoramos a Quarta-feira de Páscoa, e a liturgia da Palavra nos conduz a reconhecer a presença viva do Senhor Jesus, que continua alimentando seus discípulos e lhes concedendo vida com Deus.

No Evangelho segundo São João, vemos Jesus aparecendo aos discípulos pela terceira vez depois da ressurreição (João 21.1,14). Ele se manifesta na margem do mar de Tiberíades, onde os discípulos haviam voltado a pescar. Após uma noite inteira sem sucesso (João 21.3), uma simples ordem de Jesus muda tudo: “Lancem a rede do lado direito do barco” (João 21.6). Eles obedecem e a rede se enche de peixes. Diante disso, o discípulo amado diz com convicção: “É o Senhor!” (João 21.7).

Esse reconhecimento não acontece apenas com os olhos, mas com o coração cheio de fé. O mesmo Jesus que havia alimentado multidões no passado (cf. João 6.1-13), agora prepara pão e peixe sobre brasas (João 21.9), e convida: “Venham comer” (João 21.12). É um gesto cheio de amor, cuidado e comunhão. O Ressuscitado se faz presente e serve aos seus, restaurando a confiança e o vínculo com Ele.

Mas essa comunhão com Cristo está sempre unida ao chamado ao arrependimento. Em Atos dos Apóstolos, ouvimos Pedro pregando com clareza e coragem: “Vocês negaram o Santo e o Justo e pediram que fosse solto um assassino. Vocês mataram o Autor da vida, a quem Deus ressuscitou dentre os mortos” (Atos 3.14–15). Mas ele também anuncia com firmeza: “Deus, assim, cumpriu o que tinha anunciado anteriormente pela boca de todos os profetas: que o seu Cristo havia de padecer” (Atos 3.18). E diante dessa graça, ele convida: “Arrependam-se e se convertam, para que sejam cancelados os seus pecados” (Atos 3.19).

A nova vida que recebemos na Páscoa tem um centro: Jesus Cristo. Ele não apenas apareceu no passado, mas continua se manifestando no presente, por meio da sua Palavra e dos seus Sacramentos. Como diz São Paulo aos Colossenses: “Portanto, se vocês foram ressuscitados juntamente com Cristo, busquem as coisas lá do alto, onde Cristo vive, assentado à direita de Deus” (Colossenses 3.1). E ele continua: “Porque vocês morreram, e a vida de vocês está oculta juntamente com Cristo, em Deus” (Colossenses 3.3).

Essa verdade se reflete também na liturgia da Santa Ceia, quando o pastor convida: “Levantai os vossos corações!” e a assembleia responde: “Levantemo-los ao Senhor!” Essa não é apenas uma expressão simbólica, mas uma realidade espiritual: pela fé, somos elevados à presença de Cristo, onde ele mesmo nos alimenta com seu verdadeiro corpo e sangue. Ele continua se doando a nós — assim como naquela manhã à beira do mar.

Como o apóstolo Paulo escreveu: “Isto é o meu corpo, que é dado por vocês; façam isto em memória de mim. [...] Este cálice é a nova aliança no meu sangue; façam isto, todas as vezes que o beberem, em memória de mim” (1Coríntios 11.24–25). A Ceia do Senhor é comunhão real com o Cristo ressuscitado, que nos perdoa, nos fortalece e nos dá a vida eterna.

O Senhor ressuscitado está presente hoje na sua Igreja. Ele continua chamando ao arrependimento, oferecendo perdão, servindo com sua graça, e fortalecendo com sua vida. Por isso, com fé, colocamos nosso coração em Cristo e buscamos as coisas do alto, onde Ele vive e reina para sempre (Colossenses 3.1–4).

Como afirma o salmo deste dia: “Não morrerei; pelo contrário, viverei e contarei as obras do Senhor” (Salmo 118.17). Cristo vive! E porque Ele vive, também nós vivemos. Aleluia!

ORAÇÃO DO DIA
Todo-poderoso Deus, que pela gloriosa ressurreição de teu Filho Jesus Cristo destruíste a morte e trouxeste à luz a vida e a imortalidade, concede que nós, que ressuscitamos com ele, possamos habitar em sua presença e exultar na esperança da glória eterna; através do mesmo Jesus Cristo, nosso Senhor, que vive e reina contigo e o Espírito Santo, um só Deus, agora e sempre. Amém.

- Clique aqui para acessar os textos do lecionário correspondentes a este dia.

terça-feira, 22 de abril de 2025

O Círio Pascal: a luz do Cristo ressuscitado na Liturgia Luterana

Um dos símbolos mais expressivos da liturgia pascal cristã é o Círio Pascal, a grande vela que representa Cristo, a luz do mundo (Jo 8.12). Ele aparece com destaque na noite da Vigília Pascal, a mais importante celebração do ano cristão, marcando a transição das trevas da morte para a luz da ressurreição. Como a Igreja Evangélica Luterana do Brasil (IELB) não possui uma liturgia própria oficial para a Vigília Pascal — tradição que historicamente não tem sido amplamente observada entre nós —, utilizo aqui como referência a forma litúrgica empregada por nossa igreja-irmã, a Lutheran Church—Missouri Synod (LCMS).

A Vigília Pascal se inicia fora da igreja, após o pôr do sol do Sábado Santo. A congregação se reúne em um ambiente escurecido, e uma chama é preparada previamente. Ao contrário de outras tradições litúrgicas, não se realiza bênção do fogo na liturgia luterana, mas a vela pascal é acesa a partir de uma chama nova, sinal de renovação e vida.

Antes de acender a vela, o pastor grava sobre ela uma cruz e diz: “Cristo Jesus, o mesmo ontem, hoje e eternamente, o princípio e o fim” (cf. Hb 13.8). Em seguida, traça as letras gregas Alfa e Ômega, proferindo: “O Alfa e o Ômega”, e inscreve o ano atual entre os braços da cruz: “Dele são o tempo e a eternidade; dele é a glória e o domínio, agora e para sempre.” Então, insere-se na vela cinco cravos de cera, que podem conter grãos de incenso, simbolizando as cinco chagas de Cristo crucificado. Como resume Lang: “No centro e em cada extremidade da cruz afixam-se cravos de cera para simbolizar as cinco feridas de Cristo” (Lang, Manual da Comissão de Altar, p. 28).

O Círio é então aceso e conduzido em procissão solene para dentro da igreja escurecida. Durante a procissão, o portador proclama por três vezes: “A luz de Cristo!”, e a assembleia responde com fé: “Demos graças a Deus!”. Essas proclamações marcam a entrada progressiva da luz de Cristo ressuscitado na escuridão do mundo. Conforme a tradição, elas ocorrem na entrada, no meio do templo e junto ao altar. Nesse momento, os fiéis acendem suas velas a partir do Círio, formando uma cadeia de luz que simboliza a propagação da fé e da vida em Cristo.

Uma vez colocado em seu suporte diante do altar, canta-se o Precônio Pascal (Exsultet), hino antigo que exalta a vitória de Cristo sobre as trevas. Timothy Maschke descreve o Círio como “uma coluna luminosa que conduz o povo de Deus para o céu”, fazendo eco à coluna de fogo que guiava Israel no deserto (Maschke, Gathered Guests, p. 223). O canto proclama que “a antiga escuridão foi banida para sempre” e pede que “Cristo, a verdadeira luz e estrela da manhã, brilhe em nossos corações”.

É recomendado que o Círio Pascal seja novo a cada ano, como sinal da nova criação que se inicia com a ressurreição de Cristo (LSB Altar Book, p. 529), mas nada impede que se reutilize o Círio Pascal do ano anterior. Nele devem estar presentes os elementos essenciais: a cruz, o ano corrente, as letras Alfa e Ômega e os cinco cravos. Elementos adicionais podem ser usados com moderação, como pequenas decorações litúrgicas, inscrições bíblicas ou ornamentação simbólica, como por exemplo, imagens do cordeiro pascal, videira ou trigo, contanto que não obscureçam a centralidade do símbolo. Contudo, como bem destaca Lang: “Esse símbolo pascal deve expressar sua mensagem por si mesmo” (Lang, op. cit., p. 28). Sua simplicidade e sobriedade comunicam de modo mais direto a verdade da fé: Cristo ressuscitou!

É importante enfatizar que o uso do Círio Pascal não é obrigatório na tradição luterana, mas é uma grande oportunidade catequética e litúrgica para enriquecer a celebração da Páscoa e aprofundar a compreensão da fé cristã por meio de sinais visíveis que proclamam o Evangelho. O Círio Pascal remonta aos primeiros séculos do cristianismo ocidental, como símbolo da luz de Cristo ressuscitado. Segundo Frank Senn, sua prática se desenvolveu principalmente nas igrejas latinas e gálicas, sendo incorporada às celebrações da Páscoa por meio da liturgia da luz, o antigo lucernarium das Vésperas (Senn, Christian Liturgy: Catholic and Evangelical, p. 214).

Durante o Tempo Pascal, que se estende até a festa da Ascensão, o Círio permanece aceso em todas as celebrações. No culto da Ascensão, ao ser lido Marcos 16.19 (“foi recebido no céu e sentou-se à direita de Deus”), o Círio é apagado, marcando a ascensão visível do Senhor, embora sua luz permaneça espiritualmente presente entre os fiéis, por meio da Palavra e dos Sacramentos.

Após esse período, o Círio passa a ocupar lugar junto à pia batismal, sendo usado nas celebrações de Batismo, Confirmação e nos ritos fúnebres (quando realizados no templo). Quando um cristão é batizado, acende-se uma vela a partir do Círio e entrega-se ao batizando com as palavras: “Receba esta luz ardente, sinal de que você recebeu Cristo, luz do mundo. Viva sempre na luz de Cristo.” Esse gesto remonta à tradição da Igreja antiga, como aponta Senn: “O Círio Pascal era já abençoado nas igrejas da África, Espanha, Gália e Itália nos séculos IV e V”, sendo usado nos ritos de iniciação cristã (Senn, op. cit., p. 214).

Nos funerais cristãos, o Círio aceso simboliza que o batizado permanece na luz de Cristo mesmo na morte. O Círio está presente no começo da vida cristã e também no fim, como sinal da promessa cumprida: “Quem crê em mim, ainda que morra, viverá.” (Jo 11.25).

O simbolismo do Círio é amplamente escatológico. Ele aponta para a luz eterna da nova criação, já presente em Cristo ressuscitado, mas ainda aguardando sua plena manifestação na glória futura. Como ensina São Paulo: “Desperta, tu que dormes, e levanta-te dentre os mortos, e Cristo te iluminará.” (Ef 5.14). Toda vez que acendemos uma vela a partir do Círio, somos lembrados de que fomos feitos filhos da luz, chamados a refletir essa luz no mundo, vivendo com sobriedade, fidelidade e esperança.

O Círio Pascal não é apenas uma vela litúrgica; ele é uma pregação visível do Evangelho. Sua luz que brilha na escuridão testemunha a realidade da ressurreição. Ele representa Cristo vivo entre nós, conduzindo seu povo, iluminando o caminho, chamando-nos à fé e à vigilância. A cada ano, ao vê-lo aceso, somos convidados a renovar nossa confiança em Cristo, a fonte da verdadeira luz, e a confessar com a Igreja de todos os tempos: Cristo ressuscitou! Ele realmente ressuscitou! Aleluia!

+ Rev. Filipe Schuambach Lopes

BIBLIOGRAFIA:
LANG, P. H. D. Manual da Comissão de Altar. IELB: Porto Alegre, 1987.
LCMS – Lutheran Church—Missouri Synod. Lutheran Service Book: Altar Book. Saint Louis: Concordia Publishing House, 2006.MASCHKE, Timothy H. Gathered Guests: A Guide to Worship in the Lutheran Church. Saint Louis: Concordia Publishing House, 2003.
SENN, Frank C. Christian Liturgy: Catholic and Evangelical. Minneapolis: Fortress Press, 1997.

O TEMPO DE PÁSCOA: O Período Pascal


O período Pascal inicia com a oração da noite no Sábado de Aleluia e encerra com a oração do meio-dia no Pentecostes. A celebração da Páscoa corresponde à nova vida celebrada na ressurreição de Cristo dos mortos e à nossa ressurreição nele no Batismo. É a festa mais rica do Ano Eclesiástico. As congregações têm a opção de realizar um Culto ao amanhecer, relembrando a surpresa das mulheres ao visitarem o túmulo vazio de Cristo, assim como Cultos que celebram a ressurreição de Jesus Cristo. A alegria da ressurreição continua durante a oitava da Páscoa, quando a alegria da ressurreição de Cristo ecoa por oito dias. Durante esse período de oito dias, os catecúmenos na igreja antiga recebiam a catequese sobre os mistérios do Batismo e da Santa Ceia. Assim como Epifania continua o clímax do Natal, o período da Páscoa mantém viva a celebração pascal, e durante os “grandes cinquenta dias” da Páscoa até Pentecostes - 7x7 = 49 +1 = 50 – onde a igreja vive em seu destino escatológico ao celebrar a ressurreição de Jesus. Sete vezes sete é o número da perfeição, e um dia adicional é a indicação da eternidade. (JUST, 2008, p.217).

A Páscoa é uma celebração de vitória, um momento para todos os cristãos proclamarem corajosamente sua fé no Salvador ressuscitado e vitorioso. Para os primeiros cristãos, a Páscoa não era apenas um dia, era (e é) período que também inclui a celebração da ascensão de Jesus. A celebração da ascensão de Jesus ao céu interrompe esta festa pascal de cinquenta dias, mas isso apenas realça o significado da ressurreição de Cristo. Sua ascensão é o passo final em seu ascenso desde a tumba até o céu, onde eleva nossa natureza humana à sua direita, e nossa humanidade ocupa o trono com ele no céu. A festa da Ascensão era observada pelo menos desde o quarto século, sempre no espírito de alegria, como uma comemoração da conclusão da obra redentora de Cristo. A Igreja Romana utiliza uma cerimônia simbólica: após a leitura do Evangelho, o círio pascal, cuja luz durante os quarenta dias representou a presença do nosso Senhor no meio de seus discípulos, é apagada (REED, 1947, p.514)

A cor para a Páscoa é branca, simbolizando perfeição, celebração e alegria. A cor alternativa para a Páscoa é o dourado, a cor da riqueza e da glória. Se houver paramentos dourados disponíveis, eles devem ser usados apenas no Domingo de Páscoa. A cor branca continua ao longo do período pascal, incluindo a Festa da Ascensão, até a Véspera de Pentecostes, quando os paramentos são trocados para vermelho.